crónica maio
Há muito tempo, fui magoada. Era para
me vingar do meu pai
que eu vivia, não
por aquilo que ele era -
por aquilo que eu era: desde o começo dos tempos,
na infância, eu achava
que a dor significava
que eu não era amada.
Mas significava que eu amava.
Louise Gluck
Olhar os primatas
Havia um café na esquina da minha imaginação, onde os amantes se encontravam à tarde, pediam uma aguardente de mel, e o tempo parava. Ali, o espelho das paisagens fulgurantes refletia o sol que sempre nos habita quando assim estamos. Uma vez crianças, para sempre assim, deixadas ao acaso do risco absurdo de confiar no espanto. Nesse café, e nesse acaso, adivinhávamos o caminho que o outro teria de atravessar um dia, quando em baixo de uma árvore, parava para respirar à sombra dos seus afazeres, e pousava a armadura no chão. Adivinhávamos o seu cansaço. E assim, suspirando pela concretude das mãos que se encontram à noite na cama, dávamos mais um trago na aguardente, sabendo que no fundo os amantes não se conhecem, apenas se sonham.
Tanta coisa acontece e atravessa o meu pensamento hoje em dia que é difícil continuar a escrever. Mas gosto de o fazer, como se abrisse e fechasse um fole entre o centro nevrálgico do mundo e o meu, respirando o ar dos tempos, com benevolência, para não queimar as mãos na fogueira das vaidades.
Ler sobre os primatas, nos últimos tempos, para o meu mestrado, deu-me a oportunidade de olhar para o ser humano com uma lente mais ampla sobre o propósito e os paradoxos da nossa espécie na Terra. A ideia da nossa singularidade, sobretudo, obedece a um equívoco que vale a pena esmiuçar: não são apenas os estudos que demonstram o uso de ferramentas ou a capacidade emocional dos primatas, como os orangotangos que usam as folhas das árvores como guardanapos ou guarda-chuvas, os chimpanzés que limpam os cadáveres e evitam o local da morte, ou as mães que carregam os filhotes mortos durante meses, numa extrema dificuldade em “deixar ir”- é a implicação que achamos que isso tem, quando atribuímos à nossa complexidade um valor de maior importância. Aliás, esta arrogância está na raiz do pensamento ocidental, e acho que podemos encontrá-la tanto na filosofia grega, como na visão judaico-cristã, ou no antropocentrismo científico. Por exemplo, na época em que ainda não se falava em “evolução” ou “ancestrais comuns”, os macacos eram descritos como simia (do latim), que vem da palavra similis (semelhante). Esta ideia do espelho irá atravessar toda a relação do homem com os outros primatas: durante séculos, acreditou-se que eles nos “imitavam”, como versões imperfeitas ou caricaturais de nós mesmos. E na primeira edição de Systema Naturae, que funda a taxonomia moderna em 1735, Lineus chamou este grupo de Anthropomorpha, que significa “com forma humana”. No entanto, é imediatamente alvo de críticas por parte dos clérigos e de outros estudiosos da época, por sugerir que a diferença entre nós e os macacos seria meramente de grau e não de natureza. É por causa desta polémica que, mais tarde, ele muda o nome do grupo para “Primates”, um termo mais “diplomático”, que não enfatiza tanto a semelhança física direta, e mantém os humanos no topo.
Sem dúvida que o nosso cérebro conheceu um desenvolvimento notável, que nos permite combinar um número finito de palavras para criar um número infinito de significados, incluindo conceitos abstratos, tempos verbais e mundos hipotéticos. Mas se a questão de qualquer espécie é a da capacidade de adaptação ao meio, mediante os recursos que existem, vemos que o Homo sapiens teve uma adaptação brilhante no curto prazo, graças a esta complexidade cognitiva, mas que a sua ascensão a um domínio global sobre o planeta vem pôr em causa a sua sobrevivência. Sendo assim, talvez a verdadeira medida do sucesso evolutivo, não seja a complexidade cognitiva? Se não, vejamos: dos primeiros passos dos dinossauros, dados na região da atual Polónia há cerca de 250 milhões de anos, às pegadas preservadas nas paredes verticais de Cal Orcko, na Bolívia, já no final do Cretáceo, passaram-se cerca de 180 milhões de anos. Durante todo esse tempo, os dinossauros adaptaram o seu corpo ao meio, demonstrando uma evolução biológica lenta e contínua… Já os humanos, ao contrário, adaptaram o meio às suas necessidades. No entanto, ao “vencermos” a natureza, criámos uma dependência total de sistemas artificiais complexos e frágeis. Se a tecnologia falhar, a maioria da população não saberá sobreviver com os recursos naturais disponíveis. Isto deveria ser prova suficiente de que a inteligência, por si só, não basta para sobreviver, e de que precisamos de cultivar uma outra relação com as coisas.
Quando eu estava a filmar o ano passado na Mata Atlântica, o que mais me emocionava era tão só a presença física dos muriquis nos galhos das árvores, que oscilavam entre se deixarem estar durante horas sentados, relaxados, e a inquietação em que entravam, relinchando e pulando acrobaticamente entre a copa das árvores. Senti-me tão bem só por estar ali, perto deles. É um primata que usa o abraço como mecanismo de coesão social, sobretudo entre machos, para reafirmar laços de pertença. Talvez tenha sido isso que me emocionou: estar perante uma forma de convivência antiga, tão desarmada. E é tão bom mergulhar nessa infinidade de imaginações a que a Mata convida… com as suas lianas entrelaçadas nos troncos como cobras subindo aos céus, as suas cascatas de água pulsantes no oco das cavernas, formando rios subterrâneos, nos tons do verde entrecortados pela luz cambiante do dia e o zumbido das cigarras. Perder-se na floresta é encontrar o caminho da imaginação. Enxergar a humanidade dos bichos. Como diz às tantas uma jovem cientista no meu filme: “quando eu estou numa trilha, e dou comida pra eles… para mim é mágico, sabe? um muriqui comendo uma florzinha… tem dedo de Deus nisso… para mim Deus e a natureza são um só.” Talvez os adultos precisem resgatar o fascínio que os dinossauros exercem sobre as crianças. Especialistas apontam que este fascínio é muito comum entre os dois e os seis anos de idade, quando as crianças podem explorar o medo e o perigo à vontade, tomam os dinossauros como ‘monstros seguros’, sabendo que eles nunca poderão aparecer na sua cama à noite, porque já não existem.
Não será o nosso maior desafio aceitar que somos apenas um macaco que fotografou o lado oculto da Lua e sente uma solidão inexplicável no espaço? Que continua a mijar com o celular na mão. É uma viagem que faço todos os dias dentro de mim, ao ler mais sobre estas coisas, em plena pré-menopausa. Porque, enquanto pensamos e imaginamos outros mundos, o corpo continua a transformar-se. Uma adaptação evolutiva que perturba o humor e deixa a irritabilidade à flor da pele, existindo apenas em duas espécies de mamíferos: os humanos e as baleias; o facto de os outros primatas não conhecerem a menopausa torna este fenómeno ainda mais intrigante. Das explicações mais prováveis é a de que a menopausa potencia a função da “avó”, pois a mulher ficaria com mais energia para dedicar aos infantes, ao deixar de competir com a filha. Já as orcas, por exemplo, param de ter filhos por volta dos 40 anos para guiarem os netos e os seus filhos adultos aos melhores locais de caça, uma vez que acumulam esse conhecimento ao longo de décadas. A menopausa valoriza a sabedoria e o cuidado das gerações mais velhas, promovendo a cooperação de grupo em detrimento da linhagem direta. Sentada na salinha da biblioteca do consulado francês no centro, enquanto olho os barquinhos da Baía de Guanabara, fico a pensar que talvez a medida do nosso sucesso evolutivo seja a sabedoria ancestral das nossas avós.
biblioteca
Tem muito azul em torno dela
Estou de volta ao Brasil, à cidade com o “céu mais azul do mundo”, segundo um estudo de colorimetria realizado por investigadores com o apoio do National Physical Laboratory, em Inglaterra. Recorrendo a um espectrómetro, efetuaram medições padronizadas - à mesma hora e com a mesma posição solar - em vinte locais distintos dos seis continentes, concluindo que nenhum outro céu apresenta um azul tão puro e singular como o do Rio de Janeiro. Também se assim não fosse, os cariocas dariam logo um jeito disso ser uma verdade cósmica sustentada por memes e pelo seu humor debochado, entre grinaldas lançadas ao mar, evocando Yemanjá ao som da voz da Gal cantando
Corre e vá dizer
Pro meu benzinho
O amor é azulzinho
Como é bom estar de novo na terra da felicidade… depois do inverno triste de Lisboa. Com aniversário no primeiro dia de março e signo de Peixes, o Rio é a cidade da expansão e da empatia, apesar do tumulto que encerra. E estar agora na praça da Cinelândia, no centro histórico, dá-me uma visão um pouco diferente do ambiente praiano e comercial da zona sul. O aeroporto doméstico é muito perto, colado à Baía de Guanabara, que há dois anos viu as suas águas serem reabilitadas para inaugurar a Prainha da Glória, onde a gente mergulha com o Pão de Açúcar de um lado, e a silhueta dos aviões a levantar voo, do outro.
O Rio é este esplendor, pleno de contradição: se nos deslumbramos com os morros verdejantes numa esquina, na outra encontramos o avesso da paisagem. O azul convive com o sangue e a caca dos bueiros onde farejam os cães de Éxu.
Desde que cheguei, logo nas primeiras semanas, houve cenas de uma violência brutal que me prenderam a atenção: uma mãe e um filho foram atropelados por um condutor de ónibus na Tijuca, quando se dirigiam para a escola do menino, de moto elétrica. O condutor disse em depoimento que um carro tinha bloqueado a sua visão ao tentar ultrapassar a moto, mas o que se vê nas câmaras de vigilância, é que não havia carro nenhum. Ele simplesmente mudou de faixa e foi para cima deles, causando a morte imediata da mãe, e horas mais tarde também a do menino de nove anos. Dias depois, no início de abril, numa rua estreita da zona leste de São Paulo, uma mulher é baleada por uma agente da polícia militar, quando caminhava de mãos dadas com o companheiro. Um carro da polícia aproximou-se e esbarrou com o retrovisor no braço do homem, o que motivou uma discussão absurda. A mulher morreu sob o olhar angustiado do companheiro, que foi impedido de se aproximar. São casos que estão em julgamento, e que provocam revolta pela banalização institucional da violência, mas nem por isso fazem parar o país, habituadíssimo a conviver com esta comoção. Fico a pensar como o valor da vida muda e é mediado, disputado de formas distintas no quotidiano, entre a Europa e o Brasil. Entretanto, o governador do estado, Cláudio Castro, renuncia ao cargo numa estratégia para tentar escapar à cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral e viabilizar uma candidatura ao Senado. Nos últimos 30 anos, todos os governadores eleitos do estado do Rio de Janeiro foram alvo de operações policiais, cassados ou presos. Uma realidade que inspirou o quadro semanal de humor do Porta dos Fundos, no qual o ex-governador Mário Louzada se encontra em prisão domiciliar e faz comentários sobre cinema, que publica no YouTube. Confortavelmente instalado junto à piscina, com a sua tornezeleira eletrónica por baixo do roupão de seda e com um drink na mão, ele faz a crítica a Parasita ou aos filmes de super-heróis, e analisa com desenvoltura a sociedade, trazendo todo o imaginário da corrupção política fluminense. A graça do personagem está em sabermos que a autoridade moral foi substituída pela autoridade narrativa: não importa quem tem razão, mas sim quem conta melhor a história. Como sempre, os cariocas parecem compreender que a realidade é demasiado absurda para não ser tratada como ficção.
Vista do telhado do meu prédio
O Direito à Preguiça
Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos
Paul Lafargue
Apesar deste desconforto, a cidade emerge da lama com uma nova luz, que pulsa no coração de quem acorda todos os dias para trabalhar nos escritórios do centro. Neste momento, a redução da jornada laboral tornou-se uma das discussões centrais do país. O Congresso Nacional analisa uma proposta que pretende fixar o limite em quarenta horas semanais e garantir dois dias de descanso remunerado. Uma conquista há muito consolidada na União Europeia, onde a média ronda as trinta e seis horas semanais. Como seria bom se todos tivessem mais tempo para ler, viajar, mergulhar no mar, beijar na boca, descansar numa rede, comer, beber e dançar!… Seria maravilhoso. Mas enquanto a lei não muda, o carioca continua a exercer plenamente essa sua vocação para o prazer, quando começa a cantar do nada na rua, no táxi, na praia, ou no supermercado. Um traço tão bem captado no filme de Eduardo Coutinho As Canções, quando convocou cidadãos anónimos na região do Largo da Carioca para cantarem as músicas que marcaram as suas dores, alegrias e desilusões. Enquanto pedalo de bicicleta a caminho da biblioteca, cruzo-me com um homem que entoa Roberto Carlos a plenos pulmões “não me negue um sorriso”, e lembro-me do filme.
Entretanto, saio do Rio para visitar a reserva ambiental onde fiz o meu trabalho de campo para filmar os muriquis. Mas o cativeiro está fechado, porque estão à espera de soltar o grupo na floresta, para o mês que vem. Em vez dos muriquis, encontro um bando de saguis na estrada, espécie de macaco que não é nativa da Mata Atlântica, mas se expandiu no Sudeste a partir da década de 1960. E também encontro essa árvore muito alta e de que gosto muito de Minas Gerais, que é o Jequitibá. Enquanto caminho, filmo e entrevisto alguns moradores, penso no destino deste grupo de macacos, de que os biólogos cuidaram durante os últimos anos, restruturando os seus vínculos para que pudessem regressar à Mata. E não deixo de sentir que, mesmo quando temos tempo na vida, continuamos a carregar o que nos pesa. A floresta confronta-nos com a solidão. Enquanto contorno as folhas secas da embaúba no chão, e busco uma sombra para pousar o tripé, uma borboleta azul gigante ronda a minha cabeça.
Viver também é engolir os mesmos mantras, e aceitar que não há nada de novo no front. Recolher os cacos do coração partido. Às vezes cortamo-nos sem querer no dedo, outras vezes juntamos vários deles com ervas num recipiente, e ensaiamos uma espécie de magia de desamarração. Afinal, o amor é um milagre raro que poucos sustentam e pagam para ver. Como manter a ternura? No mundo de hoje. Como não amargar? Todos os dias me faço essa pergunta. E tento respondê-la com honestidade. Nem sempre consigo. Então recorro ao Chat GPT, que me traduz frases como “A bagagem que transportamos não é pouca: são quilos de carne e uma vodka noir que passou do ponto, além de bandeirinhas de países pouco conhecidos” por “bandeirinhas de países onde já fomos outra pessoa”. Ou então decide valer-se do seu omnipresente travessão, e substitui “Afinal de contas, a autossabotagem é uma constante da vida adulta” por “A autossabotagem aparece sempre – às vezes com o nosso próprio rosto.” Creepy. O problema da AI é que ela é igual ao GPS: à força de tanto usar, passamos a confiar totalmente nela, e deixamos de saber onde estamos. E ela, julgando ler nas entrelinhas, ainda sugere: “Gostarias de ver formas de quebrar esse padrão de escrita da IA para tornar os textos mais humanos e menos previsíveis?”. Não. Gostaria de pousar a cabeça num travesseiro e ter um lugar onde me sentir em casa, depois de tantas aventuras. Gostaria de ter o meu imaginário habitado, em vez de ser descartada como um objeto de turismo emocional. Porque sabes que esta sensação de ser tratada como uma exceção, e não uma escolha, gera um tipo de dor que deixa uma marca indelével e particular na identidade? Mas duvido que a AI dê conta desta ferida.
Não digas que as distâncias
são estranhas, minha filha.
(…)
A neve cai,
pousa no teu pequeno ombro
e derrete
no meu coração.
Estes versos do poeta iraniano Shams Langroudi, encantam-me, entre um golo e outro da cerveja gelada que bebo no “Amarelinho”, enquanto o grupo à minha frente pede mais uma porção de pastel de camarão com catupiry. Transportam-me às cenas dos filmes de Abbas Kiarostami, como O sabor da Cereja que vi no cinema King em Lisboa com o meu pai, em 1998. Filmes tão inspiradores pela sua simplicidade, subir um caminho e levar flores à pendura de uma mota, enquanto o vento nas oliveiras sussurra segredos às crianças que chegam da escola. Essa poesia do quotidiano das crianças descalças dos filmes de Majid Majidi. Em maio, enquanto escala o conflito no Médio Oriente, o ativista brasileiro Tiágo Avila é preso pelas autoridades de Israel, quando vai na flotilha, em missão de paz e apoio ao povo da Palestina. Da prisão, ele escreve uma carta à filha de dois anos:
“Espero que um dia você entenda que, por eu te amar tanto, não havia nada mais perigoso para você e para outras crianças do que viver em um mundo que aceita o genocídio.”
Como dar o exemplo, numa época em que existe esta normalização institucional da violência? Não tenho respostas para nada, hoje em dia. Só os detalhes me encantam. Continuo a acender a vela de 7 dias para o meu Anjo da Guarda me proteger do mal. Aliás, nove meses em Portugal quase me fizeram esquecer da macumba… e já tinha saudades das medalhinhas das ciganas, do cheiro dos charutos, dos chapéus de palha e de cantar os pontos dos Éxus ao som dos tambores. Desse encantamento nas ruas, das entidades que nos tocam e inspiram no dia a dia. Quase me distraíam o constrangimento dos silêncios pesados, e a malícia presa nas narinas entupidas, dessa Europa tomada de culpa e paralisada pelo medo.
Como resgatar a poesia urbana deste mundo opaco, onde as pessoas nos frustram? Se eu não acreditasse no Céu, sei lá em que morte do meu passado eu estaria. As gaivotas voando no céu do fado de Amália, embalando a minha fantasia. Oiço canções para lá da campainha do VLT, anunciando o sono da tartaruga. Sou filha de Xangô e Iansã, e por isso sei que um dia em algum momento, raios e trovões irão varrer os telhados do Império para restabelecer a paz. Perante esta tristeza inclemente, chuvas irão trazer descanso às flores, e devolver a esperança aos trabalhadores da cidade.
Saguis na estrada