Lugares de memória Irlanda do norte

Belfast, março de 2015. O muro, sem ser contínuo, apresenta cerca de 34 km (em 2017). A maior parte das suas passagens ou portas encerram às 19h. A visita guiada, feita num cab, às memórias dos Troubles, encerrados pelo acordo da Sexta-feira Santa em 1998, conduz-nos aos murais nos bairros independentistas, republicanos e maioritariamente católicos, e nos bairros unionistas e maioritariamente protestantes. Visitámos ainda memoriais a vítimas nos lugares onde estas tombaram, civis católicas queimadas nas suas casas e membros do Sinn Fein, assassinadas por forças paramilitares pró-britânicas. O pequeno Museu Irlandês Republicano tem um acervo com milhares de peças usadas ou produzidas pelos detidos e presos irlandeses nas cadeias britânicas.

Memorial a vítimas em bairro católicoMemorial a vítimas em bairro católicomemorial a vítimas Sinn Feinmemorial a vítimas Sinn Feinmemorial a vítimas Sinn Feinmemorial a vítimas Sinn Feinmural republicanomural republicanomurais em Belfastmurais em Belfastmurais em Belfastmurais em Belfastmural frente ao museu repulicanomural frente ao museu repulicanomuseu republicanomuseu republicanomuseu republicanomuseu republicano

muromuromural frente ao museu repulicanomural frente ao museu repulicanomuseu republicanomuseu republicano

mural em bairro unionistamural em bairro unionistamural em bairro unionistamural em bairro unionistamural em bairro republicanomural em bairro republicanomural em bairro unionistamural em bairro unionista

“O caso macroscópico de uma memória que não se desbloqueia, mas se reproduz, apesar dos processos de reconciliação postos em prática, é o da Irlanda do Norte, em que o potencial de conflitos e de disputas sobre o passado é extremo. Não por acaso, a Irlanda do Norte constitui o elo mais problemático das negociações de um Brexit que não se encerra. Apesar dos acordos do Good Friday, de 1998, que criaram o contexto de pacificação depois de três décadas de Troubles, uma cidade como Belfast continua a ser uma cidade fraturada que, apesar do processo de paz, nunca recompôs as suas fraturas mais profundas.
As associações da cidade organizam roteiros temáticos, extremamente interessantes, a lugares da memória dividida que exibem feridas ainda expostas. A guerra que dilacera ainda a memória do Ulster é também um pacote turístico. Mas uma dessas visitas organizadas – o “Political Tour”, que tem início na simbólica Divis Tower – carateriza-se por uma componente particular: reproduz vistosamente a fratura que ainda divide Belfast. Nisto reside a ligação mais próxima do passeio histórico com a atormentada história da Irlanda do Norte. A oferta de um percurso que se desenvolve em dois segmentos da cidade, a primeira parte, na zona oeste, católica e republicana, com um guia idoso, Jack, militante do IRA, que proporciona uma narrativa dos Troubles do lado nacionalista. O segundo segmento ocorre na área unionista e protestante com um outro guia, Robert, ele também senhor de um passado que lhe deixou marcas físicas na perna, enquanto militante das milícias paramilitares filo-inglesas. Entre as duas regiões, o muro da Peace Line que divide os dois mundos. E, ainda, os dois homens. Entre as duas narrativas opostas sobre passados irredutíveis que resistem a fundar uma memória comum, ocorre o clímax da visita que coincide com o meio do caminho.
No portão ferrugento de Lanark Way, que separa o bairro unionista do bairro republicano (e que, num ritual sombrio, todas as noites, ainda hoje, 20 anos depois da assinatura do acordo de 1998, continua a ser fechado, só sendo reaberto de manhã), os dois guias encontram-se e passam um ao outro o grupo de ouvintes. O silêncio do momento é embaraçoso e ocorre só um aperto de mão mecânico. Como logo explica o guia unionista, eles não são amigos e enfatiza imediatamente a questão crucial que passa por uma semântica sem equívocos: “a nossa geração não perdoará”. Um aspeto que se torna imediatamente claro passando do campo republicano para o campo unionista é que a paz não é um facto, é um processo e todos os habitantes de Belfast estão no meio desse processo. Prontos a recuar, se assim se impuser. O futuro não é óbvio. A dualidade da visita permite captar também duas retóricas de rememoração do passado que distinguem os dois campos com materiais (simbólicos) muito mais espessos do que somente um muro divisório. (…)”

Continuar a ler o artigo “Rituais de uma memória fraturada” de Roberto Vecchi.

 

por Josina Almeida
Vou lá visitar | 1 Março 2020 | Belfast, Irlanda, memorial, museu republicano