“Nome”, um sublime retrato filmográfico do descaminho da Guiné-Bissau

1968 é o ano do início dos acontecimentos do filme, numa aldeia algures no interior da Guiné, onde habitantes resistem à dureza da guerra, mas nem por isso deixam de participar na luta pela sua libertação do colonialismo português. Façamos uma rápida contextualização deste ano da luta armada na Guiné: o PAIGC já tinha libertado praticamente toda a província Sul do país e alargado a luta armada a todo o território nacional, incluindo acções em Bissau. Mas foi também um ano de maiores desafios, pois chegaria a capital colonial um grande estratega militar com reconhecidos dotes de propaganda política, António de Spínola, e que colocaria ao movimento de libertação um enorme desafio a todos os níveis.

A acção começa com a cerimónia fúnebre de um ancião guardião de bombolom, principal meio de comunicação da aldeia, utilizada também para informar das incidência da guerra nas matas da Guiné. No acto, Raci, filho do falecido ancião, é chamado a herdar a tarefa comunitária do pai. Duas crianças, suas colegas, aproximam-se dele e lhe transmitem a sua força, afinal, era só uma criança prestes a herdar tamanha responsabilidade: “Força! Vais conseguir!”. E conseguirá arcar com o peso da herança, de facto.

Num belo dia, a aldeia recebe uma hóspede. O nome dela é Nambú e foi enviada pelo pai para viver com a tia. É recebida de braços abertos e não tardou a inspirar paixão logo nos primeiros olhares cruzados com Nome – primo para ela e filho para a sua tia, que não perdia oportunidade de lembrar-lhe que ´homens de verdade estavam todos a guerrear os tugas no mato´. A paixão à primeira vista culminaria num verdadeiro amor-ódio. Nambú ficou grávida do Nome. O rapaz ficou paralisado com o sucedido e não conseguiu escamotear a preocupação à amada: acabaram de entrar numa grande mufuneza, pois não haveria de escapar da reprovação de toda a aldeia. A rapariga lembra-lhe que o peso seria maior sobre ela, porque para as mulheres nunca houve descontos nestes casos, mas nem por isso deixava de estar feliz pelo feto a crescer-lhe no ventre. 

Ao primeiro cantar do galo do dia seguinte àquela conversa, o Nome encontrou o motivo que lhe faltava para se juntar à linha da frente da luta de libertação. Ia lutar pela sua emancipação e a de todos os que só almejavam amar livremente, até porque as razões de adesão à guerrilha eram tão diversas quanto as experiências pessoais de cada guerrilheiro. No mato, encontra os novos camaradas, porque ali não havia “senhores” e o objectivo da luta era também para nunca mais existirem senhores na “Guiné-Livre”, avisam-no os colegas da trincheira. A unidade que integrara é constituída por três guerrilheiros com o mesmo nome, mas em diferentes línguas da Guiné, pois Nome é o mesmo que Tué em balanta, Tó em mandinga e Tokora em fula. E a origem cultural desta designação é a mesma: “Nome” é como duas pessoas homónimas se chamam entre si. 

Estamos perante um sublime simbolismo em torno do qual todo o filme é feito: entre os combatentes o nome é “camarada”, nada de “senhor”; e os guerrilheiros podiam ser fula, mandinga, balanta ou pepel, mas todos juntos estavam numa luta pela única Guiné que para eles existe, e haveriam-de libertá-la, reafirmam o compromisso. Ou seja, o nome entre eles tem um sentido comum, mais do que o nome próprio a gravar no bilhete da identidade que a sua luta ia fundar. Sana Na N´Hada consegue aqui, seguramente, a melhor representação artística da ideia da unidade nacional cunhada por Amílcar Cabral, o que é de notar com letras gordas num tempo em que o divisionismo é instalado entre os guineenses por expressões políticas criminosas para a coexistência das várias identidades que constituem o país.     

Quando só faltava às forças da guerrilha revolucionária libertar Bissau da ocupação colonial, e com a independência proclamada em Madina de Boé, a Rádio Libertação anuncia que o Movimento das Forças Armadas (MFA) derruba o salazarismo em Portugal e assume as rédeas do poder. Apesar do alento que a revolução de 25 de Abril de 1974 transmitia, o comandante da unidade guerrilheira transmite a ordem da direcção do Partido aos seus camaradas: os acontecimentos em Portugal é da responsabilidade das forças armadas portuguesas; aos do PAIGC cabiam manter a vigilância e reforçar ainda mais a luta pela consolidação da independência anunciada há sete meses. O que este episódio do filme nos ensina é que não foi a Revolução dos Cravos a libertar a Guiné-Bissau do colonialismo, mas a luta heroica do seu povo, assim como a acção do MFA se inscreve numa longa luta anti-fascista travada em Portugal, ainda que seja inquestionável a influência que a luta na Guiné e noutras frentes africanas tiveram no levantamento militar em Portugal. 

O Estado da República da Guiné-Bissau, nascido em Boé, chega finalmente a Bissau. As circunstâncias da independência obrigam os combatentes – agora dignatários das instituições estatais – a se instalaram nos mesmos edifícios em que funcionava a administração colonial. Os vícios do poder não tardaram a contaminar os homónimos guerrilheiros outrora indefectíveis praticadores dos princípios do partido, interpretados aqui como a justiça, a fraternidade e a unidade. Nome tornou-se Comissário na nova ordem instalada no poder, equivalente ao que hoje é ministro; Tokora assume o controlo sobre as alfândegas; e Tué preferiu as gordurosas taxas aplicadas às bideras (vendedeiras, feirantes) nos mercados espalhados pelo país. A corrupção substitui a justiça nas novas práticas do Partido; a luta acirrada e mortífera pelo controlo do erário público toma o lugar da fraternidade aprendida nos sacrifícios da guerrilha; e a unidade passou a contar só entre os alinhados no descaminho que a terra prometida da Guiné-Bissau tomava. 

Tó é o único dos homónimos a recusar-se a participar no saque aos cofres do povo e, por isso, muda de nome para não ser confundido com os seus ex-camaradas. Passa a chamar-se Tótála, que em mandinga é mesmo que não ter nome. É uma afirmação de recusa de ser camarada de quem rouba ao povo a esperança de viver com dignidade na terra pela qual concedeu sacrifícios inestimáveis. Mas a recusa custará caro ao Tótála, porque, além de ser afastado da nova ordem revestida de outras formas de opressão, acaba morto e o seu corpo jogado no fundo do mar, sem o mínimo direito ao funeral que preze o seu estatuto de Combatente da Liberdade da Pátria, como ainda se diz no “partido” herdeiro do seu Partido. Porém, este estatuto só na palavra persiste e de honra apenas resta a memória de quem deu a sua vida para sermos um povo livre do colonialismo. 

“Nome” é um filme que vai ao mais fundo baú da memória colectiva guineense resgatar os feitos gloriosos de uma luta que ensinou ao mundo a lutar mesmo quando as forças parecem inexistentes para isso; a força da união e o sentido da fraternidade que permitem às pessoas manter a sua humanidade e amar mesmo em tempos de guerra e perante morte anunciada. É também um acto de coragem de um cineasta que viveu e participou na luta com as armas que o Partido lhe confiara – e que tão bem tem honrado – ao retratar a tragédia de um país iniciada por aqueles que souberam guiar o povo para a sua libertação do colonialismo. 

 

imagens stills do filmes, da produtora Risifilm.

Ler entrevista ao realizador Sana Na ‘Hada.

por Sumaila Jaló
Afroscreen | 9 Outubro 2026 | Guiné Bissau, Independência, nome, Sana Na 'Hada