Veio o tempo em que por todo os lados as luzes desta época foram acendidas

NOTA: Este texto resulta de um exercício de escuta das memórias do futuro, um trabalho sobre as tendências da política contemporânea, sobre a continuidade e os modos de atualização do genocídio negro ao longo da história moderna-colonial, mas também sobre a dimensão espiritual de nossa fugitividade e sobre a força de nossas fragilidades integradas. Resulta, também, de um exercício especulativo comprometido com um futurismo urgente, que se debruça sobre o futuro imediato, excitando dispositivos premonitórios que sirvam à proliferação de narrativas que nos permitam simultaneamente estudar o terror e conceber formas coletivas de atravessá-lo. Finalmente, dedico este texto às minhas irmãs pós-apocalípticas, com quem planejo atravessar o impossível desta época, especialmente Michelle Mattiuzzi e Paulet Lindacelva que, na noite do dia 24 de Novembro de 2018, realizaram uma leitura pública desse texto no marco do Boteco da Diversidade, no SESC Pompeia em São Paulo.

20 DE NOVEMBRO DE 2021

VEIO O TEMPO EM QUE POR TODOS OS LADOS AS LUZES DESTA ÉPOCA FORAM ACENDIDAS. Tudo está posto, assim como sempre esteve, mas veio enfim o tempo em que por todos os lados já não há como negar que a marcha do terror avança, e que o apocalipse programado tomou, de fato, o terreno inteiro da vida comum. Os caveirões das polícias multiplicados, os grupos de homens cishétero armados, as sinhás brancas a renovar a brancura totalitária do mundo como conhecemos, e, assim por todos os lados, veio o tempo em que a primavera tóxica da distopia brasilis fez brotar, no verde assassinado da desesperança, a sua flor mais odiosa.

01 DE JANEIRO DE 2019

COMEÇAMOS A CORRER QUANDO SOOU A PRIMEIRA BOMBA. O ar rarefeito daquele ano perturbava nosso fôlego, e não haviam muitas rotas por onde fugir. Tudo estava sitiado e para onde quer que virássemos encontrávamos um muro, um portão trancado, uma cerca elétrica ou uma matilha de cães de guarda. A segunda bomba cortou o ar antes do que esperávamos. Perdi o fôlego e quando olhei para o lado consegui ver, através da cortina de poeira e fumaça, que muitas de nós começavam a tombar. Tive medo de ficar sozinha, mas alguém segurou minha mão. Pensei em respirar fundo, mas não o fiz. As bombas emanavam gases que eu não podia simplesmente respirar. Apertei firme aquela mão que ainda não sabia identificar a quem pertencia, e me senti aliviada por não estar só. Corremos de mãos dadas sem conseguir enxergar direito o caminho à nossa frente. Tropeçávamos nos escombros, caíamos, e seguíamos em frente, com todos os sentidos em febre, atordoadas pela dor de tudo.

Chegou uma altura em que achei que tivesse desmaiando. Não sentia meu corpo, nem era capaz de articular minha própria posição. O mundo à minha volta parecia ter desligado e eu via tudo lento. Um silêncio profundo percorreu tudo à minha volta. Outra vez, senti a firmeza daquela mão apertando a minha. Não estava sozinha e nós estávamos aqui. Ainda. Aqui. E vivas. Corremos e corremos, mudando de direção sempre que as rotas se fechavam, e elas se fechavam a todo tempo. Era impossível fugir, mas justamente por isso nós insistíamos na fuga. 

Então uma rajada de vento cortou a fumaça à nossa frente e por um segundo vimos a alguns metros de onde estávamos um feixe intenso de luz negra se projetar desde uma fenda na terra.

Com o coração acelerado, fui puxada pela mão em direção a ela, e tive medo, muito medo, mas me deixei levar. Não era como se tivéssemos muitas opções. Na verdade, bastava pensar por um segundo sobre a situação em que nos encontrávamos para chegar a conclusão de que não havia opção alguma. Estávamos condenadas a correr indefinidamente, a fugir sem pausa, a nos esconder de todas as patrulhas, a recusar todos os abrigos e a desfazer todos os pactos com o mundo. Quando a primeira bomba soou naquele dia, soubemos imediatamente que já havíamos morrido, que o pacto que sustentava, ainda que precariamente, cada uma de nossas vidas se havia quebrado para sempre.

21 DE NOVEMBRO DE 2021

PERDEMOS TUDO DE NOVO. É a terceira vez que isso acontece desde que veio o tempo. Os dias são longos, quase infinitos. Caminhamos indefinidamente pelos túneis, expulsas de todos os lugares, sempre à sombra, sempre juntas. Aqui em baixo, a vibração do mundo pode ser perturbadora. Há aquelas entre nós que ainda sonham voltar à superfície, sonham em retomar o mundo e devolver a ele a integridade que ele parecia ter antes. Há também, entre nós, aquelas que zombam das saudosistas, e insistem que o mundo, afinal, nunca foi íntegro e que, de algum modo, nós estivemos sempre aqui.
Nós estivemos sempre aqui, de fato. Os túneis em que agora vivemos foram feitos pelas primeiras de nós que percorreram este território – pessoas escravizadas, fugindo das chibatadas daqueles que pretendiam ser seus senhores. Com o passar dos anos, os caminhos foram se abrindo e multiplicando, como um labirinto subterrâneo, uma infraestrutura ancestral cravada na terra sob os pés brancos daqueles que, pela força de suas armas, se impuseram como senhores do mundo.
É escuro aqui. Nós muitas vezes perdemos vista umas das outras, por isso nossos sentidos se aguçam. Aprendemos a conversar pelo tato, pelo cheiro, pelo som da respiração, pela vibração que atravessa nossas peles e reverbera em cada uma e em todas. Também assim lemos os túneis. Cada aspecto dessa geografia insólita fala connosco. A humidade, os cheiros, o som das criaturas que também estão aqui, e essa luz negra, quase roxa, que de quando em quando emerge de um lugar profundo da terra e inunda tudo, iluminando sem tornar visível. Sempre que perdemos tudo ela vem e se encarna em nossos corpos, bem como na estrutura mesma de todos os túneis.

“Perder tudo” é a expressão que usamos quando alguma de nós morre. Paramos de dizer “morrer” porque, afinal, estamos todas mortas desde a primeira bomba, e mesmo desde muito antes, do primeiro navio negreiro, quando nossas vidas foram todas marcadas como parte de uma só massa indiferenciada de morte-em-vida. Como mortas-vivas, algumas de nós gostam de identificar-se como Zumbis. Somos Zumbis porque, a rigor, não estamos nem vivas e nem mortas, mas também porque descendemos do guerreiro Zumbi de Palmares. Nas horas mais felizes, quando nossos corações se aquietam um pouco e podemos sentir pequenas fagulhas de vida incendiarem tudo dentro de nós, gostamos de imaginar que Palmares é aqui e que, no avesso de todo apocalipse, há uma vida negra que se manifesta e vibra e brilha como aquela luz, que emerge do profundo a cada vez que a gente perde tudo.

17 DE JULHO DE 1911

QUERIA PODER CALAR A PROFECIA MALDITA DE JOÃO BATISTA DE LACERDA, difusor do programa de extermínio das vidas negras no Brasil. Ele disse, na Conferência Universal das Raças em Londres: a mestiçagem e a miséria constituirão, até 2012, o sujeito ideal da distopia brasilis: um branco encardido forjado a partir do genocídio negro e indígena, capaz de reproduzir, nos trópicos, as ideias de vida, mundo, sociedade, corpo e civilidade do branco europeu.

22 DE NOVEMBRO DE 2021

ESTAMOS CANSADAS. Já não sabemos como contar o tempo pois, aqui em baixo, nada jamais amanhece. Estou escrevendo esse diário desesperado, enquanto pressiono com a ponta dos dedos a minha têmpora esquerda, procurando algum sinal ou evento telepático que me permita transmitir qualquer coisa sobre nós. Não estou pedindo socorro. A maioria de nós recusa a ideia de ser salva, pois sabemos que o mundo – ou pelo menos, o mundo como a gente o conhece – não reserva nenhuma esperança para nós. O que busco, quando tento afinar minha mente a qualquer outra mente lá de cima, é um modo de perturbar a paz que nos soterra, invadir a consciência pacificada daqueles que vivem acima de nós e estremecê-la com a dor de que somos feitas.

Estamos cansadas e estamos também furiosas. Há momentos em que desejamos tão firmemente a abolição de todas as coisas feitas através de nossa morte social que sentimos a terra estremecer à nossa volta. Então damos as mãos, e recusamos também o medo, para desejar juntas que a terra vibre o apocalipse deles desta vez.

Sem título (futurismo urgente). frame. Jota Mombaça, 2018. Sem título (futurismo urgente). frame. Jota Mombaça, 2018.

01 DE JANEIRO DE 2012

ELES ESTÃO VINDO. Eles estão vindo. Acordei assustada nesta manhã pois senti a vibração da terra me alertar: eles estão vindo. Quis gritar, mas não encontrei minha voz. Saí assustada da casa em que vivo, repetindo comigo, para não esquecer: eles estão vindo. Esbarrei numa senhora que voltava da padaria, apertei firme seus ombros e repeti, uma e outra vez: eles estão vindo, eles estão vindo. Ela deu de ombros e seguiu.

Nos congressos da esquerda, nas salas das universidades, nas conversas de bar, nas ruas do meu bairro, enquanto ainda há tempo, eu insisto e repito: eles estão vindo. O tempo dos assassinos chegará novamente a seu cúmulo. As ruas serão tomadas pelas suas marchas, as casas serão invadidas pelas suas polícias, as canções serão cantadas para louvar sua ordem, a vida será cortada para caber em suas caixas, os corpos serão formatados nas suas gramáticas, as vozes serão moduladas a repetir os seus hinos, e assim, por todos os lados, eles virão.

Eles já estão vindo. Antes estavam latentes, lentos, não propriamente escondidos, mas certamente acanhados. E são tantas como eu que, há já tanto tempo, não cessaram de pressentir os seus passos, de ouvir seus cochichos. Eles tem um plano e o tempo está vindo. Eles tentarão cumprir a promessa de João Batista de Lacerda. O ano hoje é 2012. O ano prometido do apocalipse da vida negra no Brasil. E eles estão vindo.

23 DE NOVEMBRO DE 2021

A LUZ NEGRA ILUMINOU DE UMA SÓ VEZ O LABIRINTO DE TÚNEIS E NÓS, JUNTAS, FIZEMOS TUDO À NOSSA VOLTA VIBRAR. Estamos cansadas de sempre perder tudo. Será preciso também tomar algo, cortar o mundo. Desta vez, foi a guerreira mais velha. Ela já andava doente, resmungando contra a nossa condição, triste, profundamente triste, mas ainda assim altiva na própria fúria, à altura da própria raiva. Em homenagem a ela, desta vez, ao perder tudo, nós fizemos sobrar algo, como se a dor do que nos atravessa tivesse, finalmente, chegado a um ponto de transbordamento.

Demos as mãos, e à volta do corpo adormecido de nossa velha, fizemos vir um grande estremecimento. Algumas sentiram medo de que a terra colapsasse sobre nós, mas no fundo todas desejávamos uma ou outra forma de colapso. A terra estremecida vibrou para além dos túneis, e nós sentimos chegar a nós as ondas de medo daqueles que ao longo desses anos todos nos fizeram existir no medo. Era um ataque, nós os estávamos alcançando. Irradiamos nossa fúria dolorida, e sentimos que, quanto mais apertávamos a mão uma da outra, mais nos tornávamos íntimas da terra ao nosso redor.

Atordoadas pelo nosso próprio poder, nós também balançamos, estremecidas pelo estremecimento que estávamos gerando no mundo deles, assustadas com a materialidade do nosso poder, com a capacidade de afetar assim, tão diretamente, a estrutura do mundo deles, a saúde do mundo deles, a arquitetura e a gramática do mundo deles. Nós estávamos ali, atadas por uma força que provinha, precisamente, da reunião de nossas fragilidades. Nós estávamos fracas, partidas, e já tínhamos perdido tudo tantas, tantas vezes… E de alguma forma, desde aquele labirinto de túneis sob a terra, estávamos operando um terremoto contra o mundo deles. De fato, pareceu de repente que estávamos prestes a partir para sempre o mundo deles.

Até que veio uma exaustão e se abateu sobre nós e sobre a própria terra. Nossas mãos se desprenderam e começamos a cair, uma a uma. O labirinto de túneis permaneceu intacto. Por um momento, todas nós nos perguntamos, em silêncio, quanto a onde estávamos. Quão fundo, quão no cerne de tudo tínhamos ido parar?

29 DE OUTUBRO DE 2018

UM SILÊNCIO PROFUNDO AFUNDOU A MANHÃ. O último e mais evidente alarme havia finalmente soado. Eles haviam chegado. Nós avisamos que eles viriam. Eles haviam chegado.

24 DE NOVEMBRO DE 2021

DESEJAMOS PROFUNDAMENTE QUE O MUNDO COMO NOS FOI DADO ACABE. E esse é um desejo indestrutível. Fomos submetidas a todas as formas de violência, fecundadas no escuro impossível de todas as formas sociais, condenadas a nascer já mortas, e a viver contra toda formação, no cerne oposto de toda formação. Desejamos profundamente que o mundo como nos foi dado acabe. E que ele acabe discretamente, no nível das partículas, na intimidade catastrófica deste mundo destituído de mundo, este mundo que até a própria terra rejeita. Essas palavras circularam telepaticamente por todas as que estávamos ali, não tanto como um pensamento, mas como algo vibrando fora do corpo, na carne do túnel, da nossa velha, da gente: desejamos profundamente que o mundo como nos foi dado acabe. 

A luz negra, que havia encarnado em tudo com toda intensidade, foi aos poucos escorregando por entre os cantos do labirinto, banhando nosso corpo e se cravando outra vez no profundo. Estivemos ali por muito tempo, cozinhando junto com a terra. Pouco a pouco, à medida que nossos corpos foram recuperando o acesso às pernas, decidimos nos separar e mover pelo labirinto de túneis, a tentar captar as repercussões do nosso ataque, e estudar as implicações do que havíamos feito.

Enquanto caminhava, lembrei de uma frase que havia aprendido pouco antes da manhã de 01 de Janeiro de 2012, “que a vitória recompense os que tiverem feito a guerra sem amá-la”. Senti que a memória ricocheteou nas paredes do túnel, e vibrou junto em toda gente que me acompanhava. Nada vibrou em resposta. Continuamos em silêncio, estudando o labirinto. Tudo parecia estranhamente calmo. Estávamos vivas.

Nós viveríamos. 

por Jota Mombaça
Corpo | 26 Novembro 2018 | Brasil, contemporâneo, corpo, futuro, genocídio, negro, política, violência