03.06 — 01.11.26 Piso -1 MAC/CCB

Na sua primeira exposição individual em Portugal, Frida Orupabo revisita o vasto arquivo de imagens que reuniu na sua conta de Instagram, composto por tensões entre intimidade e violência, imagens de uso privado e mass media, para instaurar um espaço crítico. Cloud of Confusion parte de um gesto que todos reconhecemos — o scroll de um feed de Instagram — e, em diálogo com a arquitetura do MAC/CCB, desenha um percurso linear de oito momentos, à semelhança do deslizamento contínuo entre ecrãs que caracteriza a experiência digital. O título evoca não só a nuvem digital onde armazenamos imagens e dados mas também a névoa de informação, memória e esquecimento que aquela implica, à semelhança do fluxo digital que enfatiza o «abismo» das imagens — a sua estranheza e a sua reverberação dispersa.
Transpondo a lógica digital para o espaço do museu, a exposição assume-se como uma sequência descontínua de imagens, pontuada por obras tridimensionais, onde o scroll habitual se transforma em deslocação física. A montagem e a edição, que Frida Orupabo entende como gestos relacionais, só se revelam plenamente a um espectador presente, com corpo e tempo.
A PALAVRA À CURADORA:
Frida Orupabo nasceu em 1986 em Sarpsborg, na Noruega, e vive e trabalha atualmente em Oslo. O seu trabalho desenvolve-se no campo digital, alimentando-se de imagens encontradas na internet, que reconfigura através da descontextualização e da colagem.
Entre 2013 e 2016, Frida Orupabo manteve a conta de Instagram @nemiepeba, um fluxo de imagens e pequenos vídeos em loop que Arthur Jafa descreveu como «implacável» e «incandescente». O artista norte-americano referia-se ao olhar de escafandrista de Frida Orupabo, que, tanto na superfície saturada como nas suas camadas mais profundas, esquadrinha e recolhe relações intensas entre imagens.
O trabalho da artista propõe uma lógica de montagem e colagem que não apenas se desenvolve de forma narrativa como também aprofunda e faz exceder a sua matéria-prima, tal como um poema. As imagens, na sua interrelação, cruzam arquivos coloniais, cinema, televisão, sistemas algorítmicos, violência, maternidade ou estéticas musicais. Na obra de Orupabo, a recombinação e o deslocamento abrem novas leituras sobre o imaginário visual negro, restituindo, em particular, uma forma de soberania aos corpos — e às vidas — que essas imagens historicamente capturaram. Como refere a artista, trata-se de criar trabalhos que «olham de volta» e questionam um olhar branco e a sua perceção do corpo negro.
Esta exposição coloca a hipótese de transpor o feed de Instagram para o espaço do museu, explorando a sua experiência ao longo das salas, cuja configuração linear parece já conter, em si, essa possibilidade. Nesta passagem, a montagem e a edição, às quais a artista atribui uma qualidade relacional, tornam-se legíveis apenas na vivência de um espectador implicado e corporalmente situado no espaço e no tempo. A lógica do gesto contínuo do scroll organiza-se numa sequência descontínua, pontuada por obras tridimensionais da artista.
O título Cloud of Confusion («nuvem de confusão») é retirado de uma das muitas imagens do Instagram da artista, na qual boiam palavras como que numa sopa de letras. Que leitura do mundo, então, se torna possível quando a construção da memória cede a uma lógica digital de «armazenamento» — ou quando dissolvemos a experiência humana na confusão da cloud?
Marta Mestre Curadora da exposição
SOBRE A ARTISTA:
Frida Orupabo, nascida em 1986 em Sarpsborg, na Noruega, vive e trabalha em Oslo. Estudou Estudos do Desenvolvimento e Sociologia na Universidade de Oslo (2005–2011). Entre as suas exposições individuais destacam-se as que realizou no Fotomuseum Winterthur, Winterthur (2022); Museu Afro Brasil, São Paulo (2021); Kunsthall Trondheim, Trondheim (2021); Huis Marseille, Amesterdão (2020); Portikus, Frankfurt am Main; e Kunstnernes Hus, Oslo (ambas em 2019). Orupabo participou na 34.ª Bienal de São Paulo (2021), bem como na 58.ª Bienal de Veneza (2018). Em 2025, foi distinguida com o prémio SPECTRUM — Internationaler Preis für Fotografie.
Com formação em sociologia, Orupabo começou a recolher imagens da internet enquanto trabalhava num centro de apoio a vítimas de tráfico humano e profissionais do sexo. Este arquivo encontrou expressão pública, em primeiro lugar, no Instagram e, posteriormente, na colagem física. A manipulação destas imagens inscreve-se numa tradição de fotomontagem em que a artista corta, reorganiza, inverte e sequencializa em loop imagens fixas e em movimento. Tão poderosas quanto perturbadoras, estas intervenções dão origem a releituras imaginativas e incisivas de motivos visuais que procuram desafiar noções coloniais ainda enraizadas nas estruturas sociais, económicas e políticas, permitindo uma reflexão sensível sobre temas como raça, género, sexualidade e laços familiares.
PROGRAMAS PÚBLICOS:
02.06.26
18h30 Conversa com a curadora Marta Mestre no Auditório MAC/CCB
19h00 Inauguração no piso -1
20h00 DJ Arrlomp no Foyer do Grand Hall
Arrlomp nasceu em Cabo Verde e, como um relâmpago, percorre o mundo partilhando a sua música, criando ligações geográficas entre ritmos e grooves que se acompanham e misturam, sempre com muito amor e a delicadeza de uma descarga de energia positiva.
03.06.26 > 01.11.26
Sala de Leitura e Escuta
Esta sala, localizada ao fundo da exposição, acolhe ativações periódicas e oferece um espaço onde o público pode consultar bibliografia e projetos editoriais relacionados com o universo referencial de Frida Orupabo.
Conceção e dinamização: colectivoFACA (Andreia Coutinho e Maribel Mendes Sobreira) e Ícaro Lira
21.06.26 | 27.09.26 11h00
Visita guiada à exposição
Participação gratuita mediante inscrição prévia para servico.educativo.museu@ccb.pt
18.07.26 14h00
Oficina Cartonera de Livros Artesanais
Oficina de produção artesanal de livros, orientada por EVA Cartonera, com recurso a materiais reciclados cujo conteúdo se relaciona com a obra de Frida Orupabo.
Duração: 4 horas. Máximo: 10 adultos. Participação gratuita mediante inscrição prévia.
19.09.26 15h00
Visita guiada à exposição com a curadora Marta Mestre
Participação gratuita mediante inscrição prévia para servico.educativo.museu @ccb.pt
19.09.26 18h00
Conversa: MANAS no CCB
Práticas artísticas, inclusão e produção de contra-arquivos. Conversa pública dedicada às relações entre práticas artísticas, inclusão, participação e produção de contra-arquivos no interior das instituições culturais.
Coletivo MANAS — Grupo de Apoio Mútuo
Duração: 1 hora e 30 minutos
Participação gratuita mediante inscrição prévia.
MAIS INFORMAÇÕES: Manuela Costa manuela.costa@ccb.pt + 351 925 313 416