Hoje fui a enterrar uma pluma, em memória de Luís Giovane, estudante cabo-verdiano assassinado em Bragança.
Giovani tropeçou na morte à saída da discoteca. Por vezes, a existência é uma embriaguez permanente. Ser negro e estrangeiro é maldição a mais. Lembrou-lhe a derradeira paulada que levara da vida naquela triste noite de dezembro. Lembrou-lhe as mãos cobardes dos quinze diabos. Giovani era um artista. Só sonhava com mornas. Compor e cantar repertórios de adoração a um deus que fosse mais justo e imparcial. Por que é que uns têm a bênção de matar e outros de serem mortos? Tombou numa rua qualquer de Bragança. Um negro caído, quem se importa?
Há uma voz prostrada no chão frio da noite a lamentar-se do dia que acabou depressa. Não tenham compaixão de mim. Canta, e o funaná torna-se esquisito depois de três ginjinhas. Lisboa ilumina-se, mas a tristeza permanece. Vem desta voz que insiste em dedilhar-nos a ferida antiga, mas nunca morta. E, se morta, sempre pronta a ressuscitar. A indiferença dos jornais e a hipocrisia dos discursos políticos nunca poderão corromper a verdade. Todos sabem que os negros que povoam a noite do Largo do Rossio, aqueles que fazem do alpendre das lojas e dos portões do Teatro Nacional Dona Maria II a sua suíte, são a alma dos judeus assassinados pelo ódio. O ódio eterno dos legítimos filhos de Deus. A maldição ressuscitada na carne negra do sofrimento perpétuo.
Luís Giovane (1998-2019)
EM MEMÓRIA
DOS MILHARES DE JUDEUS VÍTIMAS
DA INTOLERÂNCIA E DO
FANATISMO RELIGIOSO
ASSASSINADOS NO MASSACRE
INICIADO A 19 DE ABRIL DE 1506
NESTE LARGO
5266-5766
Hitler não foi um homem tresloucado, de todo. Há sempre antecedentes. «O amor é compassiva indulgência / Culpa original dos nossos pais». Rui de Noronha fala-me ao ouvido. Mas, nesta noite, amar não é um prazer. É uma sentença. O homem que percorre o corredor da morte só pede que a poesia esvazie o pesado fardo da existência. Todos queremos morrer mais leves. Hoje fui a enterrar uma pluma. Mas infelizmente não pode ser essa a manchete do obituário, porque a dor pesa aos ombros do pai que leva o filho a dormir à cama do esquecimento. Não se pode transladar a lágrima no porão de um avião. Cabo Verde ficou sem sal. Foi-se tudo com Giovani.
Lisboa é uma cidade assombrada. As igrejas são a tumba do diabo. Acendo uma vela e vejo-lhe a cara. Durante o dia anda de vidros fumados e, quando contorna a rotunda da Praça da Figueira, orgulha-se por ter feito do suor e do sangue dos homens iguais a nós a fórmula perfeita para inventar linfas e monumentos de pedra. O girassol da esperança ainda não chegou aos negros de toda a parte, lamento-te, Craveirinha. Trago mais uma ginjinha e aproximo-me da voz prostrada no chão frio da noite.
Mando o caroço para a boca. E imagino o gozo dos carrascos. A profissão de matar… Imagino um martelo a esmagar as esculturas de pedra que assombram Lisboa. Não era má ideia acabar, de uma vez por todas, com as estátuas de sal nascidas das orgias de Sodoma e Gomorra. Na minha cabeça explode “Balada para as Minhas Filhas”, de José Mucavele, a música, meu eterno redentor, e sobre o chão em que Giovani tombou nasce uma flor, talvez o girassol da esperança. Pena ser ele o estrume.