As Fábulas infantis e juvenis de José Luandino Vieira
A infância, enquanto metáfora da descoberta, inquirição e nomeação do mundo, e, subsequentemente, como espaço do espanto e do encantamento das coisas do mundo e sua celebração, ou sua rejeição extrema, é um dos temas fulcrais da novelística de José Luandino Vieira, desde A Cidade e a Infância, de 1960. E, neste sentido, mostra-nos o autor como, e quanto, é a infância, com sua potencial sensibilidade em permanente transgressão, o tempo inaugural e aprendiz da mais límpida imaginação criadora; tempo da justiça implacável, irreverente e sage; tempo do riso mais desarmante e sedutor; tempo do brinquedo e da fantasia mais sábios e desconcertantes; tempo da ternura mais livre e envolvente. Mas é também a infância o tempo da perversão e da crueldade em seus justiceiros ajustes de contas e vinganças perpetrados entre si, ou contra as incongruências e incompreensões mundividentes dos adultos, tantas vezes obnubilados, se não de si mesmos, do facto de ser a criança um ser em permanente construção de si, descobrindo-se e formando-se no fruir pleno da inquietação e festa que é a própria vida.
Faço questão, como quem abre aqui um parêntese, de sublinhar o facto de José Luandino Vieira não ter nascido como aquele escritor já feito, pronto e acabado, e, logo-logo, empacotado para o mundo com o rótulo de génio à beira do seu mais contundente absoluto. Luandino é um escritor que se vai fazendo devagarosamente, palavra a palavra escrita ― «eterno aprendiz» lhe chamei na introdução para Os Poemas: Íntimos e Pessoais que dele organizei ―, aprendendo em seus erros próprios a mais íntima caligrafia da sua voz, correndo todos os riscos de quem desbrava caminhos no coração das pedras que se erguem do meio dos rios, sem concessões ao fácil ou a uma receita seguida a preceito e sem alteração de temperos, até à conquista plena de um dizer inaugural, pessoalíssimo, que culminará com obras-primas incontestes, como Nós, os do Makulusu, João Vêncio: Os seus Amores, No Antigamente, na Vida, ou De Rios Velhos e Guerrilheiros ― I O Livro dos Rios, de 2006.
É na sequência da publicação desta obra que Luandino faz editar, com ilustrações de sua autoria, um excerto desse romance em volume autónomo e destinado a um público infantil e juvenil, titulado A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens. Guerra para Crianças. Na verdade, não é esta a primeira incursão do autor neste género literário, insondavelmente marginalizado ou tido por género menor pelos «entendidos da crítica».
Remonta ao ano de 1964, a publicação em Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império, do «Conto popular angolano: Porquê o morcego come de noite», com a nota final «(contou A. Imama, recolheu Luandino)». Este conto, com ligeiras alterações e a indicação final «(Narrador: Alberto Sossi / Recolha de: Luandino Vieira)», surge a páginas 518, na entrada «31-V-64» de Papéis da Prisão…, de 2015, a partir do qual recriará a sua pessoalíssima «fábula angolana», Dimandondo, O Morcego dos Três Nomes, que abre com a seguinte nota:
Ouvi esta fábula na cadeia da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a polícia política do colonial-salazarismo), em S. Paulo, Luanda, no ano de 1962. Contou-ma A. Imama (ou Alberto Sossi?), cabindense, de um pequeno grupo de presos, mais tarde levado, de avião, para parte incerta. E nunca mais ouvi dele ou dele tive notícias. Narrou-me esta fábula, como exemplo, segundo me explicou, da esperteza necessária a quem se quiser conservar livre. E, também, do preço a pagar por isso. Uma primeira versão foi publicada em Julho de 1964, no Boletim Mensagem da Casa dos Estudantes do Império, n.º 1, do Ano XVI.
Não posso, em relação à publicação original deste «morcego que come de noite» e seu «porquê», não sublinhar a traço muito vivo, no mais alto e nobre sentido da homenagem, o caso de extrema e perigosíssima coragem a merecer aqui registo e vénia, que é o facto de Carlos Ervedosa, por certo o «fiel depositário» dos manuscritos passados clandestinamente para fora da cadeia, ter ousado dar à estampa neste número de Mensagem, sob a direcção de Alberto Rui Pereira, quer este conto tradicional recolhido por José Luandino Vieira, quer a sua tradução do poema «No sítio que acaba o arco-íris», do poeta sul-africano Richard Rive, como ainda o poema de António Jacinto «Era Uma Vez…» (que viria a integrar Vôvô Bartolomeu…), quando ambos se encontravam presos transumantes de cadeia em cadeia «nesta nossa cidade de Luanda», desde meados de 1961 e nas vésperas de serem deportados para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, o que aconteceu a 31 de Julho de 1964.
Neste mesmo número, fechando com chave de ouro a sua saga maravilhosa, foram ainda publicados os poemas «Sonho» e «Grito Negro», de José Craveirinha, e o conto «Inventário de imóveis e jacentes», de Luís Bernardo Honwana, quando ambos estavam também eles encarcerados pela PIDE na então Lourenço Marques, em Moçambique, pelas mesmas razões nacionalistas que levaram António Jacinto e Luandino à prisão e à deportação. Registe-se ainda, ser este o último número publicado de Mensagem, tendo a CEI sido extinta em 1965 pelo governo de Salazar, tal como a Sociedade Portuguesa de Escritores, na sequência da atribuição do Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores ao livro Luuanda, de José Luandino Vieira, então exilado incomunicante no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde.
Acontece, porém, que se não ficou por aqui esta experiência do autor na criação literária para a infância e juventude. E, revolvendo a memória (ou, revolvendo na memória os seus fundos baús mais secretos), dela trouxe viva a tradição oral angolana, através das fábulas ouvidas aos seus companheiros de cárcere, quer nas luandenses cadeias da época, quer no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Que fazer com esse material ― se há-de ter interrogado Luandino ―, material esse já de si testemunho histórico de um tempo sinistro e epopeico, tempo de empenhamento, de resistência e luta, por um país ainda por haver? Reinventar tudo pela escrita, se decidiu então o escritor, para que a memória íntima e colectiva se não esboroe, nem a globalização rasure da face da Terra o supremo direito a ser e a existir de um país e seus cidadãos: Angola e os angolanos.

Numa pequena editora, a Letras & Coisas, publicou Luandino até agora (tendo todos os títulos ilustrações da sua autoria e, como subtítulo, «Uma fábula angolana»), Kaxinjengele e o Poder em 2007; Kiombokiadimuka e a Liberdade em 2008; Puku Kambundu e a Sabedoria em 2009; Kaputu Kinjila e o Sócio Dele Kambaxi Kiaxi em 2010 ― este, com a comovida dedicatória: «Para / Nha Beba, / mais que tudo, nossa Mãe. // Homenagem dos presos políticos angolanos do Campo de Concentração do Tarrafal, Cabo Verde (1962-1974), à Excelentíssima Senhora Dona Eulália Andrade ― Nha Beba, em seu 100.º aniversário natalício»; seguem-se Ngola Mukongo e a Justiça em 2011; Xingandele, O Corvo de Colarinho Branco em 2012; Dimandondo, O Morcego dos Três Nomes em 2013 ― reunidas em 2019 num único volume, com o título Fábulas Angolanas, e ilustrações de Alberto Péssimo, também com edição Letras & Coisas. E são, na verdade, belíssimos objectos estéticos, todos estes livros.
De fora deste volume ficou Katubia Ufolo, O Pássaro Serpente, publicado em 2015, na mesma editora e com ilustrações do autor, num acto «íntimo e pessoal» de celebração dos 40 anos de independência de Angola, pela qual pagou o mais alto preço da prisão, da deportação e do exílio.
Contrariamente às fábulas anteriores, tem esta uma nota do autor, que diz: «Esta fábula não foi me contada. Eu mesmo assisti. Estive no pambo. E também continuo à espera de ver chegar noivo para Kadipanda Nzoji. O pássaro Katubia Ufolo, que tem todas as cores e pode virar serpente, é o pássaro da liberdade, o que sempre se vê só e não pode se caçar.» E é essa metáfora da luta pela conquista do poder pelos três movimentos de libertação ― MPLA, FNLA e UNITA ―, que faz a trama deste belíssimo prosema em tom de epopeia, na inconfundível linguagem luandínica, encantatória de humor e mágicas sabedorias sem data. E mesmo que «Um mais-velho, o senhor Na Malunda, perdeu tudo, ganhou nada. Sobrou só com a sua filha cassule, a menina Kadipanda Nzoji» tenha decidido arranjar noivo para ela, e logo-logo 3 forasteiros tenham aparecido, candidatando-se, cada qual com sua razão e argumentos, acabando todos por, depois de constatar que «afinal, o pássaro Katubia Ufolo era mas é a serpente arco-íris, a própria, a senhora Kitasele kia Hongolo. Que desceu do pau e engoliu os três pretendentes», enquanto «a menina Kadipanda Nzoji até hoje está esperar seu noivo na porta da casa dela», esperar é mangonha que não se recomenda, nunca! Porque o destino é sempre uma permanente reconquista e reinvenção do chão sagrado que somos e estamos: a nossa independência de País e de Povo, de Cabinda ao Cunene, por esses mundos fora ― livres, dignos, soberanos.
São fábulas-poemas, não raro para voz e coro, sem moralidades ou ensinamentos impositivos e anódinos ― esses condimentos infuncionais que são a tentação de tantos autores deste género de literatura, e que em nada contribuem para o encantamento mágico que deve ser o acto de leitura ou de audição da estória pela imaginação da criança. Mas são, também, fábulas vindas da idade mais nobre dos humanos tempos, esses da sageza das oraturas dos povos, aqui narradas por escrito nessa encantatória, poética e visceralmente luandínica língua portuguesa, tão angolense e universal, sua marca de autoridade e autor. Porque, como nos lembra Cortázar, o ritmo «é sentido de algo, que não é medida, e sim tempo original. É visão do mundo, e imagem do mundo».
Sem nenhuma concessão à facilidade (uma criança, sabe-o bem o autor, não é um imbecil, mas um ser cuja inteligência crítica é implacável e justa), mesclando e retorcendo no mais alto grau criador, em humor e poema, as línguas kimbundu e portuguesa, Luandino traz à infância temas da História de Angola (como a luta pela independência do país, ou a própria independência nacional e a terrível guerra civil que lhe sobreveio), ou, ainda, temas universais como a sabedoria, a liberdade e a justiça, a avidez do poder, ou a ganância mercantil, na sua fulgurante linguagem, irradiante de sentidos, de plasticidade visual e musical, criando poderosas e maravilhadas metáforas, onde o onirismo, o fantástico e o lado mágico da vida, aliados à densa poesia das personagens, vivamente nos encantam.
Ou, dito de outra maneira: uma oralidade pictórica e cinematográfica expansiva; uma radical, pessoalíssima transfiguração transgressora da linguagem, onde a revelação de um mundo é a criação de outro, numa «concepção rítmica do cosmos», é o que estas fábulas de Luandino nos propõem, numa transcendência da própria História: prazer re-encantado de leitura e releitura, em «ritmo infindavelmente criador».
Ndá pandula, meu grande kamba José Luandino Vieira, pelas muitas horas de fabuloso prazer estético que me tens proporcionado nestes 50 anos de te ler, e reler-te sempre, «com os olhos secos», em novas e fulgurantes descobertas.
Como a Luta, também a escrita continua!
A Poesia é certa!