Lília Momplé no lançamento de “Ninguém Matou Suhura”
Nota introdutória por Venâncio Calito
No dia 19 de Abril juntamo-nos à volta da escritora Lília Momplé, qual crianças à roda da avó, sedentas de ouvir a mais encantadora das histórias. Mas nesse fim de tarde e início de noite a história não seria contada, mas vivenciada por todos nós. Há dias assim, em que a história simplesmente acontece à nossa frente e nós saímos da posição de meros espectadores e nos transformamos em protagonistas. Personagens reais de um acontecimento verídico. E a nossa avó Lilia, mais do que ninguém, sabe o quão é importante capturar a realidade com a precisão de um cirurgião ou de um poeta. Ela sempre escreveu sobre o que viu, sentiu e viveu. O livro “Ninguém matou Suhura” marca a estreia de uma voz ímpar na história da literatura moçambicana. A sua escrita fala sobre a denúncia da exploração dos humanos pelos humanos, fala das circunstâncias-limite que a humilhação colonial condicionou milhares de homens e mulheres de África. Fala da resistência e luta de todo um povo. Publicado pela primeira vez nos anos 1980, passados 40 anos, o livro volta às bancas como um lembrete do tempo que jamais deverá ser esquecido. Um lembrete para as gerações de hoje e as de amanhã de que a liberdade e a justiça para todos constrói-se com educação, amor, saúde, transporte e empatia. Mas melhor do que eu, a escritora Lília Momplé soube contar o que realmente significou esta publicação inédita em Portugal pela Editora Língua Mátria, aos seus 91 anos de idade:
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Lília Momplé
Preciso respirar fundo mesmo.
Em primeiro lugar, só posso agradecer às pessoas que se preocuparam.
Claro que se preocuparam com este evento, sobre o meu livro, o meu primeiro livro.
Embora a minha idade já não me permita ser muito clara de ideias, já são 91 anos, mas, de qualquer maneira, devo agradecer a lembrança de fazerem a lembrança, desculpem a redundância, de se lembrar do meu pequeno livro, meu primeiro livro. Vou falar não de mim, eu sou muito antiga e a minha vida foi uma vida muito rica de sofrimento, de felicidade, de amor e de arrependimento de muita coisa. E de conhecer muitos lugares do mundo.
Eu andei por muitos lugares do mundo, e o meu preferido local é a Ilha de Moçambique, que eu descrevo neste meu primeiro livro, no conto, justamente, Ninguém Matou Suhura.
Vou falar do livro. Por quê escrevi este livro? Escrevi este livro porque à medida que fui crescendo, que fui vivendo, que fui olhando à minha volta, havia coisas que me chocaram muito, que doíam-me muito, que me faziam sofrer demasiado. Para a minha idade era difícil conservar essas lembranças terríveis todos os dias e guardá-las. Foi necessário mais tarde, já aos 50 anos, fazer a catarse. E este meu primeiro livro é realmente uma catarse. Foi necessário tirar aquela dor cá para fora. Por quê eu escrevi?
Entre muita coisa, escolhi escrever para tirar essa dor. Podia ter escolhido outra coisa qualquer, mas escolhi escrever. Em primeiro lugar porque ouvia lindas histórias macuas contadas pela minha avó Maysa, que era macua, e contava livros em que e que tinham sempre um fundo didático em que a inteligência, a malandrice e até uma certa malícia que sempre ganhavam em relação à força bruta. Ganhavam a força bruta. E eram contos didáticos mesmo. E que eu adorava ouvir à noite, como era o costume dela, aquelas histórias lindas de feiticeiros, de leões, de leopardos, de coelhos. O coelho ganhava sempre, era o mais frágil animal, era o namarocolô. Porque, na verdade, pela sua inteligência, pela sua malandrice, conseguia sempre escapar e ganhar aos animais ferozes e de grande força. Portanto, isso influenciou esta minha apetência pela escrita, na verdade. Mais tarde, já na escola, tinha uma professora chamada Branca da Piedade Teixeira. Que até hoje eu rezo pela sua alma. Sou católica e todas as noites eu rezo pela minha professora, Dona Branca da Piedade Teixeira. Parece que era da Beira, uma excelente pessoa. E que me induziu a escrever. Gostava das minhas redacções.
Mais tarde fui para o liceu, porque eu fui aos 10 anos para Lourenço Marques porque não havia em toda a província de Nampula uma única escola secundária. E essa professora ia à casa dos meus pais dizer, Lília tem que estudar. Ela é capaz de fazer alguma coisa, não pode ficar aqui à espera de marido. Os meus pais, com um grande sacrifício, o meu pai era operário e a minha mãe era doméstica, que tinha jeito para costura, tinha muito jeito, aliás, para fazer bolos de casamento, bolos de batizado e ganhava algum dinheiro.
Assim eu fui para a Lourenço Marques estudar aos 13 anos, os Professores do liceu, eu entrei para o liceu Salazar, onde os professores eram todos fugidos do Salazar. Por ironia, tive professores muito bons de português, de inglês, de várias disciplinas. E então, uma vez, eu tinha uns 13 ou 14 anos, o professor me mandou fazer uma redação que dizia assim, vamos fazer aqui mesmo na aula uma redação sobre o último dia de férias. E fizemos todas as redações. Quando chegou o dia de entregar as redacções, o professor foi entregando as redacções aos outros alunos e todas eram medíocres, abaixo do mau… E a minha redação nunca mais chegava, e eu dizia-me, se calhar tive abaixo de mau. Então… Quando chegou a minha vez, ele disse para mim: - Oh miúda, se eu não te visse fazer esta redação aqui na aula, dizia que não eras tu a fazê-la. Porque é uma redação acima da tua idade. Por isso, o que é que eu resolvi fazer?
Carregar naquela redação e levar a todas as turmas do primeiro ao sétimo ano para ler. Como um exemplo. Eu tive a minha hora de glória. Se calhar eu não fazia mal a escritora. Passaram-se os anos, fui para Lisboa, mais tarde casei e fui para o Brasil e estive na América, nos Estados Unidos e conheci meio mundo….
A Finlândia e muitos países africanos também e nunca mais me lembrei de escrever, para mim, tinha que ter certas condições objetivas e subjetivas que eu ainda não tinha encontrado. Até que, por fim, disse para mim que eu vou escrever.
Vou escrever porque tinha aquele cancro interior. Daqueles anos vividos naquela angústia, de ver todos os dias injustiças, por isso resolvi escrever o livro Ninguém Matou Suhura. Comecei justamente por este primeiro conto que leram e todos os contos são verídicos. Não inventei nada. Apenas agarrei nas coisas e pu-las de maneira a serem compreendidas. Escrevi o livro, já estava no Maputo, já tinha visto a independência, e trabalhava no Ministério da Cultura, e o meu ministro Luis Bernardo Hownana, que me incentivou a publicar o livro, porque eu não tinha muita confiança nas minhas qualidades de escritora. Ele disse - Lília, deves escrever. Ele até disse: - Essas histórias ilustram a História. É a nossa História.
Escrevi o livro, mas sempre assim, indecisa. Eu sempre me tive numa fraca conta, não sei porquê. A minha tendência é não pensar muito bem da minha pessoa. Então, o que faço é sempre, apesar de muitos sucessos que tive, isso não me deu muita força anímica. Mas fiz, concluí o livro.
E quando houve um concurso literário do centenário da cidade de Maputo. Havia uma parte que era literária, primeiro centenário da cidade de Maputo. Eu digo assim, primeiro centenário. Nessa altura, já não era Lourenço Marques, mas percorreu aqueles anos todos, desde que havia bairro de Caniço, eu tinha um conto que eu sempre gostei dele, chamado Caniço. Lourenço Marques, Maputo, hoje é tudo bonitinho, mas o Caniço também foi Lourenço Marcos. E lembro-me que a entrega dos trabalhos do concurso acabava ao meio-dia, o prazo, e eu cheguei mais ou menos às dez para o meio-dia, tal era a minha relutância. E a senhora que recebeu o conto, era uma mulher, disse assim, desejo-lhe muita boa sorte. E eu perguntei, porquê?
- É a única mulher a concorrer. Concorreram 60 e tal homens e a senhora é a única mulher.
Eu digo assim, pronto, agora é que eu não vou ganhar. E então… Ganhei realmente o prémio do Centenário de Maputo, que eu tenho muita honra, porque só daqui a mais ou menos outros 100 anos é que outra pessoa vai ganhar o livro igual. Eram por aí umas seis da manhã, estava ainda na cama e ouço:
- Quem ganhou o prémio foi a Lília Momplé. E o meu marido disse para mim, acorda, acorda, ouve lá o que estão a dizer. Porque eu nem acreditava bem nisso. E o facto de ter ganho este prémio deu-me coragem e acreditei no que o Luís Bernardo me incentivava. - Lília, deve publicar, deve publicar.
E foi assim. Que escrevi e me tornei escritora. Mas é por isso, a história deste livro, deste meu primeiro livro, que vi outros realmente que considero melhores que este, mas este foi o meu primeiro livro, tenho muito orgulho nele e agradeço aos nossos amigos portugueses e não só brasileiros por se terem lembrado de mim e terem posto este livro mais uma vez à consideração dos leitores.
Muito obrigada. Pronto, já está.
Lilia Momple, Maputo, 19 de abril de 2026
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