Afeganistão, um dos piores lugares do mundo para uma criança crescer
Entrevista com Camille Bildsøe, realizadora de If Luck Will Come
Não foram apenas os americanos e os seus aliados que abandonaram o Afeganistão à mercê do radicalismo do regime talibã. Também os meios de comunicação internacionais se esqueceram do povo afegão, num vazio noticioso, à medida que viraram os focos para outros grandes conflitos e tragédias mundiais. Pouco ou nada sabemos do que acontece no Afeganistão e de como o regime talibã tem violado, de forma sistemática e crescente, os direitos humanos, em particular os das mulheres e das crianças, através de medidas restritivas cada vez mais extremas. Em 2021, a UNICEF descreveu o Afeganistão como «um dos piores lugares do mundo para ser criança».
Camille BildsøeEm If Luck Will Come, estreado na programação infantil do Festival de Locarno, a realizadora dinamarquesa Camille Bildsøe levanta um pouco esse véu. O filme acompanha duas crianças, Zahra e Zalgai, numa atividade circense. Cada uma vive num contexto familiar difícil: ele tem um pai que perdeu uma perna, está falido e é incapaz de sustentar a família; ela vê-se forçada a permanecer confinada numa casa distante de Cabul. Na rádio, em fundo, vão passando as notícias sobre o endurecimento das medidas discriminatórias dos talibãs, incluindo a proibição de as raparigas estudarem. Diante das câmaras, vemos a sua realidade particular com grande proximidade. A forma como os olhos daquelas crianças brilham quando fazem malabarismo devolve-nos a esperança no mundo.
Nesta entrevista, Camille fala-nos da sua experiência afegã e de um filme tão belo quanto cruel, que também pode servir de grito de alerta para a privação radical das liberdades fundamentais naquele país, que o mundo resolveu esquecer.
De fora, o Afeganistão parece ser um território impenetrável, completamente fechado, onde os estrangeiros não podem entrar. Como conseguiu fazer este filme e aproximar-se das pessoas?
Quando pedimos aos talibãs autorização para entrar no país e filmar, demos muita ênfase ao facto de ser um filme para crianças sobre a sua participação neste circo extraordinário. E a verdade é que os talibãs, assim como os afegãos em geral, têm muito, muito orgulho nas suas tradições circenses. Por isso, viram nisso uma excelente oportunidade para mostrar ao mundo como os afegãos são talentosos naquela arte. Obviamente, o filme acabou por ser sobre outra coisa e por se centrar mais nestas crianças, nas suas vidas e nas restrições que surgem quando as raparigas atingem determinada idade. Além disso, tivemos uma equipa local extraordinária. O nosso diretor de produção foi incrível a conseguir as diferentes autorizações junto dos talibãs.
Mas foram vários anos de trabalho. Quando começaram?
Estivemos no Afeganistão pela primeira vez em 2022, um ano depois do regresso dos talibãs ao poder. As filmagens prolongaram-se durante três anos. Depois, tivemos cerca de dois anos de montagem. Sim, foi muito tempo.
Não foram apenas os Estados Unidos e os seus aliados que deixaram estas pessoas sozinhas com os talibãs. Os meios de comunicação ocidentais também se concentraram noutros conflitos mundiais e as pessoas quase se esqueceram de que este tipo de violência contra as mulheres e as crianças existe. Acha que o seu filme pode, de alguma forma, ajudar o mundo a voltar a olhar para estas pessoas, que vivem uma situação inacreditável?
Pouco depois de os talibãs terem regressado ao poder no Afeganistão, em 2021, começou a guerra na Ucrânia. E isso desviou toda a atenção mediática do que estava a acontecer no Afeganistão. Obviamente, não se pode dizer que uma tragédia seja pior do que outra. Mas tem sido bastante impressionante ver como os meios de comunicação falam tão pouco do Afeganistão. Por isso, para mim, um dos principais objetivos ao fazer este filme era precisamente mostrar o que está a acontecer e dar voz a algumas pessoas a quem essa voz foi realmente retirada. Essa foi uma grande motivação para fazer o filme, e também uma grande motivação para Zahra e Zalgai, os protagonistas, e para a equipa afegã que trabalhou connosco. Queremos mostrar ao mundo o que está a acontecer neste país, já que mais ninguém fala no assunto.
Parece estar extraordinariamente próxima de todas estas personagens. E a câmara é quase invisível. Portanto, foi preciso muito, muito tempo para conquistar a confiança delas e neutralizar a presença da câmara. Como foi esse trabalho?
Uma das coisas mais importantes nos documentários é fazer com que os participantes se sintam realmente à vontade comigo e garantir que as filmagens decorrem sempre nos termos deles. Penso que essa relação também fez com que confiassem realmente em mim e no meu diretor de fotografia. Mas também teve muito que ver com a manutenção dessa relação entre os períodos de rodagem. Quando regressava a Copenhaga entre as filmagens, fazia questão de falar constantemente com Zahra e Zalgai e de lhes enviar fotografias e vídeos da minha vida, para que se sentissem seguros e percebessem onde eu estava e quem eu era. Isso foi extremamente importante. Também passámos tempo a ver filmes juntos e a divertirmo-nos. Penso que esse tipo de coisas é muito importante, sobretudo quando são crianças, para que se sintam realmente à vontade comigo. Precisava que existisse essa relação para conseguir alcançar aquela proximidade.
Fale um pouco mais sobre essa opção de não mostrar a presença da câmara? Evidentemente, poderia ter feito o filme de outra maneira.
Eu queria observar. Para mim, o importante era manter sempre a câmara ao nível dos olhos, para que fosse uma história de crianças, e garantir que a câmara nunca julgava nem se encontrava demasiado longe. A câmara nunca é um adulto. Embora estejam dois adultos atrás da câmara, contamos a história das crianças.
Quando comecei a ver o filme, achei muito bonito observar todas aquelas crianças a fazer malabarismo. Fez-me lembrar Children’s Games, o projeto em que Francis Alÿs filma jogos de crianças por todo o mundo. Era algo que também queria mostrar: essa capacidade mágica de as crianças encontrarem uma forma de brincar nas circunstâncias mais difíceis?
Sim, sem dúvida. Queria mostrar essa idade e esse período mágico da vida de uma pessoa em que se consegue encontrar felicidade, alegria e vontade de brincar, mesmo nas situações mais difíceis. Penso que essa é uma qualidade extraordinária dos seres humanos: sermos capazes de fazer isso.
Zahra e o pai
Zahra e mãe
Quando olhamos para estas crianças, para o brilho nos seus olhos enquanto fazem malabarismo, sentimos realmente esperança.
Penso que é isso que também torna o filme especial. Estamos a mostrar uma situação verdadeiramente terrível para as mulheres e as crianças no Afeganistão. Criar esses espaços de esperança é importante para continuarmos a acreditar e a esperar que alguma coisa possa mudar. Isso é importante para os afegãos. Eles merecem-no.
Ao mesmo tempo, é como um filme de passagem à idade adulta, mas uma passagem à idade adulta que conduz ao nada, à escuridão. O futuro de uma rapariga nestas condições é algo terrível. Como lidou com isso e com as diferentes atmosferas do filme?
Eu queria filmar durante mais tempo, mas, na nossa última visita, em 2024, os talibãs disseram-nos que não poderíamos regressar. Penso que acharam que já lá tínhamos estado demasiadas vezes e retiraram-nos as autorizações. Isso acabou por conferir ao filme uma espécie de efeito de contagem decrescente, dos 12 aos 14 anos. Tornou-se uma maneira muito natural de mostrar que, aos 12 anos, há felicidade, brincadeira e ainda se pode ser criança; os 13 são uma fase intermédia; e aos 14 chega o impacto do mundo real. Isso tornou as diferentes atmosferas extremamente interessantes, porque existia entre elas uma diferença muito grande. Eu queria realmente trabalhar sem recorrer a demasiados estereótipos ocidentais. Além disso, queria afastar-me da maneira como os meios de comunicação retratam frequentemente o Afeganistão, com muitas espingardas Kalashnikov e muitas mulheres de burca, esse tipo de coisas. Queria mostrar um Afeganistão diferente, mais ao nível dos olhos destas crianças. Por isso, o contexto acaba por nos chegar sobretudo através das notícias e da rádio, enquanto vemos apenas os seus efeitos. Em vez de vermos todas aquelas Kalashnikov, vemos o que é realmente ser uma criança presa dentro daquela casa onde Zahra acaba por ficar confinada.
Como equilibrou a necessidade de documentar tudo isto com a responsabilidade de proteger estas pessoas?
Para nós, a principal prioridade era a segurança: garantir que podíamos fazer um filme seguro para os participantes, para a nossa equipa afegã, para mim e para o diretor de fotografia. Por isso, criámos um conselho de segurança, no qual participavam diferentes cineastas afegãos e a nossa produtora sénior, Leslie Knott, que trabalha no Afeganistão há vinte anos. Definimos diferentes medidas de segurança que nos ajudavam a garantir constantemente que a situação não se tornava perigosa. Era algo que avaliávamos diariamente. Quando regressávamos com o material filmado, estas pessoas viam-no connosco e ajudavam-nos a determinar o que podíamos ou não utilizar, sem fazermos concessões nessa matéria. Penso que isso é extremamente importante e, sobretudo quando se trabalha com crianças, torna-se realmente uma das principais preocupações. Portanto, tínhamos cenas extraordinárias que não pudemos utilizar porque isso comprometeria a segurança.
E continua em contacto com eles ou é impossível?
Falo semanalmente com Zahra e Zalgai pelo WhatsApp. Zalgai está bastante bem. Agora tem o seu próprio circo, o que é extraordinário. No outro dia perguntou-me se o ajudaria a criar uma conta no TikTok. Penso que sonha, de certa forma, tornar-se criador de conteúdos. Quanto a Zahra, neste momento também está relativamente bem. Fiquei muito feliz por ver que tem andado bem-disposta nestes últimos meses. Mas encontra-se numa situação muito difícil. Está, no fundo, à espera de se casar. Quando isso acontecer, começará a ter filhos e essa será a sua vida. Por enquanto, ainda está em casa. Tem um telefone e envia-me fotografias constantemente. É extraordinário poder fazer parte da vida dela e acompanhar o que está a acontecer. Mas ela sabe, e eu também sei, que o seu caminho segue apenas numa direção. E isso é extremamente difícil. Fizemos muitas angariações de fundos associadas ao filme, pelo que conseguimos dar dinheiro diretamente a Zahra e a Zalgai. Temos também uma pessoa que agora quer pagar a Zahra um curso de inglês, para que possa fazer em casa alguma coisa divertida e agradável. Mas isso não altera o facto de a vida dela seguir, de certa forma, apenas numa direção. E, sim, isso é difícil.
Conseguiram ver o filme?
Sim, ambos viram o filme. Eu queria muito regressar ao Afeganistão, mas, neste momento, não tenho autorização para entrar. Pedi à minha equipa afegã que se encontrasse com eles e lhes mostrasse o filme. Ambos adoraram, o que foi extraordinário. Eu estava no FaceTime a vê-los assistir ao filme. Depois, quando estava a regressar a casa, Zahra enviou-me um vídeo de alguns pássaros que voavam ao lado do carro. Achei aquilo lindíssimo. Deu-me a sensação de que ela tinha realmente compreendido o filme e também as metáforas que utilizámos para lhe conferir uma dimensão poética.
O filme foi programado na secção infantil de Locarno. Isso surpreendeu-a?
Foi extraordinário aperceber-me de que o filme comunica tanto com um público adulto como com um público infantil. Em Locarno, fizemos uma sessão com muitas crianças, que colocaram perguntas muito boas e puderam conhecer a vida de outras crianças que provavelmente só conheciam das notícias. Penso que as crianças que se sensibilizam para este tipo de coisas são aquelas que poderão vir a mudar alguma coisa no mundo.
O título do filme parece conter uma centelha de esperança. Ainda tem esperança? Acha que as pessoas que lá vivem ainda têm esperança de mudar alguma coisa?
Tivemos muitas dificuldades com isso. Houve muitas pessoas que queriam que o filme tivesse um final feliz, um final esperançoso, e, para mim, era muito importante que isso não acontecesse. O filme termina com Zahra a lavar a louça e depois fica tudo negro. Eu queria que fosse um filme que contivesse felicidade, esperança, amor, cores, riso, todas essas coisas, mas que também mostrasse a situação extremamente grave que se vive no Afeganistão. O mesmo se aplica ao título. O título veio de uma frase de Zalgai. Quando o pássaro chega, ele diz: «O amor chegará, teremos fortuna, teremos sorte.» Achei isso muito bonito, atendendo também à situação em que ele se encontrava. Apesar de o pai ter perdido uma perna, apesar de tudo parecer muito negro, ele conseguia dizer: «O amor chegará.»
E agora, o que se segue?
Neste momento, estou a fazer um filme dinamarquês sobre um clube de motociclistas chamado MuJu, constituído por muçulmanos e judeus. Tenho-os acompanhado há muitos anos. Quando aconteceu o 7 de outubro, tornou-se muito difícil permanecerem unidos enquanto clube de motociclistas. Por isso, tenho vindo a filmar os desafios que enfrentam.
Zahra e irmã
Zalgai