“FOI NA LÓGICA DO MESTRE ANDRÉ” Um Outro Teatro – Histórias do Teatro Experimental em Portugal de André e. Teodósio
UM OUTRO TEATRO – Histórias do Teatro Experimental em Portugal é um livro muito generoso e corajoso, onde se fazem propostas analíticas concretas. E que se lê com grande prazer: por ele aparecem de forma estruturada e organizada – segundo aquilo a que o autor chama a “lógica do mestre andré” – sujeitos (no duplo sentido temas e protagonistas) muito diversos e variados, ajudando a abrir metodologicamente um campo muito negligenciado, que é o da historiografia sobre artes performativas em Portugal feita a partir dos próprios arquivos e fontes primárias (e não a partir dos textos dramáticos ou da crítica). Neste caso, em particular das edições e efémera variadas e diversas.
O convite ao André e. Teodósio que viria a resultarem UM OUTRO TEATRO – Histórias do Teatro Experimental em Portugal 1 foi feito no âmbito do ciclo Histórias do Experimental uma parceria entre o Teatro do Bairro Alto e o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que, entre 2020 e 2023 procurou dar a conhecer estudos singulares sobre episódios-chave do experimentalismo nas artes performativas acontecidos entre a década de 1960 e os dias de hoje. Estruturada de forma transnacional, a série abordou vários contextos, procurando interrogar contaminações dramatúrgicas e estéticas. A partir dos arquivos, viajou-se entre diferentes geografias e tempos, conhecendo e discutindo inovações formais como a primeira black box na Europa, a disseminação da ideia de criação coletiva, o foco na interdisciplinaridade ou no processo em vez de no produto, procurando entendê-las política e esteticamente nos seus contextos de origem e questionando a sua operacionalidade na atualidade.
O desafio que então se lançou a André (e a que respondeu com muito mais do que lhe propusemos) ia no sentido de - sem pressas - fomentar uma investigação que culminasse numa conferência que, partindo da sua leitura de uma série de materiais (livros, revistas, programas, zines, guiões…) por si colecionados ao longo de décadas, versasse, na média ou na longa duração, sobre o muito pouco estudado caso português. Desdobrando-se num tempo alargado, a sua proposta, declinada num podcast, numa conferência e noutro podcast2, acabou por, dada a riqueza analítica e poética que contém, se autonomizar, representando uma charneira entre o que constituiu a primeira série do ciclo — comparativa e transnacional — e a segunda — local —, a que se chamou Histórias do experimental (em Portugal): pessoas, experiências e lugares.
A conferência foi filmada e transmitida em streaming no dia 27 de março de 2021 a partir do teatro vazio, e cedo se constituiu como objeto de culto e de estudo, com visualizações frequentes até aos dias de hoje. Chamava-se “O Outro Teatro”: Teatro Experimental em Portugal, podendo ler-se na sua sinopse:
O Outro Teatro é um documentário de António Macedo, filmado entre outubro de 1976 e março de 1977. Rodado durante uma grave crise deste sector artístico, o documentário culmina com o registo de uma jornada na FIL, em 1977. Pelo meio da multidão presente no evento (dez mil pessoas demonstrando o seu apoio à luta dos trabalhadores do teatro independente) vê-se um balão a rodopiar. O teatro experimental em Portugal podia ser aquele balão, que paira entre tempos e pessoas, preso a uma mão desconhecida, interpretado segundo variantes referenciais, um balão tanto prestes a rebentar como a murchar.

Há perguntas em torno do teatro experimenteal que são inevitáveis:
que experimental tem sido esse ao longo dos tempos? Q uais as suas estratégias e práticas informais?
Como fazer uma historiografia ou retrospetiva histórica desocupando protocolos de verdade e dando visibilidade a supressões?
O experimental, libertado da sua utilização enquanto insulto, é um caminho para o entendimento do teatro enquanto ciência da intensificação. Assim, o teatro experimental revela-se num tempo ucrónico, aquele que se supõe nunca ter chegado a concretizar-se devido à sua constante mutação.
Não podia ser mais certeira e sensível a imagem que propõe. O balão que rodopia por entre as dez mil pessoas que demonstram o seu apoio à luta dos trabalhadores do teatro independente — prestes tanto a rebentar como a murchar — é também, e sempre, tão frágil como as histórias que dele contamos. E é por isso que não podemos deixar de as contar. O livro publicado reúne os textos da conferência e dos dois podcasts, e é acompanhado por um outro livro que reúne os textos do primeiro ciclo, publicado na mesma coleção, e que se intitula A Caixa Preta e Outros Mal-Entendidos. Os registos das várias conferências das duas séries do ciclo conferências encontram-se ainda online], sendo que nem sempre os textos correspondem ao que foi dito, embora exista uma complementaridade entre texto e gravação.
Gostaria, porém, de deixar duas notas em relação tanto a edição, como ao momento em que é feita:
- Uma coisa que muito me agrada neste livro é a atenção materialista às condições de possibilidade do experimental que se vai fazendo: aos seus pormenores concretos e materiais. Neste sentido, a proposta estética de sistematização que se faz a partir deles deriva, parece-me, de uma atenção ao próprio fazer, feita por quem também faz. Ou seja, de uma atenção à vida quotidiana de fazedor e às suas realidades materiais.
Na proposta de sistematização apresentada, gosto igualmente muito de nela ecoarem uma série de leituras integradas não explicitadas que tornam a obra coral (eaqui a minha principal ressalva, o facto de estas poderem vir explicitadas mais a fundo). E, por fim, de o facto de esta sistematização partir, ela própria, de uma compreensão do ciclo e da ideia de experimental em que me revejo (pp.16-17):
A ideia da conferência, e de todo o ciclo que lhe deu origem, permitindo-me o abuso de falar dele, não consiste em partir da palavra “experimental” enquanto forma única circunscrita num espaço e tempo, uma vez que essa palavra coexiste nos dias de hoje em múltiplos vetores paralelos. Não se pode falar necessária mente de um “experimental” sem nos apercebermos de muitos, se possível de todos, os eixos pelos quais opera. Ou seja, há muitos experimentais a operar em simultâneo que eclodiram em fases diferentes da cronologia experimental. Uns não são necessariamente sucedâneos de outros, ainda que alguns tenham surgido por reação, oposição e genealogia, enquanto outros tiveram circunstâncias que permitiram que surgissem per se. Para tornar a organização mais explícita, criei um esquema visual que antecederá cada uma das fases.

Tá :P
Ou, como se afirma numa das definições de experimental apresentadas (pp. 41-43):
As hesitações em relação ao nome revelam a existência de uma identidade múltipla, dependente dos focos de análise usados para a caracterizar: uns focam-se no texto, outros, no espaço, outros, no vitalismo, outros, no modo de receção social, e por aí fora.(…)
(…) Experimental surge como a designação mais operativa para descrever determi nados fenómenos em curso. Ao contrário de todas as outras categorias, “experimental” não se foca nem descreve o “teatro” como uma unidade estritamente periodológica, genológica, metodológica, física ou adjetiva. Tem uma realidade ubíqua com o ser e não ser. (…)
(…) Há no Experimental uma história de contaminações que vai além de histórias nacionais (ou especificidades nacionais), da tradição, da essência e da origem, e que, por isso, nos obriga a analisá-la fora de normas estabelecidas e naturalizadas que tendem a agir como ditaduras invisíveis cognitivas ou como um “nacionalismo metodológico”. É preciso observá-la a partir de vários ângulos epistemológicos, com ferramentas teóricas por vezes tidas como “fracas” ou lowbrow, interseccionando saberes, desarticulando-a de interesses exógenos interesseiros (ainda que interessantes) e colocando o sujeito-do-saber como parte integrante do objeto analisado.
O que desagua na tal atenção materialista à própria experiência de experimental que o livro vai propondo - sempre na sua relação com os múltiplos contextos situados de ocorrência. Ou seja, e como é referido, “a experiência de não ter forma única e de não ter finalidade preestabelecida”
A propósito do contexto de produção deste trabalho, e das duas séries do ciclo, gostaria por fim de citar um texto de Paula Caspão contido no livro “A caixa preta e outros mal-entendidos” (pág. 25):
O ciclo de Histórias do Experimental que este livro documenta atravessou a pandemia de Covid-19 que se expandiu a partir de fevereiro de 2020, com pessoas bloqueadas em todo o lado experienciando várias formas de opressão, numa desigualdade de condições que a pandemia apenas ajudou a revelar e a exacerbar. Num clima já marcado pela divisão, a situação trouxe conflitos que desencobriram de maneira brutal as várias formas de injustiça racial e de violência estatal profundamente inscritas nos dispositivos institucionais, nomeadamente a polícia.
As Histórias do Experimental que este livro nos permite continuar a frequentar reanimaram forças de imaginação que andavam muito abatidas na vida deste corpo pós-pandémico e arredores. Não estou só a pensar nas forças de imaginação inspiradas pelas formas de experimentalismo estético-artístico e sociocultural que sempre constituíram (para mim) o melhor dos refúgios; a este livro agradeço particularmente as forças de imaginação coletiva produzidas pelas formas de experimentalismo propriamente arquivístico e historiográfico que reúne, e que me parecem indispensáveis para recobrar formas experimentais de imaginação existencial e sociopolítica.
O que não é de somenos.
(excertos da apresentação que teve lugar no TBA no dia 17 de Maio de 2025)
- 1. Esta edição não seria possível sem a Andreia Cunha, que nunca dela desistiu, e sem o trabalho minucioso e paciente de Catarina Homem Marques cuja revisão e edição atenta foi central para o resultado final, a quem agradeço.
- 2. Tanto o podcast Planetário como Futuro Anterior foram feitos com José Maria Vieira Mendes.