«Missa Utica», de Sammy Baloji

«Missa Utica», de Sammy Baloji, é uma performance que revisita os primeiros contactos entre a Europa e o Reino do Congo, cruzando memória colonial, espiritualidade e música. 

Em parceria com a Contemporânea, o CAM apresenta, na fronteira entre atuação ao vivo, concerto e montagem artística, Missa Utica (2024), de Sammy Baloji (RD Congo, 1978), que reúne os performers Fiston Mwanza Mujilam, Pytshens Kambilo e Barbara Drazkow Drążkowska, em diálogo com os vínculos do passado entre a Europa e o Reino do Congo. Memórias da colonização entrelaçam-se com espiritualidade, memória colonial, música e performance.

A partir de uma longa pesquisa conduzida por Sammy Baloji sobre objetos congoleses espalhados por acervos europeus, a obra Missa Utica retorna a um primeiro contacto entre o cristianismo ocidental e a região central africana, ocorrido ao redor dos últimos anos do século XV. Episódios ligados à conversão religiosa evangélica do Reino do Congo, às dinâmicas de poder coloniais e às transformações culturais e políticas daí resultantes, passam a ser revisitados nesse contexto.

O título remete para Utica, antiga cidade romana, hoje dentro das fronteiras da Tunísia moderna—lugar escolhido como símbolo, ao ser ali consagrado o primeiro bispo africano de ascendência negra, Dom Henrique, filho de D Afonso I, rei do Congo. Esse momento histórico surge como um ponto de partida para refletir sobre como o cristianismo europeu se espalhou pelo continente africano, e das relações que foi construindo com a escravatura, a colonização e os processos de apagamento cultural.

Na obra, destaca-se a Missa Luba, uma composição litúrgica criada no Congo Belga nos anos 1950 por missionários franciscanos, com base em estilos musicais congoleses tradicionais. Embora tenha ganho visibilidade na Europa e nos Estados Unidos da América, pouco se falava das condições coloniais que permitiram o seu surgimento. Em Missa Utica, esse passado volta à tona, mas agora entrelaçado com rumba congolesa, versos recitados e sons improvisados.

Ao longo da performance, música, texto e imagem fundem-se em camadas; tempos distintos ocupam o mesmo espaço sem hierarquia. Corpos falam por si mesmos, trazendo histórias de deslocação, resistência e sobrevivência. Vozes surgem como rastros de luta e persistência diante do apagamento. Assim, a lembrança não fica apenas no passado—ela reaparece.

Em vez de se fixar num único formato, Missa Utica mistura elementos de ritual moderno com traços de performance sonora. A obra segue a investigação contínua de Sammy Boloji sobre as formas como os arquivos coloniais moldam identidades, narrativas históricas e imaginários coletivos.

Missa Utica é integrada no Programa de Performances My Center is Not in the Solar System, com direção artística de Celina Brás e curadoria de Alexandra Balona.

19 set 2026
  • sábado, 20:00

Local

Anfiteatro ao Ar LivreJardim Gulbenkianinfo

 

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Palcos | 12 Setembro 2026 | Sammy Baloji