Júlia Barata: desenhar a memória, habitar a contradição

Da infância no Moçambique pós-independência à vida em Buenos Aires, Júlia Barata encontra no desenho uma forma de interrogar a memória, o privilégio e as relações familiares. A propósito da sua adaptação gráfica de Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo, conversa com Tiago Lança sobre a representação da violência colonial, os feminismos do quotidiano e a liberdade de contar histórias sem lhes fechar o sentido. Pelo caminho, fala da aprendizagem coletiva na banda desenhada argentina e do desmantelamento cultural que testemunha no país onde vive.

Júlia Barata, foto de Victoria GesualdiJúlia Barata, foto de Victoria Gesualdi

Júlia Barata nasceu em Coimbra. Viveu miúda em Maputo e no Porto. Tirou o curso de arquitetura em Lisboa, esteve crescida em Espanha e na Holanda, perdão, Países Baixos. Há treze anos mudou-se para Buenos Aires. Tem desenhado muito, ganhou prémios, publicou…mas com um oceano e uma década pelo meio, que sabemos dela? Onze anos depois do Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, andou em “digressão” a divulgá-lo em versão ilustrada por sua mão. O encontro, a propósito da exposição das pranchas para o livro, na Tinta nos Nervos, aconteceu no dia 22 de setembro. Combinámos almoçar em Santos, no Batata Doce, ainda abalados com a morte do Jorge Palma, na véspera. O verão acabaria oficialmente daí a umas horas. À mesa uma interseção inédita de alminhas, que se conhecem dos adolescentes campos de férias, com fogueiras e guitarradas, mas que nunca tinham brindado juntas: calhou bem! Afinal ainda cá estamos. Ou melhor, cá estamos nós outra vez. A exposição está nos últimos dias e termina a 24 de outubro.

Queria perguntar-te se encontraste alguns pontos de contacto entre a tua vivência (em Maputo pós-independência) e a experiência da Isabela no tempo colonial. Ou seja, se sentiste em algum momento que aquela menina loira do caderno também podias ser tu.

Encontrei, sim. Desde logo, a experiência do lugar, a vivência dos sítios, uma certa cultura e geografia eram próximas. Apesar de termos vivido momentos históricos muito distintos, eu também era uma branca ali, embora a minha dinâmica familiar fosse muito diferente. Cresci num ambiente privilegiado e não vivi de todo aquele contexto de abuso e mau-trato, por parte do pai e não só, que a Isabela descreve. Mas sim, há semelhanças na evocação de certas cores, dos espaços e da cidade.

O objetivo desta edição ilustrada era, entre outros, combater o racismo, informando e dando a conhecer aos mais jovens e a contextos escolares, aquilo que, à distância de 50 anos, é claramente uma sociedade racista. Trabalhar neste texto fez-te refletir sobre o racismo e o colonialismo, o de hoje e a sua perceção ao longo da infância e juventude?

Voltei a ler o Caderno de Memórias Coloniais original, em prosa (Caminho 2015), e a refletir sobre o conteúdo. Durante o processo contactei mais com a Isabela, e acho que comecei a perceber, a partir de dentro, o que significou viver e escrever sobre aquilo. Ela viveu, de facto, num ambiente colonial extremamente racista, numa casa em que o pai exercia violência. É um ato de coragem essa denúncia, e o que ela conseguiu fazer a partir daí. As conversas que ocorreram depois da edição do livro fizeram-na repensar certamente coisas que tinha escrito, e eu fui participando nessas interrogações. Na readaptação, tentámos incluir esse espírito crítico, e mais questionamento do que são os lugares-comuns. Ainda há muitos passos para dar. A Isabela fê-lo ao longo destes dez anos, aprendendo e repensando, e eu, paralelamente, também o fiz. 

Voltando à primeira questão, refleti sobre qual o papel do privilégio e quanta herança colonial não terei experimentado no meu tempo em Moçambique, mesmo sendo filha de militantes pela independência moçambicana e defensores do governo do Samora Machel. De facto, talvez tenha crescido num meio não tão diversificado assim. Ainda havia muitos empregados negros e poucos colegas negros na escola. Ou seja, apesar de ser informal e muito menor do que no tempo da Isabela, haveria certamente alguma segregação e pouca mistura. Isso notava-se nos pequenos grupos de afinidade ou nos círculos mais íntimos.

Dizes que esta não é uma novela gráfica mas um álbum ilustrado, porque a autoria é claramente da Isabela. Embora haja momentos/páginas em que o texto se superioriza, há outros em que quase desaparece. Nessas alturas, a ilustração vai ocupando o espaço da página e confere uma maior espessura temporal à história. Também acontece haver distorções formais e, às vezes, quase um encaminhamento para o abismo. Essa estratégia “de queda” é intencional?

A questão entre novela gráfica ou álbum ilustrado, além de ter que ver com o desenho estar ao serviço do texto, também se relaciona um bocadinho com o formato. Segundo a Alice Geirinhas, aquilo pode chamar-se de narrativa visual. A novela gráfica é uma coisa com balões, em que o texto e a imagem estão mais misturados e em simbiose do que neste caso. Aqui temos, quase sempre, a caixa de texto e a ilustração respetiva. Portanto, eu chamei-lhe álbum ilustrado mas pode ser uma narrativa visual ou, melhor ainda, narrativa gráfica. Apesar de serem ilustrações ao serviço do texto, elas condensam vários elementos da banda desenhada e já têm uma vida própria. Mas, se quiseres, é um híbrido. Qualquer um dos termos (narrativa gráfica ou visual) serve melhor para definir esta coisa a que chegámos. Sobre a estratégia “de queda”, acho que o desenho (ou a representação gráfica), acrescenta ao texto, sobretudo em prosa, uma grande capacidade sensorial. Há páginas que, para mim, tinham muita carga sentimental, de desenraizamento, de alienação, de choque ou de “abismo”, como dizes. Tentei transmitir, e sobretudo através da mancha da aguarela, aquele tipo de ambientes que te enchem a cabeça e te fazem sentir noutro mundo. Em que ficas um bocado à parte da cena factual, dos edifícios, da geografia e de tudo o que a cena tem. A arte gráfica permite explorar isso de uma forma muito evidente. E embora a escrita tenha outras ferramentas e recursos, acho que essa é a mais-valia do desenho comparado com a prosa. 

Além do coro “afro grego” - uma ideia belíssima -, há alguns momentos que gostava que comentasses: aquela cena do anel, no cinema, com os negros à frente do ecrã e os brancos atrás.

Ao coro, chamámos de coro de capulana. Uma das inquietações da Isabela era trazer personagens críticas ou formas de auto-questionamento e inseri-las nesta adaptação do Caderno. O coro veio responder a isso e, supostamente, incluir também algum sentido de humor. É uma personagem coletiva, definida por onze personagens particulares, que representa diferentes idiossincrasias que achámos úteis. Uma académica portuguesa branca, um régulo moçambicano, um curandeiro, uma moçambicana branca que por lá ficou depois da independência, um tipo da Frelimo, e por aí fora. Diferentes perspetivas que colocam perguntas e expõem as contradições da história. É a autocrítica do livro consigo mesmo, dentro do seu próprio discurso. A cena do cinema era uma realidade da época da Isabela que, no meu tempo, já não acontecia nem nos autocarros, nem nos cinemas. Seduzia-me imaginar essa cena porque, às vezes, lês uma coisa e não te soa verosímil e depois, quando a vês, já te parece funcionar. É uma imagem que sintetiza muito bem vários níveis de violência. Os negros estavam nos bancos de madeira porque não se podiam sentar nas cadeiras. Depois há o movimento de ela tirar o anel e o largar pelo declive. Um homem (negro) vem com o intuito de devolver esse anel que ela não queria! E surge logo aquela maledicência, os pensamentos dos outros (brancos) “o que é que este está aqui a fazer?”; “porque é que vem para a zona dos brancos?”. Coisas que provavelmente não terão sido ditas alto, mas foram pensadas. Aproveitei esse relato da Isabela para representar a população branca que se sentia no direito de ter um assento privilegiado, diferente daquele dos negros. 

E a sequência do primo traumatizado com a guerra, que regressa a Portugal e vai “matar pretos” para a Damaia… 

É duríssima: também queria muito representá-la. Desde que vem da guerra, ele sente-se alienado e começa a não querer sair do quarto. Isto tudo contado a partir da memória da Isabela, que imagina o que passa pela cabeça do primo, e que provavelmente matou imensa gente no Norte de Moçambique. Era um jovem muito em concordância com as opções do regime e que achava bem fazer aquela guerra. Portanto, com esses valores muito marcados e a somar à experiência lá no Norte, teve problemas sérios. Quando chega a Portugal, vem com muita raiva, tomado por um racismo intrínseco e, talvez, muita ignorância (de onde ele vinha não havia possibilidade de pensamento crítico). Essa maldade foi posta ao serviço da Guerra Colonial e, depois, ao serviço da polícia em Portugal. Em autogestão, ele continua a matar pessoas, assim, à queima-roupa, até que, por fim, se suicida. A mim parecia-me uma história horrível. Passei imenso tempo a fazer essa ilustração. A imaginar aquela cena para as pessoas na Damaia que viram aquilo e como se sentiram ou sentiriam. Como é que se intervém quando tens um gajo louco de pistola na mão? Esse medinho à flor da pele é transponível para os dias de hoje e para a violência nos mesmos bairros, muitas vezes. É uma coisa que provavelmente acontece muito mais do que pensamos. Começamos a ter noção disso, embora as notícias não cheguem às televisões, nem acabem em processos judiciais. Continua a haver assassinatos que resultam do racismo, de perseguições policiais, de campanhas de desinformação dirigidas pela polícia ou por interesses externos à polícia, mas sempre com alguma cumplicidade desta. Pronto, tudo nesta cena me parecia um pouco definidor dos nossos dias. E penso, qual o peso desta história na história contemporânea das cidades portuguesas? 

E o “raio” do 25 de Abril, uma imagem simultaneamente de grande candura e eficácia.

O raio é uma imagem que a Isabela me deu. Ela soube do 25 de Abril um dia depois mas, entre a Revolução e a independência de Moçambique (1975), ocorreram muitas confusões e, nessa altura, ela veio para Portugal. Na sua cabeça aquilo significou um antes e um depois: uma divisão que ela descreveu como um raio. Eu aproveitei essa imagem e acrescentei-lhe os cravos. Tivemos muitos debates sobre como representar a independência de Moçambique. O meu imaginário de infância estava ligado ao movimento revolucionário, à construção de uma sociedade socialista e do “homem novo” e, pronto, aqui começámos a ter algumas divergências. Por exemplo, eu queria pôr o Samora Machel e ela não queria. Depois acabou por ficar o mural, que para mim era inalienável…

No teu livro Família (Chili Com Carne 2024) a paleta de cores é reduzida (preto, branco e vermelho) e há uma maior recorrência ao traço. Neste Caderno exploraste sobretudo a aguarela, usaste mais cor e menos linha. Porquê?

Entre o Família e este livro houve cinco anos de trabalhos que não foram publicados ainda. Num desses trabalhos - entrevistas acerca de memórias e vivências de guerra, exílio ou ditadura –, eu só tinha usado aguarela e várias cores. Portanto, a paleta já não era reduzida. A aguarela torna tudo mais “sujo”. Tens de incluir os balões e as letras, e torna-se mais difícil, a partir dali, traduzires para uma linguagem tipificada. Quando é demasiado experimental ou demasiado pincelado, passa um bocadinho para o domínio das artes plásticas. Essa preocupação vinha da parte dos editores. Ou seja, o livro precisa de comunicar e, se há muitas páginas, o leitor tem que poder seguir sem se cansar. Quando apareceu esta oportunidade (de ilustrar o Caderno de Memórias Coloniais), eu estava ainda com vontade de usar a aguarela mas misturando-a com a caneta rotring - que era o que tinha usado no Família e no Gravidez (Tigre de Papel, 2017), num registo mais certinho, traço definido, comunicativo. O que tentei fazer foi a confluência dos dois, ter um marco definido para o texto, ter o quadro da página, uma esquadria - aquele quadradinho feito à mão também com rotring - que define as margens da ilustração e não vai até ao corte, que era como eu trabalhava antes. A rotring permite a introdução mais definida de olhos, narizes e outros elementos, ou mesmo a representação inteira de pessoas e coisas que, de certa forma, dão para a aguarela respirar. Faz-se ali um contraste entre a contenção e esta coisa mais descontraída e mais subjetiva que é a aguarela. Editado pela Caminho, eles queriam que fosse comunicativo. Por isso, desde logo, achei que não ia ser todo em aguarela. É claro que me arrependi logo à terceira página, porque era um sistema complicadíssimo e demorado para uma novela tão ampla, em que as ilustrações iam e vinham… Mas pronto, foi assim e lá conseguimos acabar!

Voltando à representação dos espaços, muitas vezes neste Caderno - e também no Família -, surge o interior das paredes, as alvenarias e o reboco, as armaduras do betão além do desenho dos pavimentos, dissolvendo e separando-se. Que lugar tem a arquitetura no teu trabalho de ilustração? 

Acho que a arquitetura tem o lugar da liberdade. O poder representar tudo o que queira, mas de uma maneira mais solta, coisa que a arquitetura não permite. Gosto de representar as entranhas dos edifícios, sim! O que não se vê, o exagero, o ridículo e a fragilidade dos edifícios, gosto de brincar com isso. A origem estará na minha formação em arquitetura, claro, mas sobretudo por ter feito muita obra e andado no meio dos tijolos e da sujidade, a ver coisas partidas. Encontro alguma beleza nesse ambiente! É talvez uma piadinha comigo mesma, afinal a arquitetura representa 20 anos da minha vida. Por outro lado, às vezes uma pessoa não domina totalmente os caminhos do seu imaginário, não é? Se eu puser uns rococós, por exemplo, pode sugerir uma memória não intencional dos azulejos de Lisboa, ou uns desenhos mais geométricos e faz-se uma associação a Moçambique. Somos um somatório de todas as experiências. Neste trabalho também quis aproveitar um certo fascínio e gosto pela arquitetura modernista. 

E que papel teve a arquitetura de Maputo? 

Maputo tem exemplos fabulosos do Modernismo, até porque muitos arquitetos portugueses fugiam do regime para lá. Por isso, houve um grande desenvolvimento arquitetónico, não só em Maputo como noutras capitais das ex-colónias. Todos os edifícios que aparecem neste livro são representações reais de edifícios de Lourenço Marques e de Maputo de hoje. A Isabela também descreve a vida nos subúrbios e por isso eu queria que o leitor imaginasse esses cenários, das aldeias e das palhotas. Eu sou fanática do Pancho Guedes mas não o pude incluir lá. Aparece só uma pequena referência ao Leão que Ri, mas o livro não era um catálogo! Tentei meter coisas que achava fascinantes, como aquela estação de serviço logo ao princípio, e vários edifícios tipo torre, que têm todos um desenho pensado. 

No Família há duas imagens muito bonitas que gostava que comentasses. Primeiro, o diálogo no avião, entre a personagem principal e o filho, sobre viver em/entre dois mundos.

Família é claramente um livro de autoficção, com referências autobiográficas adaptadas para o objeto poder funcionar como um livro. Para mim, o diálogo no avião é representativo da dificuldade que é para uma mãe imigrante transmitir ao filho essa dicotomia (de estar entre dois mundos) tão forte, tão inalienável e tão perene. Como é que se transmite isso? E mesmo quando se transmite, em rigor, nunca se transmite na totalidade. A representação dessa “não transmissão”, ou a cedência dela (dizendo que sim, que agora também quer voltar para a Argentina) contém em si muitas outras verdades que ficam não ditas. 

E o final cinematográfico em que, quando a família se junta novamente, parece haver um terramoto (metafórico ou não metafórico?).  

O final “cinematográfico” foi engraçado! Trabalhei muito esse livro com o José Sainz, um amigo editor com olho clínico para a novela gráfica, com muito conhecimento e bibliografia. Eu estava descontente com o final do livro e, quando lho enviei pronto, embora com esse final mal resolvido, ele comentou: “Epá, tu consideras o leitor super inteligente durante o livro todo e, no final, chamas-lhe estúpido!”. Eu concordei, achei uma boa crítica. Trabalhei bastante no final e cheguei a essa ideia de um final mais metafórico. Não está totalmente em aberto, não se percebe se há mesmo uma separação, mas toda a carga que se tinha gerado, obrigava também a uma transformação nos móveis e no espaço. Daí esse terramoto, do qual cada um imagina o que significa na vida daquelas personagens. Foi uma decisão acertada. Gosto muito desse final. Há sempre uma vontade, em todas as coisas que faço: não querer de maneira nenhuma, como dizem os argentinos, “barrar linha”. Ou seja, dizer sobre uma verdade que “é assim”, uma coisa definitiva. Seria complicado para mim fazê-lo porque sou mais insegura, duvido de tudo… Não sei, gosto mais de uma cena meio voyeurista e de final aberto, que mostra a contradição das personagens e da natureza humana. É aí que gosto de trabalhar. O final respondia bastante a essa vontade: não é uma destruição total, é um terramoto, uma transformação.

Sentes-te mais ilustradora ou desenhadora?

Em espanhol digo que sou mais historietista, mais próxima de “autora de banda desenhada”. Ilustradora não me sinto muito, na verdade. Sempre trabalhei como arquiteta mas, quando comecei a dedicar-me mais ao desenho e deixei de aceitar obras de arquitetura, senti isso realmente como uma aposta. Às vezes ainda me questionava se tinha feito bem, porque é complicado estar confortável financeiramente no mundo dos bonecos. E aí comecei a dar umas aulas, a fazer umas coisas de BD, alguns trabalhos de ilustração, coisa que, aliás, já fazia antes. Mas acabei por perceber que gosto mesmo é de contar histórias. E é isso que tenho explorado ultimamente. Também percebi que me faltava algum ofício, alguma capacidade de ser expedita, de saber responder. E depois um pouquinho de formação. Por isso, fui repensando e crescendo muito nesse mundo. Autora de BD experimental seria o carimbo mais próximo do que fiz. A ilustração vai-se metendo inevitavelmente e cada vez com mais gosto. Desenhadora, para mim, é uma palavra esquisita. Identifico sempre como alguém que desenha no Autocad. Portanto, conto histórias, gosto de contar histórias e de fazer bonecos, sim.

Família parece ter um tom um bocado confessional. Como foi para ti essa experiência: difícil, divertida, terapêutica…?

Foi bastante difícil. Demorou muitos anos, porque o livro ia sendo feito durante as madrugadas e com muitas interrupções. Às vezes parava mesmo. Em certa medida foi terapêutico porque são representadas coisas que, não tendo acontecido, se puderam transformar através do livro. Acho que não andei a lavar roupa suja. Não debato ali temas fulcrais ou coisas associadas à minha separação. Ou seja, como gosto muito de trabalhar a partir da vida real, aquilo que me tinha acontecido permitiu abordar temas mais interessantes. Na verdade, é sempre mais fácil trabalhar a partir da própria vida porque, no meu caso, tinha passado os cinco anos anteriores a representar a vida de outros, em entrevistas ou trabalhos similares. Família pode ser um livro mais comprometedor, sim, por causa de algumas personagens. Às vezes pergunto-me como reagirá o meu filho quando for um pouco mais crescido e ler o livro. Ele já viu algumas partes mas há coisas que podem gerar uma reação imprevista. De qualquer modo, quando há personagens baseadas em pessoas reais, tento sempre perguntar-lhes o que pensam, para não se sentirem expostas. Por vezes pedem-me para tirar páginas ou mudar os textos, alterar os nomes, claro, e eu altero. Também faço muitos jogos com isso: do género pôr coisas que um disse na boca de outro, naquele de que não preciso, em termos de fio narrativo, etc. Tento fazê-lo respeitosamente e com o aval deles. Mas nem sempre tenho carta branca. Lembro-me de ter umas páginas sobre a minha irmã que ela queria alterar e eu não. Às vezes faço-o com tristeza, mas tem que ser. No geral, apesar de difícil e delicado, o Família também foi muito divertido. Tentei que tivesse um sentido lúdico para mim. É um recorte, uma transformação que fica no objeto impresso, uma mistura entre vida e obra que acho interessante e engraçada. E há momentos em que me parece mais real o que ficou no papel! 

A representação do corpo, do sexo (com algum detalhe), são temas típicos de uma certa tradição libertária e contestatária da BD e da ilustração. Como é para ti a construção e o exercício da liberdade através do desenho?

Para mim o desenho sempre foi extremamente libertador. É um canal onde, desde pequena, se torna fácil expressar-me. Se constróis uma carreira à volta disso, aparecem-te outras matizes e podes ficar menos livre, nomeadamente na ilustração, como falávamos. Na BD de autor, que é o que faço, tento manter-me no caminho da liberdade, de pensamento e de escrita. O facto de fazer uma vida independente - já que não ganho dinheiro nenhum de jeito - ao menos que me sinta livre para dizer o que me apetece e como quiser. No fim desse processo todo, se encontrar um editor que queira publicar (e tenho tido sorte nesse aspecto!), melhor ainda. Mas claro que, se não encontrar, vou fazer da maneira como me saiu. E isso também tem sido muito importante para mim. Porque, apesar de os últimos livros terem tido editora, comecei com fanzines que fazia, imprimia e ia vender para as feiras.

Pegando nessa ideia de início de percurso, como tem sido a experiência de aprendizagem, partilha e ensino ao longo destes anos na Argentina? Quem são os teus pares lá, na ilustração e noutras áreas?

No princípio, as fanzines eram uma necessidade absoluta para mim. Precisava de representar certas coisas e ia fazendo, mas aquilo parecia um vómito no papel! Um vómito mas que resultava libertador. Quando ia às feiras, contactava com muita gente que fazia o mesmo. A Argentina é um país com uma enorme tradição de BD, muitíssimos autores de talento, feiras, lugares de encontro para isso e também muita edição independente. E isso para mim foi um caldo extremamente importante. Comecei a explorar a minha voz e a sentir aceitação. Também encontrei outras formas de desenhar, muita diversidade e muita autoria feminina. E a aprendizagem deu-se nesses contextos de solidariedade, auto-edição e autogestão, amizades e encontros – alguns só para desenhar - durante muitíssimos anos. Ainda hoje vou desenhar com as minhas amigas e amigos. Cada um faz a sua coisa, e vamos conversando sobre o que for, o amor, o que fiz ontem, sei lá, qualquer coisa… Ao mesmo tempo, há ali uma transmissão técnica porque lemos os trabalhos uns dos outros, opinamos e ajudamo-nos. Estarei sempre muito agradecida a tudo que aprendi nessa espécie de universidade informal que foi o mundo da BD em Buenos Aires. Em especial a algumas amigas como Delius (Maria Delia Lozupone), Maria Luque, Sole Otero, Nacha Vollenweider, Powerpaola, Sofia La Watson, Mariana Ruiz Johnson, Camila Torres Notari ou Gabi Coco. Tudo gente talentosa com quem aprendi imenso. 

Com a direita musculada e ultraliberal no poder, sentes diferenças no teu quotidiano argentino?

Sem dúvida! Sinto uma diferença enorme no dia-a-dia. Apesar de, em muitos aspetos, ter uma condição privilegiada, acho que estão a ser os anos mais duros que vivi na Argentina. À minha volta, vejo uma franca quebra na qualidade de vida, no meio cultural e BD em particular. Historicamente, a BD, sobretudo a chamada BD para adultos, tem um problema de mercado. E embora nunca tenha sido um modo de enriquecer, vê-se que nessa área, bem como na ilustração, no cinema - tenho muitos amigos que trabalham em cinema - no teatro, na literatura, etc. se sente o golpe extremamente forte deste governo. Todo o investimento existente em determinado setor é retirado sem aviso. São desmantelados institutos que tradicionalmente davam dinheiro, gente que tem competência é despedida e nas chefias são colocadas pessoas sem noção alguma ou decisores cuja única finalidade é a margem de lucro. E depois, dão apoio a setores que, pessoalmente, não posso chamar de culturais. Assim, há um apagão generalizado e propositado. Este governo não abraça a cultura. Detesta-a e manifesta constantemente esse ódio através de um discurso violento que se propaga a todo o lado e se transforma em discurso oficial, aceitável e imune à crítica. Aquelas coisas que já sabemos: a pós-verdade, a mentira sistemática, a falta de verificação dos factos nas notícias, na televisão, nos jornais… É terrível! Além da ação política, também ela terrível, orientada para o extrativismo, e que tem transformado a Argentina numa colónia dos Estados Unidos. Tentam vender tudo ao desbarato, recursos como o lítio, a água, a terra, etc. Tem havido lutas fortíssimas na rua – as pessoas saem bastante à rua na Argentina – têm uma cultura de ação civil muitíssimo aguerrida e constante. Isso para uma portuguesa é impressionante. Vejo realmente um país que reage mais do que os outros países onde vivi. E, às vezes, consegue os seus intentos, como foi o caso de, há pouco tempo, uma lei da terra que ia no sentido de ceder grandes superfícies de terreno para instalação de centros de dados. Não foi aprovada por causa da força popular. Foi uma pequena vitória, no entanto. Na Argentina, o desmantelamento do Estado e das leis que significam protecção social e direitos humanos está a acontecer diariamente com este governo. É tristíssimo! O tempo vai minando a sociedade, não é? Começa a escassear o dinheiro, há um empobrecimento geral da população e da classe média, cada vez se veem mais pessoas a viver na rua. Os muito ricos continuam ricos e o resto da sociedade está em claro declínio, ao contrário do que eles anunciam nos meios de comunicação social, que a pobreza está a diminuir… tudo mentira! Quando se vive lá, nota-se claramente. E é muito triste. Pronto, espero que o panorama político mude em breve mas não passa de uma esperança. Creio que muitas das decisões e das concessões que estão a fazer agora serão difíceis de reverter. 

No livro Caliban e a Bruxa de Silvia Federici, o domínio do corpo das mulheres (na sua vertente laboral, reprodutiva e sexual) é um dos fatores decisivos para o desenvolvimento e perpetuação do sistema capitalista. Como vês a relação entre feminismo e maternidade, e como se manifestam no teu trabalho?

No meu trabalho, a relação entre feminismo e maternidade não é muito teorizada, se quiseres. Mas creio que, quando faço uma narrativa gráfica, aquilo que represento, os temas de que pretendo falar, inserem-se claramente numa agenda feminista, que não é apologista do silenciamento da mulher, nem da sua dedicação à maternidade. Tento colocar interrogações mais globais sobre o lugar da mulher, a mulher crítica e capaz de experimentar outras coisas, outras vidas. Algumas das minhas narrativas surgem também de conversas que se tem com as amigas. Com total franqueza, o que tento abordar não é mais do que experiências, pessoais ou próximas, e dilemas que me afetam hoje enquanto mulher, mãe, numa cultura urbana e ocidental, e tentar pôr no papel esses questionamentos e dúvidas. Narrativas que surgem de forma simples e natural, vindas dessas mulheres amigas que me rodeiam e pelas quais tenho muito carinho. São a minha fonte vital. É preciso superar a estrutura patriarcal e certos lugares-comuns, mas nunca perder de vista a contradição, a dúvida, o medo. Essencialmente gosto de plasmar no papel esse conjunto complexo de questões. Às vezes uma pessoa diz-se muito feminista e depois tem um namorado machista. Não acho piada à representação pura e dura da mulher feminista que faz tudo bem… Prefiro a mulher na contemporaneidade, a lidar com os seus erros, a sua história e a sociedade que tem, que temos. Gosto muito do quotidiano e dos pequenos nadas. Nos meus livros, não pretendo criar grandes teorias, mas representar o quotidiano, expondo questões que me dizem respeito, a mim e a muitas mulheres com as quais contacto.

Queres explicar um pouco aquilo em que estás a trabalhar, o livro sobre Moçambique pós-colonial ou outras ideias que estás a cozinhar?

Estou muito contente porque vou receber uma bolsa para a criação da DGLAB (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas). Isso vai permitir-me fazer uma coisa que nunca fiz: um livro com financiamento. Pensei até que houvesse mais apoio para este tipo de coisas, mas já percebi que é difícil. Um livro nunca demora menos de um ano, ano e meio, por isso, é uma enorme liberdade e tranquilidade poder respirar um bocadinho melhor! Agora estou a trabalhar numa base que tem também referências autobiográficas - portanto uma autoficção, – e que se desenvolve em dois tempos, o presente e a memória do Moçambique pós-independência. Ainda estou a começar, mas quero explorar um pouco a minha infância lá durante os anos 1980, e comparar com o presente. Também procuro olhar para o que foi uma revolução sonhada, que acabou por ter complicações e não acontecer como se desejou. No meu caso, e da minha família, o fim deste período coincide com a morte de Samora Machel e a nossa vinda para Portugal. Gostava, através do questionamento das personagens e de algumas vivências dessa altura, olhar para o presente igualmente difícil, do ponto de vista político.

por Tiago Lança e Júlia Barata
Cara a cara | 14 Outubro 2026 | Argentina, arquitetura., autoficção, banda desenhada, Caderno de Memórias Coloniais, feminismo, isabela figueiredo, Júlia Barata, Maputo, maternidade, memória colonial, moçambique, narrativa gráfica, racismo