«Maçonaria», de Azagaia, e a reescrita da narrativa colonial em África
Em nome da ambição, do poder e do espírito materialista
A graça da ambição, o amor ao poder em comunhão
Com o espírito materialista, estejam convosco
Para celebrarmos dignamente os nossos dignos mistérios
Reconheçamos que somos pobres
Confessemos os nossos erros!
Confesso a Deus, Pai Todo-Poderoso e a vós irmãos
Que errei muitas vezes por honestidade e solidariedade
Actos de generosidade e amizade
Por minha culpa, minha tão grande culpa
E peço a vós irmãos que rogueis pela minha riqueza
A Deus nosso Senhor
Deus Todo-Poderoso tenha compaixão de nós
Perdoa a nossa falta de ambição
E nos conduza à riqueza eterna!
Agora que a jornada do herói chegou ao fim, podemos, finalmente, ver a verdadeira dimensão deste semideus mulato moçambicano que, com um papel e uma caneta, inventou a revolução do seu país. Azagaia é um nome que transcende todos os adjetivos, sejam eles bons ou maus. É típico do ser humano achar bizarro e bárbaro o desconhecido, mas tivemos entre nós uma aparição, uma verdadeira força da natureza.
Morreu mano Azagaia em sua casa / Gwaza Muthini de novo aqui na pátria do deixa andar /se quer ser dinheiro sê político para aldrabar o povo/ dizendo que ele é o patrão/ abram alas e deixem espaço para dançar/ por cima dos cadáveres de população/ que nasce e morre sem educação (…)
É um excerto de um poema cantado que escrevi logo após receber a notícia da morte de Azagaia. Era março de 2023 e eu acabava de regressar a Lisboa, depois de umas férias lindas em Maputo — aliás, as melhores férias da minha vida. Foi nessa época que fui à Lua, literalmente, e voltei a Lisboa pai e órfão ao mesmo tempo: Lunna, a minha filha, era uma semente de girassol na barriga da mãe, e o mano Azagaia acabava de morrer.
Azagaia
A tragédia outra vez. Outra vez a vida e a morte a jogar ao jogo do vaivém. Desde então, como que por obsessão, passei a interessar-me profundamente por este artista, este mano, génio da poesia e da luta social, que colocou Moçambique no mapa do rap universal. Eu estava a começar a escrita itinerante de Viagem por mim Terra, uma criação a pedido do Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito da Odisseia Nacional. E, como por instinto, escrevi Azagaia no coração da minha página em branco. A primeira palavra da peça tinha sido uma flecha com sangue do povo, a pingar toda a angústia ancestral do povo moçambicano e africano, que vive a eterna luta pela sua independência total e completa, no sentido mais profundamente humano do termo.
De repente, a minha peça, que deveria ser uma viagem autobiográfica, passou a ter um duplo sentido: eu, à procura de mim mesmo, acabei por encontrar Azagaia na encruzilhada. A minha meta deixou de ser apenas chegar a mim. Desde o dia 9 de março de 2023, algo me guia em direção ao âmago criativo do rapper, poeta, letrista e homem vertical, que viveu e morreu sem nunca se vergar.
No início, tive a mesma sensação da personagem, quer dizer, do herói, quando sofre os primeiros efeitos da metamorfose. Senti que um bicho estranho se me entranhava na alma, que uma transformação da consciência acontecia diariamente dentro de mim. Comecei a tomar posição, e foi aí que se deu o encontro com o devir.
Como podem constatar, foi preciso toda esta divagação para chegar ao X da questão: a música «Maçonaria», do álbum Cubaliwa — o melhor produto discográfico do hip-hop de língua portuguesa nas últimas duas décadas.
«Maçonaria» surgiu numa época em que o mundo vivia sob a batuta de uma outra normalidade. Era antes da pandemia, o planeta era um pouco menos quente e os ditadores de hoje ainda andavam encapuçados, disfarçados de empresários da indústria do nada: aquela que vende aculturação e valores morais distorcidos em nome do entretenimento e dos meios de comunicação sensacionalistas. Foi antes da vaga de mobilizações pela defesa dos direitos das pessoas negras e dos afrodescendentes que povoam os guetos do mundo, antes das manifestações que coloriram de gritos e cartazes as ruas de Lisboa, Madrid, Nova Iorque, Buenos Aires e Paris, em defesa dos oprimidos. Uff, foi antes do milagre do século.
Antes da distopia, Azagaia cantou em «Maçonaria» aquilo a que chamo a reescrita da narrativa colonial em África, a partir de uma releitura da Bíblia. Uma Bíblia atualizada, na qual os que se dizem apóstolos de Cristo, enviados para evangelizar o mundo, se deixam conquistar pela cobiça e se transformam em exploradores, carrascos e senhores. Os pobres homens, mulheres, anciãos e crianças — os ditos povos pagãos, que deveriam ser civilizados e encaminhados para a santa luz de Deus — acabaram escravos, servos, putas e amas de leite.
Nesta leitura, Azagaia interpreta a religião europeia como um forte e fiel aliado dos poderosos, a sua arma mais silenciosa e eficaz. Uma aliança que atravessa os séculos: da apropriação do cristianismo pelo poder romano à consolidação do papado no Vaticano, junto à tumba de São Pedro. O fumo branco a contaminar as plantações de algodão, chá e cana-de-açúcar das Américas, da Ásia e de África.
A verdadeira oração dos que se autointitulam enviados de Deus Nosso Senhor não será, de certeza, pela paz mundial ou pelo fim da fome e das desigualdades sociais. Muito pelo contrário: rezam para que os seus bolsos sejam abundantes como as margens do rio Jordão ou do Nilo.
Por isso cantou o mano Azagaia, com a sua voz eterna. E cantou assim:
Evangelho
Andava o filho dele nas grandes civilizações pregando
Quando deixou a sua última oração
Em nome da ambição, do poder e do espírito materialista
Ouve esta oração, ó, Deus capitalista
Seja feita a vontade dos servos cem
Em sagradas contas bancárias, amém
Que o pão nosso de cada dia nunca nos falte
Mesmo que a decência e a vergonha nos falte
E se necessário derrame sangue por toda parte
Mas em nome do desenvolvimento salve a nossa parte!
Sejam os pobres a pagar pelo perdão das dívidas
Que contraímos para pagar o luxo das nossas vidas
Hotéis e boa clínicas, férias paradisíacas
Justiça, educação, cultura …
Maçonaria (part. Guto e Banda Likute)
Azagaia in Cubaliwa, álbum 2013
Azagaia fez da sua música, da sua voz possante e da sua presença hipnotizante e cativante em palco um veículo poético poderoso: a arma que só os grandes artistas são capazes de manejar para transmitir conhecimento. As suas músicas são autênticos tratados científicos, uma provocação à sociologia e à geopolítica de Moçambique e de qualquer país do mundo. Azagaia é universal: a partir do local, consegue capturar a condição do mundo nestes tempos de ditaduras silenciosas, em que a verdade é uma ave rara e quem a tem vive sempre com uma arma apontada à cabeça.
Ainda não terminei de escrever a minha peça. Ao longo do tempo, foi ganhando novas nuances. Percorri outras geografias: vim a Maputo, fui a Joburg, regressei, depois Matola, Infulene, de novo Museu e agora, finalmente, Maxaquene, o princípio dos princípios. E olha só quem encontrei: «Maçonaria», de Azagaia, nos auscultadores do futuro.