Com quantos píxeis se constrói um mito?
A imagem de Jair Bolsonaro desconstruída por Miguel Antunes Ramos
Miguel Antunes Ramos viu obsessivamente todos os vídeos publicados por Jair Bolsonaro no seu canal de YouTube ao longo dos anos. Analisou-os e desconstruiu-os do ponto de vista semiótico e fílmico. Desse trabalho exaustivo de observação nasceu Dragões, com estreia internacional no Doclisboa. Segundo o realizador brasileiro, a baixa resolução dos telemóveis e as imagens pixelizadas ajudaram a construir o ‘mito’, numa estratégia empírica que soube tirar partido das redes sociais no momento certo. Bolsonaro tornou-se, de alguma forma, o cineasta do regime neofascista que tentou implementar.
À aproximação da segunda volta das eleições brasileiras, com Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico em várias sondagens recentes, Miguel Antunes Ramos desmonta as estratégias de campanha da extrema-direita e analisa a resposta do campo democrático, num terreno que considera minado pela interferência das big techs americanas e pelo seu alinhamento com Trump.
Miguel Antunes
Quando olhamos para Jair Bolsonaro durante a sessão de impeachment de Dilma Rousseff, ouvindo aquelas declarações bárbaras, nada fazia adivinhar que pudesse vir a ser uma figura popular. Parecia um homem cinzento, fora do seu tempo, que dificilmente saberia usar a câmara do telemóvel. Como se deu essa transformação?
Para os progressistas do Brasil, como eu, essa impressão existe quase até hoje. As pessoas sempre ficaram muito surpresas com a popularidade do Bolsonaro e, ao mesmo tempo, foram incapazes de reconhecer que ele produzia uma forma imagética muito original. Acabei assistindo a todos os vídeos do seu canal de YouTube. Dá para ver que ele começa aos poucos. O primeiro vídeo é de 2010, mas, nos primeiros anos, eram só edições da própria TV do Congresso. Ele vai construindo essa imagética com mais força entre 2014 e 2018, com vídeos diários ou semanais.
Certamente teve o auxílio de vários assessores no processo. Mas parece haver ali uma vocação, um talento pessoal para ser influencer nas redes sociais.
Concordo. Na origem do filme está um pouco essa pergunta. Ele é fascista e assassino, mas não é burro. Acho que o nosso campo é incapaz de ver a inteligência do lado de lá. Isso é um problema, porque eles não param de ganhar. Essa aparência totalmente amadora também é bastante construída. O Bolsonaro é um tipo de figura que nunca tivemos no Brasil: um líder popular de direita. As figuras anteriores da direita seriam os ditadores militares, que não foram eleitos. Eram brutos, não tinham a preocupação de serem populares. Nesse sentido, o Bolsonaro é uma figura estranha.

Identifica diferenças em relação a Trump?
O Trump é um homem da televisão. Nesse sentido, é uma figura mais tradicional: o cara do reality show, um showman. Usava muito o Twitter, que é palavra, texto, em caixas altas, porque ele grita. O Bolsonaro é um produtor de conteúdo. Ele se filma o tempo inteiro. O Trump nunca se filma, não tira uma selfie.
A produção de imagens no YouTube é um campo muito recente. Acho que as pessoas que o dominaram fizeram isso muito por tentativa e erro. Tem uma certa inteligência nisso, uma inteligência empírica. Passaram anos postando vídeos, vendo os resultados, o que funciona e o que não funciona.
Um dos pontos do filme é a questão da baixa resolução. Se aquelas imagens estivessem em alta resolução, já não resultariam?
Acho que não. A força está na imagem pobre. Tem um texto famoso da Hito Steyerl, Em Defesa da Imagem Pobre, justamente sobre essas imagens de internet, pixeladas. Elas aparentam ser verdadeiras. Têm um apelo porque são pixeladas.
O uso da baixa resolução terá sido empírico ou planeado?
Não acho que eles tenham posto no papel e definido um plano. É um movimento que se constrói na prática, e isso é assustador. Conforme ele fala que vai ser presidente, começa a agir como alguém que já é. Há uma mudança no tempo verbal: a esquerda sempre teve como lema o futuro.
No Brasil, o lema do Lula é “Lula lá”. O Lula está aqui, mas eu quero ele lá. É uma projeção de futuro, uma forma de desejo. O deles era o contrário: “É melhor já ir se acostumando”. Só que você se acostuma com uma coisa que já aconteceu em algum lugar. Mas onde isso já aconteceu? Na linguagem, na imagem.
No filme, fala do cinema de Bolsonaro. Podemos considerá-lo um cineasta, no sentido em que criou uma linguagem através do audiovisual?
Nomear a produção de imagens dele como um cinema surgiu inicialmente como uma provocação para o nosso campo: acho que temos que levar isso a sério. Eu sou cineasta. Como tal, vou analisar isso através dos elementos semióticos do cinema. Vou analisar como essas imagens são pensadas, como ele não corta, como dirige e move a câmera. É um plongée, um contra-plongée?
Muito se discutiu sobre o papel do cinema na ascensão do fascismo nos anos 1930. Tem livros sobre isso, sobre a Leni Riefenstahl. Tem um livro do Paul Virilio que fala que o Hitler é um cineasta. Pensar qual é a implicação das imagens nessa guinada à direita do mundo é uma conversa que precisamos ter. Mas é claro que, enquanto janela de exibição, o que ele faz não é cinema, porque não passa no cinema. É feito para outra coisa. Mas são novos tempos.
Os fascismos, o nazismo, tiveram um cinema. No Brasil, é o próprio proto-ditador a fazer o seu cinema?
Exatamente. Um cinema que, por mais que seja muito visto, é um pouco invisível. Não se vê, não se pensa, não se formula. A minha ideia de chamar de cinema é exigir que se olhe para isso a sério. Por exemplo, o vídeo que ele grava dez dias depois de ser esfaqueado é, enquanto obra imagética, de uma eficácia perturbadora. Dá para ver como aquilo é construído, como ele dirige a câmera. Está na cama do hospital e o filho fala: “Eu vou filmar aqui.” Ele responde: “Não, quero falar agora.” Está dirigindo, é um diretor. Quando a câmera chega, é um close-up, ele chora e fala o texto dele. É uma direção profunda, muito eficaz. Aquilo é perturbador porque parece real: é uma câmera na mão, um celular, uma live. São elementos de linguagem contemporâneos. No cinema, falamos de como a câmera na mão e a falta de corte dão realismo. Aquilo é hiper-real, e a força é essa.
Hoje, a imagem é tão importante que todos os políticos têm um assessor que estuda o plano. Ali, dá a ideia de que ele é o seu próprio assessor de imagem.
Acho que é ele próprio. É difícil ter certeza de tudo, mas, durante a feitura do filme, entrevistei algumas pessoas que trabalharam com ele e depois romperam. Não são muitas as que falam publicamente. Conversei com uma política que esteve na campanha de 2018, nessas viagens que eram filmadas. Perguntei quem dirigia e ela falou: “É ele mesmo.” E você vê nos vídeos, vê ele dirigindo a câmera.
A força dele vem de uma percepção audiovisual de como chamar atenção, de como ser visto. Essa intuição é central na contemporaneidade. Tem um aspecto quase — é horrível usar essa palavra — vanguardista nessa produção de imagens. Na era dos influencers, o que todo mundo mais quer é ser visto. Ele tinha essa intuição desde 2010, 2012, 2013. É uma pessoa que intuiu o tempo. E a loucura é que, no Brasil, quem intuiu o tempo é um fascista, herdeiro da ditadura, defensor das coisas mais horrorosas, de torturadores. É essa pessoa que tem a intuição formal do contemporâneo.
No filme, fala também da ideia de que, quando Bolsonaro sai, o espaço fica preenchido por ele. Transformou-se numa personagem coletiva?
A pergunta seria: mas não foi sempre assim? Há um elemento no pixel, no celular, que tem a ver com a baixa definição: as pessoas, no fundo, não veem nada. Você não vê exatamente. Isso se relaciona com chamar ele de mito. É muito forte chamar alguém de mito. O mito é sempre um significante vazio. Nesses vídeos de uma multidão, o que se vê não é o Bolsonaro: é a multidão. É isso que ele está produzindo, a própria massa. E isso é impressionante, porque não depende mais dele. É uma imagética fundada por um líder, mas que prescinde do líder. Parece que pode continuar sozinha. É um pouco o que estamos vivendo agora: ele está preso, mas a coisa continua sem ele. Isso também é assustador.

Não se ver bem a cara dele permite até confundi-lo com o Flávio. O que pensa do Flávio? Usa as mesmas estratégias?
O Flávio é um candidato muito fraco. Não tem o talento imagético do pai. Está envolvido em muitos escândalos de corrupção. Não sabe debater, é horroroso. Não só porque é fascista, mas também porque é um candidato ruim. Parece o candidato mais frágil no campo da direita. O fato de estar quase ganhando é assustador, porque a sensação que tenho é que eles não estão produzindo imagens agora. Não é como em 2018, quando havia milhões de vídeos. É um cenário muito estranho no Brasil. É como se nem precisassem acionar toda essa potência imagética, como já fizeram. Parece que estão jogando parados.
Então, não precisam de fazer nada?
Em tese, precisariam, mas agora não estão precisando. É assustador.
Como pode responder o campo democrático?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Acho que o primeiro turno das eleições no Brasil, que elegeu o Congresso, foi um pouco a vitória do digital sobre o analógico. O Lula fez um governo muito bom, com muitas coisas boas, mas fizeram uma campanha completamente errada: uma campanha de louvação num momento em que os governos do mundo não se reelegem, em que todos os incumbentes têm muita dificuldade de se reafirmar.
A produção imagética do Lula segue o caminho oposto. Ele tem um fotógrafo que, até hoje, assina cada foto no Instagram dele. Que político tem foto assinada hoje em dia? É uma imagética muito antiga. Tanto que, depois do primeiro turno, mudaram completamente. O Lula faz vídeo selfie toda hora. Mas isso vem com dez anos de atraso em relação ao Bolsonaro.
Acho que o Lula, quando assumiu em 2023, imaginou que o bolsonarismo seria uma onda que ia passar. Eu acho que é uma mudança na base da sociedade que não vai voltar para trás.
Agora começam a aparecer figuras na esquerda que tentam falar essa língua. Por enquanto, parece um campo inevitável e muito popular. No Brasil, não ser digitalizado é quase um privilégio de classe. Se você olha para uma cabeleireira, para alguém da classe trabalhadora, essa pessoa passa o dia no celular. A esquerda tem que dialogar com isso, porque hoje as bases concretas são essas. Neste segundo turno, estão acontecendo vários movimentos que podem mudar o cenário, e estamos torcendo para isso.

Qual é a sua expectativa em relação a estas eleições? O que poderá acontecer?
É a eleição mais importante da nossa história. Sinto que é um farol para o mundo, porque o Brasil é uma vanguarda tanto do experimentalismo de direita, vinculado às big techs e à venda de terras raras, quanto do ponto de vista progressista: o Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado e foi preso. O Trump não foi.
Contudo, há um alinhamento à direita como nunca se teve. Você tem um governo neofascista nos Estados Unidos e um alinhamento impressionantemente descarado das big techs com regimes fascistizantes. E a Meta está interferindo diretamente nas eleições no Brasil. É público, notório. Outro dia saiu uma reportagem: se você colocava uma foto na IA do WhatsApp e pedia “Coloque essa foto com a camiseta do Bolsonaro”, ela fazia. Se pedia “Agora coloca com a camiseta do Lula”, ela dizia que não podia. É esse nível de interferência. O Lula tentou fazer regulamentações das big techs, por exemplo, algo muito difícil para um país como o Brasil. Não entendo por que a Europa não faz isso, já que é uma tecnologia americana e os Estados Unidos revelaram um pouco o que são agora com o Trump. Mas as grandes empresas de mídia no Brasil estão muito alinhadas com o Bolsonaro, o que é novo e muito assustador. Dá muito medo do que pode acontecer.
Mas tem esperança?
Por um lado, tenho. No nosso campo progressista, o Lula é o maior líder popular que o Brasil já teve. Acho que todos estão fazendo o possível na campanha.