“Nada as parou. Nas maiores adversidades, nas situações mais difíceis", Mulheres de Abril, de Raquel Freire
Mulheres de Abril estreia no Indielisboa com dois prémios
Num tempo de acirrada disputa pela memória histórica, em que as forças mais extremadas da direita tentam por vários exercícios reescrever o que foi o fascismo, o filme Mulheres de Abril, de Raquel Freire, é um momento de verdade, um ponto de ordem à mesa. Quem conta a nossa história? Quem adivinha as alegrias e os padecimentos, os lutos e os encantamentos? Quem sabe do que vibrava o coração de uma criança aniquilada com os seus em Gaza? Quem ouve os pássaros na manhã sentindo o que transborda a vida que nos cabe?
O cinema pode, enquanto exercício coletivo, como sublinha a realizadora sobre o processo de trabalho que é um momento de estar junto, em comunidade. E por isso imbuído de cuidado, com a equipa e com as mulheres protagonistas que participaram no documentário. Vi o filme com cerca de duas centenas de estudantes do secundário. Adolescentes com os seus professores, fora da escola e com a insolência natural de ser jovem e ser levado a uma atividade. As instruções da frente de sala, a levar para fora uma estudante que não desistiu do seu chupa-chupa. As introduções e o apagar das luzes com as inquietações e estridentes solilóquios antevia a possibilidade do volume do som não ser suficiente para a minha segunda tentativa em ver o filme. Previsões goradas. A plateia juvenil manteve-se em silêncio e em atenção aos relatos de umas velhotas sobre as suas vidas durante o jugo da ditadura. Maior vitória e comprovativo de que o filme Mulheres de Abril tem algo a dizer ao presente.
É do presente que nos fala o filme de Raquel Freire. Não são entrevistas empacotadas a pessoas sentadas em suas casas rodeadas das suas memórias. Em que delas possamos guardar relíquias e testemunhos de algo longe e incrível de tão inverosímil.

Com a experiência da trilogia Histórias das Mulheres do Meu País, indo buscar em homenagem ao trabalho de Maria Lamas a inspiração para um retrato possível em 2019, a realizadora ensaiava as experiências em documentar histórias de vida. Na perspectiva de uma mulher da geração nascida perto de abril sobre o país contemporâneo a olhar para outras mulheres, juntando a sua atenção a um resgate recente e em crescendo nas recentes décadas à história invisibilizada das minorias, onde a mulher se inscreve enquanto categoria social. Mulheres de Abril não é um manifesto teórico feminista ou sobre os apagamentos. Não deixa contudo de os colocar em evidência. É uma história sobre o fascismo português e das formas de luta e resistência contra ele, aqui e em África, onde começou a preparação do golpe militar de 25 de abril de 1974. As múltiplas formas tomam lugar através das vozes de Margarida Tengarrinha, Julieta Rocha, Ana Maria Cabral, Isabel do Carmo, Maria Emília Brederode Santos, Luísa Sarsfield Cabral, Teresa Loff Fernandes, Zezinha Chantre, Helena Neves e Ruth Rodrigues. Sete portuguesas e três africanas com raízes em Cabo Verde e Guiné Bissau com relações da diáspora em Angola, S.Tomé, Timor e Índia.
O império colonial português urdiu a teia que permite juntar e cruzar a história destas mulheres na mesma luta. Se a resistência ao fascismo foi tão longa e tenaz quanto a sua duração, o início da guerra colonial ou guerras de África acelera num diapasão comum o conjunto da resistência, de comunistas a católicos, democratas e esquerdistas. Foi preciso no entanto esperar 13 anos com milhares de mortos para todos os lados, com Portugal isolado internacionalmente com sanções do mundo das Nações Unidas, incluídas as nações emergentes, para que os militares portugueses confrontados essencialmente com uma vitória impossível no terreno africano, se organizassem para depor o regime.
A Revolução que hoje celebramos, instauradora do regime democrático que temos, veio depois com o país e o povo na rua e em todo o lado. Foi a resistência armada dos povos africanos que empurrou e obrigou o exército português, impedido de negociar uma rendição e as independências, a organizar o golpe, esperado e amplamente apoiado pelos povos de ambos os continentes. Como tinha anunciado Amílcar Cabral, a luta contra o colonialismo e pela independência dos seus países era a mesma luta do povo português contra o fascismo. Ana Cabral, a sua mulher, conta-nos no filme como conhece Amílcar numa Guiné Conacry já libertada, depois de ter escrito da Alemanha ao líder do PAIGC que viria a ser seu marido, a oferecer-se para integrar as fileiras do partido. Conta-nos também como assistiu ao seu assassinato à porta de casa, de como tudo pareceu irreal durante muito tempo. De como os países conquistadores das suas independências não são em grande medida o que esperavam ou aquilo por que lutaram, mas são autónomos de decidir sobre os seus destinos.

“Aqueles homens não fizeram mal a ninguém, não podem ir presos. Vamos tirá-los de lá. Veio a GNR, tenho aqui a cicatriz, a primeira coronhada que levei partiu-me estes dentes todos”, Julieta Rocha, operária conserveira desde os oito anos. Não sabia o que era o fascismo quando decidiu ir à esquadra da GNR saber dos pescadores presos por terem ido reclamar do salário ao armador, que pagava às mais de duas centenas de pescadores, entre os quais o seu marido, o que decidia em cada momento e não o que estava estipulado. Uma vida de muito trabalho e sacrifício acentuados pela iniquidade e violência do regime fez de Julieta, hoje com 86 anos, a lutadora que reclama e celebra a liberdade desde 1974 com a maior das felicidades e inteira propriedade. Estava na estreia do filme no festival Indie de Lisboa, no dia 1 de maio no auditório repleto da Culturgest, juntamente com cinco companheiras e familiares de Ana Cabral para ouvirem a comoção da sala que entoa em uníssono, no fim dos aplausos longos de pé, “25 de Abril Fascismo nunca Mais”.
Tudo tem uma urgência também porque desde a rodagem do filme até agora morreram Margarida Tengarrinha, Teresa Loff Fernandes e Maria Brederode Santos, a quem o filme é dedicado em especial.
“Nada as parou. Nas maiores adversidades, nas situações mais difíceis. Estamos a falar de mulheres que tiveram de abandonar o seu conforto, as suas famílias, as suas filhas para lutar, e nunca perderam a esperança. São de uma generosidade enorme. Não há amargura no que elas dizem”, conta a realizadora ao canal Sapo. “Para Raquel Freire, gravar com a mãe foi “um reencontro muito bonito” pois cresceu rodeada de histórias de resistência: a bisavó foi das primeiras mulheres a estudar e a recusar o nome do marido, a avó e a mãe fundaram clandestinamente um sindicato de professores em 1969” na mesma entrevista.
Tratando do tempo e de memória a narrativa é, no entanto, construída num ritmo veloz cruzando as várias vozes, ancorada em espaços físicos fortes, seja a ilha de Santo Antão, a baía da Cidade da Praia, o Tejo ou as ruas de um bairro em Portugal ou Cabo Verde. É o tempo presente cheio de espaços abertos, musicais e livres. Só mais tarde se condensa a narrativa e o ritmo abranda para entrarmos nessa noite escura onde ouvimos o que cada uma fez e aquilo por que passou
Filmado entre 2023 e 2025 por uma equipa inteiramente feminina, com produção da Madame Filmes, deixa adivinhar uma preparação exigente, em que não só a escolha das testemunhas pensou a diversidade da sua inscrição sócio-económica ou política mas também na forma em como trazer para o espaço público a sua necessária presença. Raquel Freire anteviu essa necessidade e filmou com a generosidade que reconhece às suas mulheres de abril, tornando-se a si própria e a nós suas cúmplices.
MUTIM
Raquel Freire co-fundou a MUTIM – associação das Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento –, em 2022, com o objetivo de corrigir as desigualdades no cinema em Portugal. “As mulheres continuam a receber menos e continuam a ter menos hipóteses de trabalhar”, explica. A associação reúne mais de 400 profissionais e vai apresentar este ano uma proposta de quotas para o setor. Tem disponível um manual de boas práticas para ambientes de rodagem seguros e respeitosos. Para Raquel Freire, resume a ideia numa frase: “Para problemas coletivos, soluções coletivas