Evaristo Abreu – o homem e o teatro moçambicano
In memoriam ao mestre Evaristo Abreu;
khanimambo por me ensinar a escutar
para além do que se pode ouvir.
Sabe o quê…
Para se falar do teatro moçambicano, ou do teatro feito em Moçambique, tem de se destacar o legado artístico e académico de Evaristo Abreu, o eterno embondeiro do teatro moçambicano que “sonhava pássaros”.
Apesar de alguns “estudiosos da nova academia das artes de Moçambique”, teoricamente cautelosos ou mais cépticos, insistirem em negar a possibilidade de já existir uma matriz daquilo que poderíamos chamar de teatro moçambicano — como os ingleses podem afirmar, de boca cheia, que o teatro elisabetano é parte da sua identidade e têm na figura de Shakespeare o seu grande representante —, pergunto: e nós, na nossa historiografia das artes cénicas, que lugar ocupa Evaristo Abreu?
Nascido em 1969, quando chegou a independência, Evaristo Abreu era, à semelhança das crianças do seu tempo, um menino acabado de nascer num mundo também ele recém-parido. Evaristo era um continuador da revolução, parte da geração que Samora Machel apelidou de “flores que nunca murcham”.
Quando, na noite mais bonita da pátria amada, o presidente Samora Moisés Machel, com o seu dedo belicoso, rasgou em dois o manto de sangue e da exploração, tal como Moisés abriu caminho no Mar Negro e conduziu o seu povo à liberdade, expulsou o colonialismo português e proclamou a independência total e completa de Moçambique, Evaristo andava à roda dos adultos, sempre curioso, sempre muito atento aos detalhes.
Conhecendo-o como hoje o conheço (até onde um discípulo será capaz de conhecer o seu mestre?), aposto que, no dia 25 de Junho de 1975, Evaristo Abreu não apanhou sono. Ficou a brincar até tarde, à luz da lua cheia. Afinal, nesse tempo era tudo uma festa, uma longa e infinita festa moçambicana.
Nos anos seguintes veio toda uma avalanche de acontecimentos. Evaristo cresceu e transformou-se num dos primeiros actores, roteiristas, produtores de teatro, encenadores e director do primeiro festival de teatro profissional e internacional, o célebre Festival d’Agosto.
Em 1986, a convite da então professora de Educação Física, actriz e produtora teatral Manuela Soeiro, integrou o recém-criado Mutumbela Gogo. Seria nessa grande casa do teatro moçambicano que encontraria a sua escola.
Evaristo Abreu
Guiado por um entusiasmo próprio dos tempos de revolução, Evaristo Abreu, ao lado de jovens da sua geração — como Lucrécia Paco, Rogério Manjate, Adelino Branquinho, Graça Silva (in memoriam), Eliott Alex, Isabel Jorge e Jorge Vaz (alguns deles membros do grupo Mbeu, que servia de incubadora de actores, onde o grupo principal, o Mutumbela, ia buscar novos talentos) — consolidou o seu percurso. Foi nessa experiência, como encenador, dramaturgo e dramaturgista (termo usado para designar o conselheiro literário ou programador de um teatro ou festival) da companhia de teatro M’beu, que Evaristo Abreu se descobriu mestre da cena, um bicho de palco, obcecado em provocar debate e reflexão social, mas sem nunca descurar o primor estético. Aliás, o encenador e actor Evaristo Abreu sempre foi conhecido pelo seu bom gosto estético.
Apreciador e praticante de um teatro que não dispensa a beleza da actuação dos actores, o encanto dos cantores e contadores de histórias, cuja temática versa sobretudo sobre assuntos sociais — da política ao amor —, e quase sempre adaptando fábulas antigas, mitos tradicionais e rituais (era um grande coleccionador de máscaras do Mapiko), levou essa obsessão até às últimas consequências. Já a convalescer de cancro, Evaristo despediu-se do palco mundano com o espectáculo O embondeiro que sonhava pássaros, adaptado do conto homónimo de Mia Couto, um dos seus autores favoritos (começaram juntos no Mutumbela Gogo; Mia Couto era o conselheiro literário, o dramaturgo que fixava em texto as improvisações do grupo).
Ainda a partir da lavra de Mia Couto, vimos Evaristo chocar a sociedade moçambicana pseudo-conservadora ao levar à cena a peça Saíde, o lata de água, um drama sobre a homossexualidade entre duas mulheres. Na versão a que assisti no Teatro Avenida, em 2013, Matilde Conjo, então estudante de teatro na ECA, fazia um dos papéis. Antes da fama na música e da vida de celebridade ao lado do seu marido, o karateca New Chang, Matilde Conjo, sob a batuta de Evaristo Abreu, subiu nua ao palco do Teatro Avenida e beijou outra mulher.
Era um espectáculo lindo. As transições entre cenas eram marcadas por uma luz laranja, fria mas de um brilho subtil; no escuro, ou no lusco-fusco, ouvia-se um saxofone soprado por um homem, como um olho externo, como um espião da vida alheia — nós, a plateia.
Nessa altura, Moçambique era outro Moçambique. O mundo mudou tanto. Eu cresci e também me tornei encenador e dramaturgo, como o meu Evaristo Abreu. Durante a minha graduação na ECA, Evaristo Abreu foi meu professor de teatro africano, uma disciplina do terceiro ano do curso de licenciatura.
Foi aí que mergulhei, pela primeira vez, na cena teatral de África. Ensinou-nos sobre o festival de teatro da SADC, que, entre os anos noventa e o início dos anos dois mil, movimentou as companhias de teatro profissional e amador da região austral. Falou-me da dramaturgia mágica de Wole Soyinka. O meu mestre fez-me sonhar com um Nobel de Literatura. Fez-me sonhar grande e deu-me asas para voar.
Quando, em 2022, regressei a Maputo para desenvolver o meu trabalho de campo para a dissertação de mestrado, fui visitá-lo em sua casa. Fui a Chinonakila — minto, fui ao seu templo, o seu teatro a céu aberto, sempre pronto para receber toda a comunidade teatral do mundo. A casa de Evaristo Abreu era sempre um lugar de encontro, de convívio e de aprendizagem. As tertúlias teatrais, que aconteceram logo após a pandemia (apesar de eu não ter podido estar presente), permanecem na memória como uma felicidade sem tamanho.
E agora que Evaristo morreu, agora que o seu corpo regressou ao pó (vi-o queimar, vi-o convertido em cinzas, de onde todos viemos — ainda bem que sabemos todos, moçambicanos e moçambicanas, gentes de teatro de todo o mundo, todos nós que tivemos a sorte de interagir com o mestre —), há ainda tanto por dizer sobre a vida e a obra daquele que será, para sempre, o precursor de um dos grandes momentos culturais de Moçambique.
Sonho que se possa, quem sabe um dia, criar um prémio para encenadores ou investigadores de teatro africano cujo patrono seja o mestre Evaristo, nosso embondeiro que sonhava pássaros, o homem do teatro moçambicano.