40 anos do Mutumbela Gogo
Homenagem a Manuela Soeiro, mãe do teatro moçambicano
Quem somos nós?
Os meninos de ninguém
Os meninos de ninguém
Excerto da canção de abertura de Os Meninos de Ninguém, peça do Mutumbela Gogo, Maputo, 1993.
A mãe do teatro moçambicano foi homenageada pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, que atribuiu ao mini-teatro, sala-laboratório da licenciatura em Teatro, o nome de Maria Manuela Lobão Soeiro, ou simplesmente Manuela Soeiro, uma das principais precursoras da vanguarda artística de um Moçambique acabado de conquistar a sua independência. Com a criação do Mutumbela Gogo, em 1986, Manuela Soeiro — e toda aquela geração de jovens sonhadores, cheios de vontade, que se engajaram na nobre tarefa de inventar um país de cultura e educação para o seu povo — ajudou a construir uma cultura, uma identidade. Um feito merecidamente reconhecido pela primeira escola superior de teatro do país: é a História a fazer-se nas histórias diárias.
Manuela Soeiro
Passam 40 anos desde o dia em que um grupo de jovens artistas, encabeçado por uma professora de educação física, decidiu criar a primeira companhia de teatro profissional em Moçambique. Esse gesto, ousado para as condições da época, inaugurou, sem sombra de dúvida, um caminho de abertura e de entrada do nosso teatro no panorama mundial. Afinal, foi o Mutumbela Gogo um dos grandes representantes da moçambicanidade nos palcos do mundo inteiro. Um teatro que nascia da necessidade de comunicar as idiossincrasias do povo, um teatro manifesto, de intervenção social e de uma estética sui generis, talvez por isso capaz de encantar por onde passava e de arrastar consigo uma legião de admiradores e pessoas de bem, dispostas a apoiar e a fazer crescer a sua actividade teatral, em moldes profissionais e num contexto em que ganhar dinheiro com arte era uma utopia muito distante. Manuela Soeiro ajudou a desbravar a densa mata do amadorismo.
O aclamado escritor de romances policiais Henning Georg Mankell (1948–2015) foi uma dessas pessoas que não resistiram ao encantamento do teatro dos Mutumbela. Era um teatro que nascia da improvisação, a vida em perspectiva no palco, os pequenos e grandes conflitos diários do povo moçambicano como principal inspiração e ponto de partida para uma dramaturgia apoiada na pesquisa e na exploração estética dos elementos da cultura moçambicana, diversa e muitas vezes dissonante, pela multiplicidade de povos, hábitos, línguas e tradições que atravessam a geografia sociocultural do nosso país.
Foi esse intelectual sueco, homem de cultura e conhecedor do teatro, que trouxe um contributo determinante para a consolidação da estética do Mutumbela Gogo, influenciando e estabelecendo uma marca daquilo que passou a chamar-se teatro moçambicano. Esse contributo foi o encontro com a tradição do teatro universal, dos textos da Antiguidade grega aos clássicos de Shakespeare e Ibsen, que transformou profundamente o fazer teatral da companhia. Mankell tem também o mérito de ter desenvolvido, com os Mutumbela, um método de escrita para a cena que partia das improvisações dos actores, quase sempre em torno de um mote dramático, por vezes retirado de um texto preexistente, como aconteceu com a recriação de Lisístrata, do dramaturgo grego Aristófanes, que na versão da companhia recebeu o título de Amor Vem. Do texto original interessavam sobretudo o enredo e o conflito principal: a greve de sexo das mulheres como forma de pressão para acabar com a guerra.
Em Amor Vem, a guerra é a guerra civil que devastou Moçambique durante 16 longos anos. O espectáculo é o convite sedutor da paz, são as mulheres moçambicanas cansadas de perder os seus maridos e filhos numa guerra sem sentido, como são todas as guerras sangrentas, numa guerra de irmão contra irmão; é a voz do perdão pedindo o cessar das armas e anunciando a reconciliação nacional. Foi essa a proposta do Mutumbela Gogo para o país no pós-guerra, através do projecto Moçambiquero-te, que levou a peça em digressão por campos de refugiados, aldeias, vilas e localidades de Moçambique. O Mutumbela mostrava, nesse momento, que o teatro não se esgotava nos rótulos de elitista ou de culto que lhe atribuíam: mostrava a capacidade de ser múltiplo e diverso na sua abordagem artística e social, um teatro engajado pela causa de Moçambique.
Ao longo de uma colaboração artística que durou quase trinta anos, o Mutumbela recriou a dramaturgia universal nas suas produções, traduzindo a tradição teatral na língua simples e plástica do povo. Mas criou também espectáculos originais, a partir de uma escrita que combinava uma espécie de reportagem documental, as vivências dos actores e um sentido de direcção artística que espantava grandes companhias pelo mundo fora. É o caso de Os Meninos de Ninguém, de 1993, peça criada a partir de uma pesquisa sobre a problemática das crianças de rua, que crescia na cidade de Maputo ao ritmo de uma epidemia, tendo a guerra civil, terminada apenas um ano antes, como uma das suas principais causas.
Milhares de pessoas tinham sido deslocadas das suas zonas de origem, obrigadas a refugiar-se nos países vizinhos ou a procurar abrigo na cidade grande. Muitas crianças, sobretudo rapazes, fugiam de casa, da fome e do trabalho infantil, acabando por povoar as ruas da cidade. Uma legião de crianças, muitas delas órfãs, perdidas nas ruas de Maputo, personagens de uma tragédia real, a imagem mais triste do pós-guerra. E há ainda uma participação especial a assinalar: a escrita desta peça original, assim como a de boa parte dos textos levados à cena pela companhia nos seus primeiros anos de existência, contou com Mia Couto, então jovem escritor e amante do teatro. Mais um encontro que faz parte da história do Mutumbela Gogo e engrandece os seus feitos.
O encontro entre o Mutumbela Gogo e Henning Mankell sinaliza um novo rumo para o fazer teatral no contexto moçambicano. O Teatro Avenida, a casa do Mutumbela ao longo de todos esses anos, era tido, nos tempos áureos da companhia, como a catedral do teatro moçambicano, o lugar sagrado onde o povo se encontrava todas as noites da semana para se ver mais de perto, para rir e chorar das suas intrigas e conflitos, fossem eles existenciais ou banais. Hoje, é mais um edifício a cair de podre e em vias de abandono, em plena cidade de Maputo, sob o olhar indiferente daqueles que têm o poder de intervir e de o recuperar.
Era no Teatro Avenida que acontecia o Festival D’Agosto, encabeçado pelo falecido encenador Evaristo Abreu, um festival que reunia em Maputo o mundo do teatro, principalmente o de expressão portuguesa. Era a casa de todos, o lugar onde se aprendia a ser mais humano e mais irmão do desconhecido.
Manuela Soeiro e o Mutumbela Gogo podem ser considerados a primeira escola de teatro em Moçambique. Ao longo do país, promoveram inúmeras iniciativas de formação em interpretação, encenação, técnica e produção, em parceria com uma infinidade de homens e mulheres das artes oriundos de diferentes lugares do mundo. Foi nesse fluxo criativo, de ensino e aprendizagem colectiva, que se formaram, sem exagero, gerações inteiras de actores, actrizes, encenadoras, encenadores, produtores e cenógrafos. Foi essa a escola fundamental que nos permitiu sonhar com uma escola superior de artes; hoje temos a ECA, com um curso de Teatro que conta quase 20 anos de existência. Desde então aquilo que chamamos de teatro moçambicano é na verdade essa forma única de mesclar, na dramaturgia do espetáculo, o texto, seja ele uma peça de teatro ou adaptado da literatura, sobretudo contos e poemas e improvisação. Trata-se de um teatro vivo, onde a palavra não é estática e inalterável, mais maleável e pronta a dar espaço à língua simples do povo. Um teatro que aproxima o erudito à compreensão de todos. E não espanta que essa forma de fazer teatro tenha tido influência do pensamento de esquerda, afinal estávamos em plena revolução aquando da criação do Mutumbela Gogo e o seu diretor artístico, o filantropo Henning Mankell era um homem que lutava pela causa dos oprimidos.
Aprender a honrar os mestres é talvez a maior lição que podemos tirar desse gesto da Universidade Eduardo Mondlane, que exalta e perpetua os feitos da mãe do teatro moçambicano. Talvez esteja na hora de pensar na atribuição de um doutoramento honoris causa a esta grande senhora da nossa cultura, a mestre de todos nós.