Lembranças, Souvenirs, Recuerdos | Fragmentos de um diário de pesquisa de fotografias de emigrantes portugueses no Brasil – II

Entre Janeiro de 2014 e Dezembro de 2016 encontrei-me com pessoas que migraram de Portugal para o Brasil e seus familiares em cafés, bares, restaurantes, padarias convertidas em lojas de souvenirs, em mercearias, debaixo de alpendres de paragens de autocarro, na praia, noutra praia, em lojas de ração para animais e drogarias, em ateliers de gravura, em carros, na rua, em casas, nas suas casas, seus apartamentos, salas de jantar, salas de costura, quintais, cozinhas e arrecadações.

Nessa altura mais ou menos exacta, ouvi histórias em várias mãos sobre vontades de fuga, decisões de partir e preparativos de viagem, exílio, estratégias de resistência, ânsias de trabalho e dinheiro, aquisições de casas, anéis e carros, perdas materiais e amorosas, despedimentos, cartas trocadas, memórias esquecidas repensadas e por isso lembradas, a ausência da lembrança, casamentos, primeiras-comunhões e baptizados, mudanças de cidade, mudanças de estado, nascimentos, passeios pela cidade e pelo campo, visitas da família, férias em Portugal, considerações sobre a pátria nem sempre amada, sobre música, desbunda, mandioca e carnaval. Os relatos eram acompanhados, entrecortados, muitas das vezes ditados por fotografias, revolvidas em álbuns, caixas de sapatos, molduras, envelopes; fotografias que me mostraram, nas quais peguei, e que quase sempre digitalizei e voltei a arrumar nos álbuns, caixas de sapatos, molduras, envelopes…

Aqui fica a segunda parte de fragmentos de impressões dos diários de “campo”, que relatam episódios da pesquisa dessas imagens fotográficas.

 

O vestido de noiva / Dulce Helena

Da primeira vez que conversei com Guiomar, no Rio de Janeiro, em Maio de 2016, ela encontrava-se a fazer um documentário sobre o pai, mais precisamente, sobre as suas memórias do pai.

Guiomar é filha de Victor Ramos. Victor era opositor ao Estado Novo português, tendo-se exilado em Paris em finais da década de 40 ou inícios de 50 onde foi jornalista, e depois ido para Brasil, após ter conhecido Dulce Helena em Bucareste, num encontro da Internacional Comunista, e de se ter correspondido longamente com ela por carta. A troca dessas muitas cartas entre Dulce Helena e Victor, anteriores ao seu casamento, quando, após se conhecerem em Bucareste, Dulce retorna a São Paulo e Victor a Paris, (onde permanece durante dois anos até ir para São Paulo), dá-se como um efectivo namoro. Dulce especifica numa carta que Victor deveria enviar-lhe um retrato seu e que este deveria ser um “bom” retrato; como se essa correspondência necessitasse de regras tácitas, aparentemente fundamentais para o bom sustento da relação.

Victor irá então para São Paulo tornando-se professor de literatura francesa e exercendo a partir do Brasil oposição ao regime em Portugal. É fundador com Miguel Urbano do jornal Portugal Democrático. Dulce Helena era arquivista e após a morte de Victor, que aconteceu horas depois de este ter sabido pelo telefone que tinha ocorrido a revolução de Abril de 1974, zelou particularmente pelo seu arquivo. Aliás, pelas suas coisas, porque se os documentos eram de Victor, o arquivo propriamente dito era de Dulce Helena.

Guiomar refere a propósito desse arquivo quando estava a realizar o filme que entretanto terminou sobre a vida do pai e sobre as suas memórias dele: que a mãe tinha um lugar um armário no escritório sem porta onde organizava as coisas desse arquivo, tal como uma profissional; “[ela] tinha uma parte para o meu pai e uma parte para o meu avô. e aquilo mexia muito com ela, às vezes ela trazia tudo para a mesa da sala, tinha uma mesa comprida. eu vinha para almoçar. eu falava: ‘nossa que bagunça’, alguma coisa assim provocando ela, e ela fica organizando essas coisas. ela fazia uma cara de sofrimento enorme, mas ela nunca assim falava: ‘olha essa carta aqui do seu pai! eu vou ler pra você. olha não sei quê. ela não dividia nada. eu acho que ela tinha um ciúme enorme de todo aquele passado que ela viveu com o meu pai e tudo. então assim, eu não acho que eu poderia ter feito o filme com ela viva. a não ser que eu fosse um pouco mais audaz. eu não sei se eu tb tinha tempo na época, eu estava fazendo concurso.”

Guiomar disse-me que a mãe se tinha casado de preto porque era comunista. Vim a suspeitar da peremptoriedade desta afirmação, sem contudo nunca ter conseguido apurar a verdade. Se a maioria das fotos do casamento parecem corroborar isso mesmo, por outro lado, numa das fotos enviadas por Victor à sua mãe Lourdes, em Portugal, da cerimónia, vê-se o decote de um vestido branco por baixo do preto que seria uma espécie de quimono sobreposto àquele. E sobretudo noutra ainda - uma fotografia que extraí de um frame do filme de Guiomar -, Victor refere-se à parte posterior do vestido de noiva visível na imagem, numa “figura de branco”.

O relato para a mãe ausente que se fez presente na cerimónia através de um retrato fotográfico  pareceu-me exímio da parte de Victor, que comprovou através de uma prova fotográfica que a mãe tinha efectivamente assistido à celebração. Ou melhor, o seu retrato tinha assistido à celebração.

Eugénia ainda / o reencontro / o acidente

Eugénia e o filho embarcam no navio Vera Cruz em 1960 rumo a Niterói, juntamente com a mãe de Eugénia, Augusta, uma das suas irmãs, Maria de Jesus, e dois dos irmãos, Manoel Fernandes e José Fernandes, este último acompanhado da esposa, Conceição. Dos poucos pertences que trazem da Madeira, constam algumas fotografias. Ao chegarem ao Brasil, Eugénia e a família reencontram os parentes e também as fotografias anteriormente postas em viagem, abertas a uma destinerrância e aparentemente bem encaminhadas. A mãe de Eugénia morre tragicamente de acidente de eléctrico (bonde) em Niterói nas vésperas do baptizado do neto. Por raiva e desgosto, Eugénia deita fora as roupas do menino para a cerimónia.

Tias: Augusta / Milinha


Márcia filha de Eugénia, encontrou uma outra fotografia em casa da mãe, em Niterói, que terá sido enviada à sua tia Augusta, então na ilha da Madeira, pelo seu tio David da Venezuela, em 1955, época em que namoravam. Escrito no verso podemos ler: “vê lá o meu fotografo como está mal e parece outra cara mais feia, vê e rasga-o…”

Augusta casa em segredo com David e sem vestido de noiva, e o pai nunca a perdoou por isso. Esta história só é contada agora, diz Márcia, “antes, era tabu.” E eu repito a mesma, a propósito da memória de fotos ausentes, pois quando Márcia perguntava em criança pela foto de casamento da tia Augusta, ninguém respondia nada.

Milinha, irmã de Eugénia, vai também para Niterói e antes da irmã, em 1956. Quatro anos depois, quando viajam da Madeira no Vera Cruz, Eugénia e a família levarão de “volta” para o Brasil, duas cópias de um mesmo retrato de Margarida Theresa, conhecida por Milinha, que as tinha anteriormente destinado de Niterói à Fajã dos Padres (entre 1956 e 1960).

No verso de uma das cópias do retrato, podemos ler: “este é para a mãe receba minha vizita já que não posso ir pessoalmente comer umas uvinhas e uns figuinhos [peço] a Deus (?) mãe eu não mande para ninguém que eu não fiquei bem receba um beijinho e um para o pai e muitas saudades”.

A imagem é atravessada por uma certa tensão. Margarida Theresa parece aí apelar a que a mãe receba através daquela imagem a sua ‘visita’; mas por outro não parece atestar a imagem como uma imagem válida de si: pedindo para não a mostrarem a ninguém visto não ter ‘ficado bem’.

Uma outra cópia do retrato é também enviada de Niterói, mas por um outro membro da família (provavelmente pelo irmão de Milinha, João). Envia-a especificamente a Eugénia, portanto, irmã de ambos, (que na época estava ainda na Madeira), sem que Milinha o soubesse, mas serve, de acordo com o emissor, para que Eugénia matasse saudades: “Crida / Eugénia / com o coração a / transbordar de saudades a / Milhinha te oferece esta / fetugrafia para que mates saudades / a Milinha não ficou bem mas / eu não quero que vosseis / amostre eu vou tirar / com o José ela / não queria que eu mandasse / que não / tá bom”.

O(s) íman(s) / Maria do Céu


Num primeiro momento, Maria do Céu disse-me que as imagens se encontravam num armário debaixo da cama a que na altura não conseguia chegar por lhe doer a anca. Num segundo momento, Maria do Céu disse-me apenas que ainda não tinha levado as imagens para a mercearia. Finalmente, disse-me que as imagens já estavam na mercearia mas que se encontravam numa estante muito alta à qual não conseguia desta vez aceder por ter uma lesão no braço esquerdo. Maria do Céu também não se mostrou receptiva à minha proposta de ir pessoalmente buscar as imagens à estante. Disse que «de qualquer das formas» eu já «sabia bastantes coisas» sobre a sua vida e trânsitos entre Portugal e o Brasil e despediu-se de pronto.

Que sabia eu? Histórias do pai chegar ao Brasil quando a seleção tinha perdido o mundial de futebol e estar toda a gente a chorar e ele achar que aquele era o povo mais infeliz do mundo; histórias de Maria do Céu passar roupa a ferro com a mãe em Santa Teresa para a burguesia do Rio, primeiro com ferros a carvão, depois com ferros eléctricos que constantemente avariavam por a electricidade ser então particularmente precária naquele bairro. Histórias de Maria do Céu a aprender a arranjar tomadas eléctricas de forma a agilizar algumas dessas situações, e do seu pai ser primeiro garçon num bar relativamente chique do centro da cidade e de cujo nome me esqueço, e depois condutor ou pica do bondinho, o eléctrico tão característico do bairro de Santa Teresa talvez só menos presente em souvenirs do Rio que o Cristo Redentor.

Que sabia eu também? Da paixão não exactamente declarada de Maria do Céu não tanto pela terra natal em Trás-os-Montes, Portugal, mas por Sidney na Austrália, cidade representada com uma fotografia de uma vista panorâmica e em tudo destoante da sua mercearia luso-brasileira, bem perto do mítico bar Gomes, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Disse-me ainda o seu número de telefone, de que apenas me lembro por o ter visto tantas vezes no íman colado no frigorífico em casa de R.: 25090462.

O Corvo / José Saramago

 José Saramago, nome igual ao do escritor, só que não. Natural da ilha do Corvo, vai para Belo Horizonte, anda por Minas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte de novo? Tio padre, tia freira, outra tia freira. Vai para Angra, destinado ao seminário, mas recusa-se e vai para o Brasil. Fotos no seu escritório da mais bonita foto de casamento que vi:  os pais no calhau do Corvo, o véu da noiva a roçar a pedra. Nome igual ao do escritor, mas o irmão, João Saramago, é que se dedica ao ofício das palavras. Quando era criança vinha uma fotógrafa da Terceira fazer retratos aos habitantes do Corvo e com cobertores improvisava fundos de estúdio nas casas de cada um.

Na década de 60 a mãe envia-lhe uma fotografia sua tirada por espanto no quintal no Corvo: “eu e José Elias, o codac dele era automático e eu disse-lhe brincando tiremos uma fotografia! Mas não sabia do que se tratava, afinal calhou, este foi tirado no nosso pátio”.

Não percebe bem porquê, e não é por ser natural dali, mas acha que o Corvo exerce um fascínio incompreensível sobre si.

Francisco /


E depois havia ainda a história de Francisco. Preso no Aljube, ida para o Brasil onde se torna professor de economia, casa com bananal e a desbunda do Rio de Janeiro na década de 70. A revolução de 25 de Abril de 1974, o hesitar ir para Portugal, a ida já na reacção, o voltar para o Rio. Encontrámo-nos em Santa Teresa, numa paragem de autocarro. Mapeia conflitos ambientais. Mostrou-me em sua casa em Laranjeiras, entre panos de Viana e artesanato do Nordeste que delicadamente tinha em estantes, uma imagem que a sua avó ou alguém por ela lhe tinha enviado de Lisboa para o Brasil. Década de 90. Festejava cem anos – a avó – e as amigas na foto parecem celebrar a entrada na adolescência.

por Ana Gandum
Jogos Sem Fronteiras | 30 Novembro 2020 | Brasil, emigrantes, Fotografia, lembranças, Portugal