A ilha de Vénus

Durante os meses em que vivi em Veneza onde realizei o projeto “Self Portrait as a White Man” (2010), sobre a emigração e a diáspora africana na Europa, fui também confrontado com o desafio de ser um artista contemporâneo num contexto onde a excessiva conservação do património histórico-cultural, converteu a cidade numa espécie museu em céu aberto. Vindo de um país que vive em constante metamorfose, onde o acesso e a preservação da história é débil e muitas vezes conflituoso foi, para mim, importante interagir com este intocável e imponente património ocidental para refletir sobre crises atuais como a emigração. Ao longo da minha pesquisa, tomei conhecimento de que a mão-de-obra de homens escravizados vindos de África foi fundamental para a construção de ostensivos palácios em cidades como Veneza. A importância da presença dos mouros negros, tanto na literatura como na arte clássica europeia, é quase invisível, ou seja, omitida. Por certo, esta flagrante omissão ajuda a perpetuar muitos dos preconceitos existentes em relação à emigração.

A instalação no Hangar é uma continuidade deste projeto iniciado em Veneza. O projeto “A Ilha de Vénus”, além de ser um questionamento sobre a legitimação de uma história que exclui o “outro”, é também uma reflexão sobre uma das maiores tragédias da humanidade no presente, que começa na busca de um sonho que só será realizado cruzando o Mediterrâneo. A realização deste sonho muitas vezes termina num pesadelo. O destino sonhado, tal como quem almeja obcecadamente pelo amor e a beleza, tornou-se uma ilusão estampada num cartão postal, uma ilusão que alimenta a coragem e esperança de comunidades inteiras para iniciar uma viagem ao incógnito. As incontáveis e sucessivas tragédias no Mediterrâneo tornaram-nos indiferentes à situação, anularam a nossa indignação. Somos meros espectadores da chacina. 

Enquanto as cidades europeias se convertem gradualmente em museus e parques temáticos, o mar Mediterrâneo transformou-se num cemitério. Em cada embarcação de emigrantes naufragada, em cada ponto negro nas imagens desta instalação, nasce uma ilha. Uma ilha oriunda de um continente ao sul que não abraça os seus filhos, um continente mergulhado em eternos conflitos de toda a ordem e na delapidação voraz do bem comum. Uma ilha que se afunda às portas de um outro continente, que vive envolto numa espécie de preservativo, encerrando-se entre muralhas e patrulhas marítimas, e na eterna glória de uma história minada por omissões. Estes arquipélagos compostos por cadáveres flutuantes, fazem parte de uma nova geografia, da política e do desafeto. Corpos condenados ao anonimato e ludibriados pelo sonho de uma vida melhor.

 

18 DE MAIO DE 2018 – 30 JUNHO DE 2018 | Quarta a Sábado | 15h – 19h

Hangar, Rua Damasceno Monteiro, 12  www.hangar.com.pt

por Kiluanji Kia Henda
Mukanda | 9 Junho 2018 | angola, arte contemporânea, kiluanji kia henda, Mediterrâneo, migrações, plástico, travessia