Cumplicidade: constelação possível

 

UM: solicitação.

Tal como muitas de nós — muitas de nós que temos ocupado várias ordens de solidão — procuro cúmplices. E quando digo que procuro cúmplices, quero dizer que procuro corpos falantes e significantes que, empáticos antes de simpáticos e implicados antes de similares, procurem, de forma conjugada entre si, lançar-se ao conjunto material e comunitário do mundo, correr o risco mal-calculado de uma vulnerabilidade imprevisível, e exercer muita, muita pressão sobre o conceito da justa medida.

 

DOIS: custos, riscos, cálculos.

 
Passamos muito tempo a calcular custos, a contabilizar com cuidado adaptativo a extensão selectiva da nossa entrega, do colocar do nosso próprio corpo palpitante e pulsional em jogo perante as outras. E há que saber fazê-lo como forma de auto-cuidado; como forma de não gerar a tal ponto uma nudez radical perante o olhar e gesto alheio que esse venha a radicalmente destituir o corpo da sua condição de fazer sentido e fazer-se vivo.
Ora, demasiados corpos — falantes e significantes, palpitantes e pulsionais… — têm reduzidas condições para sequer decidir os termos de tal elasticidade na possibilidade afectiva, comportando já em si e através de si, enquanto estrutura de vida, um atravessamento tão radical de vulnerabilidades que as cautelas que possam posteriormente assumir e agenciar, mais ou menos programaticamente, não reconstituirão quaisquer garantias seguras contra a violência. Sendo a distribuição da violência no mundo material que ocupamos profundamente desigual, de acordo com trajectórias políticas estruturais e condicionantes (o capitalismo, o colonialismo, o cisheteropatriarcado — e outras ordens), servir-nos-ia de pouco retroceder agora para fetichizações simplistas da vulnerabilidade enquanto fonte ética ou poética, posto que esta tão frequentemente se traduz no estado alerta naturalizado — necessário! — de tantos, tantos, tantos corpos entre nós.
Mas o que me interessa ainda assim pensar (e tendo precisamente esta chamada de atenção em conta, até ao fim) é como as mais impermeáveis e impenetráveis de nós, as mais seguras e asseguradas de nós, enfim, as menos atravessadas pela violência de entre nós (e seguramente incorporo-me nessa rubrica, em múltiplos vectores), podem, precisam inclusive, de conceber a vulnerabilidade como uma sua condição de devir relacional e comunitário. A minha questão evidentemente não se prende com suspender, adiar ou extraviar privilégios; os privilégios são microcosmos de constituição elementar da subjectividade, e não propriedades discretas dos corpos subjectivos que estes possam expurgar dentro de qualquer tipo de programa voluntarista. Trata-se, isso sim, de pensar como, a partir do momento que reconhecemos que muitas das estruturas de violência fundamentais deste mundo são de ordem afectiva e epistémica, a vulnerabilidade — ou uma certa concepção e elaboração radical de vulnerabilidade — pode abrir vias de passagem, trechos especulativos e zonas de experimentação para éticas cúmplices e coalicionais, complicando condições relacionais e opções políticas.
Será, eventualmente, aí que este texto irá desembocar.

dança Butoh. 'precisam de conceber a vulnerabilidade como uma sua condição de devir relacional e comunitário.'dança Butoh. 'precisam de conceber a vulnerabilidade como uma sua condição de devir relacional e comunitário.'

 

TRÊS: falando daqui.

 
Uma nota minha, e veremos onde vai dar: de há uns anos para cá comecei a elaborar-me e a enunciar-me, de início tentativamente e, depois, de forma gradualmente mais e mais assertiva, enquanto louco. Quero dizer algumas coisas política e eticamente fundamentais para mim por via de tal identificação experimental e, na esmagadora maioria dos contextos de circulação da minha subjectividade, opaca (quando não propriamente escandalosa…).
A primeira, é que reconheço os dramas somato-psiquícos que me atravessam enquanto corpo subjectivo variavelmente diagnosticado (e subsequentemente tratado) enquanto “ansioso”, “depressivo” ou “bipolar” como sendo catalisados num eixo frágil e tenso (o meu corpo), por sua vez materializado entre história e química, macro-narrativa e grão de particularidade, clínica e agenciamento, ciência e desobediência, etc. Não quero para já parar para recapitular as bases de uma política louca mais ou menos bem finalizada, nem sei se conseguiria, mas certamente a historicização e colectivização dos processos de constituição da subjectividade (inclusive nas suas dimensões de de-subjectivação) implica uma re-apreciação radical, propriamente estrutural, das definições historicamente contingentes de saúde e sanidade, e a abertura a um processo de re-articulação radical do que tomamos como as condições cognitivas e afectivas “comuns”, “naturais” ou “essenciais” de um corpo falante e significante. Nesse sentido, se posso (porque quero) instrumentalizar os entorpecimentos e adensamentos brutalizantes da minha experiência na forma de algum tipo de articulação conceptual e ética partilhável, é antes de mais no sentido de desnaturalizar violentamente — precisamente em resposta à violência da naturalização — todo o chão conquistado por esta sociedade necrofilíaca na definição do que um corpo falante e significante pode, deve, e quer.
E é precisamente por ter atingido tantas vezes um limite interno, e o limite se tornar então propriamente constitutivo da minha interioridade, que na relação exterior que é a escrita, que é a ética, quero pôr em causa alguns — ou muitos? — limites.
Falo então, e falo enquanto louco, de como uma minha vulnerabilidade estruturante (porque programaticamente desestruturante, assumo-o) se torna condição de uma forma de pensamento crítico, afectivamente situado e investido, sobre o problema do limite em si, e mais propriamente, do limite da vulnerabilidade. Deixemos de parte poéticas eurocêntricas esgotadas do artista transgressor mentalmente instável, tal como devemos deixar de parte narrativas radicalmente despotencializadoras das condições de agenciamento de sujeitos afectiva e cognitivamente divergentes da norma médica e social. Nem reconstituamos heróis românticos, nem reproduzamos narrativas deterministas. Pelo contrário: abalemos finalmente a esquemática binarista, redutora e coerciva, do corpo louco enquanto sendo ora a expressa transgressão luminosa dos limites (pura afirmação, estrelas) ora a confirmação abjecta dos limites (pura negação, esgoto). Não me preocupa aqui nem uma subjectividade heróica, nem uma subjectividade de vítima — especialmente dados os mitos ideológicos nocivos quanto a agência que ambos estes extremos reproduzem. Porque, no final de contas, para além de achar este dualismo historicamente desonesto e epistemologicamente violento, considero que a questão que nos devemos colocar nesta matéria não é, sequer, a de uma subjectividade, tanto quanto de uma travessia, de um contacto, ou de um toque.
Assim, não estou particularmente preocupado em propor-vos a minha experiência enquanto modelo (seja pela positiva, seja pela negativa), quanto em pensar como a experiência material e semiótica da loucura como travessia ou contacto ou toque imprevisível, improgramável, através de zonas de possibilidade, afectividade, corporalidade e relacionalidade pode gerar para nós, em conjunto, sentidos inovadores do possível, do afecto, do corpo e da relação. Se lá fui ou vou indo ainda — aos limites interiores para os quais vos remeti anteriormente — volto de lá não para os tornar inteligíveis e digeríveis nos aparatos conceptuais e semióticos dos corpos constituídos enquanto sãos, mas simplesmente para enunciar, enquanto proposta radical, essa zona de indiscernibilidade, esse devir desagregado, essa corporalização incorpórea, enquanto anúncio de uma, ou várias, possibilidades. Parece plausível?
Ou, na verdade: não será pertinente e potente precisamente na medida em que não pareça plausível?

 

QUATRO: o louco objecto, o louco abstracto…

 
A esquizoanálise deleuzo-guattariana é bonita e potencializadora em diversos aspectos.
É, também, no final de contas, um projecto cujas bases empíricas para as considerações nele tecidas sobre a subjectividade e a corporalidade são, quase sem excepção, todas as subjectividades e corporalidades que não as dos dois autores que propriamente constroem o texto. Assim, não será surpreendente se percorrendo a superfície do texto ora nos deparemos com nós de possibilidade, eixos criativos altamente generativos, ora com uma tendência demarcada para a abstracção dos referentes dos seus conteúdos historica e somaticamente específicos. Surge então a mulher ou a criança ou o esquizofrénico ou o homossexual como espécie de esquema fantasmático, projectivo, pela silhueta da qual se operacionalizam uma série de argumentos especulativos irregularmente cumulativos, mas cujo resíduo de contingência e particularidade intransitória, cuja singularidade material, se dissolve nos movimentos do aparato conceptual. Acredito que interessa saber não sujeitar a loucura a essa violência: a da abstracção.
Certamente a loucura pode (acredito em certa medida que muitas vezes precisa) de ser elaborada pela via da abstracção, mas se for ela mesma abstraída, esvaziada de um referente materialmente concreto, por mais plural e variável e mutável que este seja, reproduz-se só mais uma das formas históricas de violência contra corpos desobedientes e dissidentes: o conhecimento dominante constitui enquanto figura morta, cristalizada entre as páginas do livro, a multiplicidade incomportável, não para indexar transitoriamente algo dessa multiplicidade, mas sim para dar o passo seguinte num processo de ideação que a instrumentaliza. Sinto, sucintamente, que há um largo resíduo de idealismo (diria até de formalismo; uma curiosa de-especificação dos conteúdos das figuras do discurso) que percorre demasiado o trabalho conjunto de Deleuze e Guattari para que confiemos assim tanto nele.
A questão é, pelo contrário, como considerar essas multiplicidades incomportáveis, propriamente reconhecidas enquanto constituindo a vida, a partir dos nossos corpos falantes e significantes na sua materialidade, na sua afectividade, na sua subjectividade, na sua historicidade e na sua relacionalidade. E a provocação subsequente não será propriamente a de um re-centramento do sujeito (louco ou não), mas a de duas operações algo mais delicadas. Uma será algo auto-evidente: urge insistir na representabilidade da loucura no mesmo gesto em que se anuncia a bancarrota de tal projecto figurativo, concebendo da encenação de uma enunciação louca enquanto crise fracturante que em si contem, enquanto seu fracasso, a finitude das suas próprias condições de enunciação. Outra operação, menos evidente mas igualmente importante, quer na passagem pela loucura quer na passagem entre a loucura e a não-loucura, é a aprendizagem de pensar a afectividade e a relacionalidade em termos de um “falar-com”, “estar-com”, “sentir-com”, “pensar-com” — e não de um “teorizar sobre” que volta a situar o objecto de reflexão na sua rígida ontologia subalterna.
Coloco-me então em situação de escrita em função não de um fechamento auto-representativo, ontologica e performaticamente seguro e auto-contido, mas sim em função de um movimento instável e desestabilizante, orientado para um certo horizonte especulativo: a hipótese de um vir a falar-com, estar-com, sentir-com, pensar-com a figura incalculável, cruamente arbitrária, da leitora por prever e idealizar. Aqui, recorto algo, um trecho experiencial ou uma problemática encorpada, como o faria com uma trança do meu cabelo, hoje ainda por lavar, ou com uma biópsia da cicatriz de queimadura que tenho no pescoço, em função de a pôr ao serviço de algum tipo de jogo dialógico vindouro, lançando um segmento bio-narrativo toscamente e estrategicamente recortado para um campo de encontros e desencontros, esperando pelo melhor e sabendo que corro o risco de todo o tipo de fracassos.
Penso que é precisamente na medida em que a praxis de auto-enunciação se constitua enquanto fundamentada num recorte, tal e qual um enquadramento fotográfico (parcial, deliberado, e simultaneamente demarcado pela contingência material do seu referente em alguma medida), que se geram condições comunicativas e expressivas potencializadoras. Enceno-me então, gradual e deliberadamente, como forma de teorizar e nesse mesmo momento instanciar uma certa prática possível do eu-em-circulação, do eu-com, ansioso não tanto pela re-asserção da primazia ontologica e epistemologicamente autoritária desse eu, mas sim pelas emergências inusitadas que podem derivar do lance dessa ficção ao campo textual.
É a ética louca que me é possível para já — veremos no que resulta.

dança Butoh. 'pensar a afectividade e a relacionalidade em termos de um 'falar-com', 'estar-com', 'sentir-com', 'pensar-com' — e não de um 'teorizar sobre' que volta a situar o objecto de reflexão na sua rígida ontologia subalterna.'dança Butoh. 'pensar a afectividade e a relacionalidade em termos de um 'falar-com', 'estar-com', 'sentir-com', 'pensar-com' — e não de um 'teorizar sobre' que volta a situar o objecto de reflexão na sua rígida ontologia subalterna.'

 

CINCO: (ir)representabilidades.

 
Devemos falar de um regramento implícito, por via de uma rede complexa e compacta de interditos inter-articulados, da legitimitade de tal lance arriscado do eu, seja ao campo textual, ao campo relacional, ao campo comunitário…
As sociabilidades ditas “contemporâneas” (ocidentalizadas, globalizadas) são marcadas por regimes políticos de sociabilidade (para não falar dos institucionais, económicos, etc.) que comportam sistemas densíssimos de micro-gestão da subjectividade: isso tem-se tornado um dado adquirido, uma premissa relativamente consensual, entre diversos projectos políticos que demarcam as suas pautas por oposição aos sistemas de opressão que regem o mundo enquanto o conhecemos. E certamente a multiplicação eloquente e fervorosa de pensamento crítico colectivo (não só académico…) sobre como estas estruturas se organizam e funcionam no sentido de demarcar condições de possibilidade subjectiva tem contribuído para a elaboração de formas de resistência, seja pela via do combate programático, seja pelo sustento de algo tão irredutível e precioso quanto hipóteses de sobrevivência psíquica, material e biológica.
O que eu sinto no entanto, com urgência intransitória, é ainda precisarmos de ser mais (e mais: infinitamente, sempre, e impossivelmente mais) assertivas, estridentes, bélicas, quebradas, explícitas e choronas nos nossos processos de assegurar uma insegura contra-poética do que signifique, afinal, ainda assim e contra as aparentes (e bem vincadas) condições de plausibilidade, materializarmos-nos subjectiva e relacionalmente perante um mundo que não nos deseja.
Não remeto com isto para uma contra-narrativização que re-situe nas lógicas e linguagens dos discursos dominantes uma imagem confortável e facilmente digerível da margem minoritária enquanto legitimada precisamente pela pertença àquilo que sabemos que a violenta, que só pára de a violentar na medida em que a re-recorte enquanto objecto o qual submeter a outras ordens de violências. Já sabemos da natureza incontestavelmente fársica de qualquer programa assimilacionista ou integracionista das verdades dissidentes e desobedientes.
Falo, isso sim, da composição da malha complexa e descontínua, constituída não tanto pela causalidade e contextualidade como pela sequencialidade não-programática do vínculo empático e do salto especulativo. Um vínculo empático, um salto especulativo, que articula, por exemplo, o momento de não-razão do sujeito louco, o momento de opacidade do sujeito negro, o momento de a-significação do sujeito queer, o momento de desarticulação do sujeito feminino e múltiplos, múltiplos (inumeráveis, inomináveis, indiscerníveis — irrepresentáveis) outros momentos de quebra subjectiva, numa espécie de constelação instável, atípica e ambulatória, de possibilidades subjectivas, afectivas, corpóreas e históricas, que são caracterizadas precisamente pela medida em que se constituem, irremediavelmente, em crise.
Falo, precisamente, dos limites do pensável, do representável e do possível enquanto laboratório alquímico de efabulação de pensamentos que não os da Filosofia, representações que não os da História e possibilidades que não as do Mundo.
Falo da invenção, a partir da experiência carnal (louca ou outra) das costuras instáveis do corpo e do mundo, de uma contra-poética.

 

SEIS: uma contra-poética, entre umas outras quantas.

 
Provocar uma contra-poética passa, diria provisoriamente, por pensar nuvens de aporias, redes de silêncios múltiplos e sempre delicadamente diferenciados, matilhas ferozes de raivas inarticuláveis, vazios tristonhos de enunciação cuja densidade insuportável torna o ar asfixiante: tanto do que acontece na sombra, entrelinha ou verso da realidade comumente aceite e que constitui, afinal, o campo epistémico e afectivo oposicional quotidianamente agenciado, obliquamente, pelos corpos falantes e significantes dissidentes e desobedientes em relação à norma.
Se as condições de possibilidade são em larga e violenta medida pertença do poder instituído, movemos-nos nelas enquanto maquinarias de produção de contradição, não para expandir o campo de possibilidades de maneira a que as suas fronteiras abranjam novos territórios, tanto quanto por nos querermos ocupar com a re-descrição do que seja sequer a territorialidade, num gesto já bem para lá da ontologia fálica da expansão.
Pensando a imaginação não só enquanto força agenciadora das artes enquanto meios expressivos codificados na cultura ocidental, mas sim enquanto estrutura vital do corpo subjectivo que lhe permite a maquínica produção de desejos e possibilidades, devemos reconhecer nela um problema: a natureza codificada, socializada e estruturada da imaginação enquanto campo minado por coacções e coerções de ordem social, política e simbólica. O trabalho da imaginação, que necessariamente se desdobrará do seu ponto de partida enquanto “trabalho imaginativo” para uma forma mais percorrida de contradições, que comporta simultaneamente trabalho sobre a imaginação em si, é então um implemento fundamental para a construção de novos imaginários éticos e materialidades políticas.
Porque falo de uma contra-poética num texto que é, ou que pelo menos se propôs ao começar ser, sobre vulnerabilidade e entrega, sobre lances e riscos, sobre custos e medidas? Porque acredito que a re-generação de campos imagéticos, desde objectos artísticos até cadências simbólicas íntimas, é passo necessário para a reformulação do campo político, enquanto força motriz da re-elaboração das nossas formas de subjectividade, corporalidade, materialidade, historicidade, relacionalidade, etc. ..
Assim, assumamos que é preciso um certo (um grande!) grau de invenção (quer num sentido tecnicista, quer num sentido hedonista…) para a projecção e materialização de outras possibilidades afectivas — e que este projecto de reinvenção de possibilidades (e este texto é afinal em tantos níveis só e apenas uma insistência teimosa e deliberada e nervosa no campo de possibilidades enquanto terreno de intervenção de várias lutas) depende de uma radicalização da nossa relação com a nossa própria imaginação. Incluindo a imaginação que agenciamos em relação a nós próprias.

 

SETE: não tanto concluindo como cruzando as pontas soltas.

 
Se o mundo — e com “mundo” quero aqui dizer “a estrutura onto-política dorida historicamente contingente e socialmente composta que nos inscreve, e em que nos inscrevemos, enquanto carnes” — é demarcado por múltiplos sistemas inter-actuantes de forças, tão compactos quanto complexos, que constituem uma complexa malha de medidas (escalas, comparações, quadros de valores, sentidos de adequação…), a medida que eu convidaria então a esticar, estragar ou re-constituir enquanto problema é a estruturação quantitativa e qualitativa da entrega, da vulnerabilidade enquanto posicionalidade relacional, de um certo “lance de si” no campo relacional. Porque sabendo que constituir novos mundos é sinónimo de constituir novas relações, quer macro-politicamente quer micro-politicamente, suspeito que tal terá de passar pela re-articulação crítica e criativa, improvisada e regenerativa, da medida concebível de risco de vulnerabilidade perante o seu outro a que um certo sujeito (a que um certo perfil do sujeito…) se propõe.
Insisto nisso não não no sentido de promover o que já o atravessa enquanto violência — muito pelo contrário -, mas sim no de traçar um programa de degradação da certeza ontológica dos eixos de privilégio tendentes ao absolutismo do seu auto-centramento… Assim, a provocação que sugiro é que por via de vários exercícios e experimentações ainda por articular na contra-poética, concebida não enquanto campos literários mas enquanto programa da imaginação política radical, nos desafiemos a chegar a novas posições especulativas-afectivas nas relações entre nós, no sentido de re-descrever condições de mútua implicação que agenciem imaginários colectivos, comovidos e comoventes, movedores de transições inusitadas para novos (pequenos e maiores) campos de possibilidade — ou, no mínimo dos mínimos, para uma mais bela e intransigente ocupação do campo de possibilidades já constituído como primeiro passo para um projecto maior.
Se, no meio disto, a experiência ética e somática da loucura tem para mim valor na elaboração de um lugar de reflexão e fala, é na medida em que a estrutura conceptual e experiencial de uma travessia, de um contacto, de uma experiência móvel e táctil dos limites — historicamente instituídos — da não-razão, surge-me enquanto condição material (histórica, química, circunstancial…) do meu corpo falante e significante, que nele permite, e insiste, numa certa via da imaginação. Uma experiência que me energiza e conduz no sentido de enquadrar a imaginação enquanto o instrumento político fundamental que sustenta e re-elabora a estrutura empática, agenciando-se enquanto meio de gestação e expressão de um salto especulativo na direcção a outros horizontes subjectivos e inter-subjectivos que em torno se transcreva na projecção de outros horizontes éticos e políticos.
E se tudo isto parece em grande medida implausível, jogando com as forças opacas e as manobras inesperadas do corpo inconsciente enquanto força afectiva declinada em comunidade, e se tudo isto parece até dependente de um resíduo de teima ética irrevogalmente insistente na chave do afectivo enquanto potência, que seja: o implausível, o opaco, o inesperado, a teimosia e os afectos são chão das condições de vida de muitas — e demasiadas — de nós, e em muito coincidem com o que em de nós há de mais potente, belo e vital.
Serão, talvez, chave das conjugações do possível que são as nossas cumplicidades.

por Daniel Lourenço
Corpo | 13 Outubro 2017 | auto-cuidado, coalicional, corpo, cumplicidade, loucura, violência