O bailarino, um drama do horror ou uma sugestão estética de Evaristo Abreu

Setembro é o mês de Moçambique. Foi em Setembro, há um pouco mais de meio século que se iniciou a luta armada de poemas e enxadas, as armadas do povo sempre foi o trabalho; uns cultivam mapira na machamba do povo, outros semeiam sonhos em cada palavra escrita, falada, cantada ou desenhada na cabeça das crianças, jovens e adultos deste país. Os heróis de Setembro são homens e mulheres como os nossos avós que morreram na fila do INSS, sem caixão e muito menos carapau para o copo de água em casa do finado depois do enterro. 

Foi em Setembro de dois e mil e vinte cinco que o mestre Evaristo Abreu regressou ao teatro, desta vez vestido de um facto estranho, um tecido de madeira brilhante, frio e pesado como pau-ferro. Quando ele chegou ao teatro uma multidão de almas amigas o esperavam na porta, todos rendidos e sóbrios, todos abatidos e arrependidos, todos eufóricos para ver-te pisar o teu palco pela última vez e desta vez tal como foi no princípio a tua mãe veio ao seu socorro, agarrou-te pela mão e ajudou-te a encontrar um lugar confortável. E antes de mandar abrir as cortinas sentou-se por cima do caixão com uma expressão de estátua doente de angústia, a morte curva até os grandes. E depois disso só me lembro do fogo, do cheiro de eternidade a poluir o horizonte, uma multidão de gente do teatro e da arte em sua casa, mestre como nos tempos em que éramos tu o anfitrião, o corifeu do grande carnaval, do ditirambo com direito a vinho e leitão assado a moda Maconde na lenha e em fogo lento, a carne deve ser tenra para que a alma possa disfrutar da sua liberdade existencial e criativa.

E tudo isto, a morte, a festa e a celebração comunitária são elementos intrínsecos a natureza do teatro, ou melhor a vida do mestre Evaristo. Acredito. Eu, assumidamente obcecado com a ideia da pessoa poder ser a extensão dos seus valores e convicções. 

Uma prova irrefutável, o espectáculo o Bailarino, uma peça apresentada na abertura do festival Maputo em Cena, que aconteceu ao longo do mês de agosto do corrente ano e levou uma multiplicidade de abordagens teatrais, performances e reflexões em diferente espaços do centro e da periferia da cidade. No dia 13 de Setembro foi a vez de Bailarino, um texto escrito e dirigido originalmente por Evaristo Abreu no início da década de mil novecentos e noventa. Na época foi levada a cena pelo grupo Mbeu, o mesmo que hoje, mais de trinta anos depois traz a luz, para o conhecimento das novas gerações uma obra importante para a história do teatro moçambicano.

Se para a academia moçambicana, - a mesma que Evaristo Abreu engajou-se para que se tornasse realidade -, até hoje bate-se com a velha e inquietante questão sobre o que poderia vir a ser o teatro moçambicano, no sentido estrito do termo, a resposta talvez tenha sido dada há trinta anos. Vejamos, há mais de cinquenta anos que andamos a procura de uma identidade para o nosso teatro, uma marca, um personagem, uma forma, um método de formação de actores ou encenadores que pudéssemos chamar nosso, mas é ai que se entra no mato e não se vê a árvore. 

Diante da cena de o Bailarino, quando as luzes se acendem, o palco todo vermelho de fogo nocturno, um cemitério, corpos de actores bailarinos, repara bem, actores bailarinos estão deitados no chão, são a representação das campas, os mortos foram perturbados o sono, estão raivosos e vão se vingar do jovem que no mundo dos vivos vive e ignora que na verdade não está sozinho neste mundo, os mortos vivem connosco, também sentem sede, sentem fome e sentem ódio, os mortos têm muito ódio dos vivos por isso estão sempre com exigências. 

Missas que não acabam e sangue e muitas notas de dinheiro. Caso contrário a tua vida náo vai andar. O teu carro existencial foi sabotado, terás de procurar uma oficina espiritual. Em todas esquinas do país não faltam curandeiros que prometem acabam com disfunção na tua vida, pôr tudo em cima de novo, você pode virar chefe da noite para o dia mas também na mesma velocidade os espíritos podes te arruinar e humilhar, te fazer enlouquecer. Conclusão, com os espíritos não se brinca, devemos respeita-los como se respeita um pai ou uma mãe, porque no final das contas os nossos mortos são os nossos deuses, mesmo que a colonização enraizada nas nossas cabeças de cidadãos do mundo teimem em recusar.

Evaristo AbreuEvaristo AbreuComo podemos ver estamos diante uma obra teatral que na sua forma não encontra paralelos, é uma espécie de drama do horror com um tom cómico e sarcástico, porque o que temos em cena são personagens de vivos e mortos, duas dimensões existenciais coabitam o mesmo espaço cénico e constroem juntos, nessa interacção objectivamente conflituosa uma narrativa que nos encanta, choca e assusta. Um teatro épico no sentido brechtiano do termo, trata de uma temática importante, a necessidade de as novas gerações respeitarem o passado que os deu o presente. O maior legado é a memória e talvez por isso achei engraçado que a Isabel Jorge, directora do festival e da companhia Mbeu tivesse escolhido justamente esta peça para celebrar a memória do Mestre Evaristo Abreu.

 

 

por Venâncio Calisto
Palcos | 22 Setembro 2026 | dança, Evaristo Abreu