Mário Lúcio Sousa recebe Prémio Carlos de Oliveira

ilustração de Tiago Lança ilustração de Tiago Lança ilustração de Tiago Lança ilustração de Tiago Lança O escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa vai receber no próximo sábado, dia 10, às 21h45, na Biblioteca Municipal de Cantanhede, o Prémio Carlos de Oliveira, atribuído ao livro O Novíssimo Testamento, que acaba de ser editado pelas Publicações Dom Quixote Esta é a segunda edição do Prémio Carlos de Oliveira, instituído pela Câmara Municipal de Cantanhede, que pretende estimular a criação literária e, simultaneamente, homenagear quem, de algum modo, se distinga no campo da literatura lusófona. A concurso, recorde-se, estiveram 67 obras, mas o júri não hesitou e, no momento da decisão, optou por atribuir o galardão a O Novíssimo Testamento, justificando a escolha do seguinte modo: “Mário Lúcio Sousa retoma, com este livro, as escrituras sagradas, reinventando-as através do recurso a um contrafactual herdado da teologia medieval, colocando a hipótese de Jesus ter sido mulher e explorando as vastas implicações e consequências dessa hipótese.”

ver aqui excerto do Novíssimo Testamento

07.10.2010 | por martalanca | Mário Lúcio Sousa

O NOVÍSSIMO TESTAMENTO, de Mário Lúcio Sousa

«[…] segundo o que o povo contava, o menino abotoava roupas com assobios, desde a mais tenrinha idade que atacava bibes, calções, batas e pijamas com assobios, e ali mesmo, diante de toda a gente, estando a brincar de roda frente a Jesus, também o tinha feito, mas ninguém tinha dado por ele, e ficou Jesus incomodada com a descrição, Jesus não concebia que por um tal infantil motivo fosse uma criatura inocente encomendada à morte precoce e enclausurada pelo resto da vida, e eis que as Marias, dando credo aos contos populares, continuaram a apresentar o anónimo dizendo que, por azar, o menino tinha nascido com uma incorrigível virtude de bom e viciado assobiador, e assim como abotoava as suas roupas, também desabotoava as dos outros, por pura distracção, todas as crianças adoram chichorrobiar à toa e era isso que tinha ditado a sua sina, a criança não podia ir à missa, nem à escola, nem às procissões, nem assomar-se à janela sequer, e muito menos maravilhar-se como toda e qualquer criatura, o garoto não podia emitir sequer um desses silvos que todo o ser humano acrescenta para realçar o espanto, porque punha todo o mundo a nu, até o rei, mas menino faz exactamente aquilo que se lhe interdita e, por isso, o pequenote teve de ser considerado besta e condenado às masmorras domésticas porquanto nem todos os parentes e vizinhos aceitaram substituir nas suas e nas vestes das suas filhas botões por fechos e colchetes e também não estavam dispostos a ver-se nus na praça pública […]»

17.09.2010 | por martalanca | Mário Lúcio Sousa