Morte de um teatro em Luanda, vítima dos promotores - Elinga

'Quantas madrugadas tem a noite?''Quantas madrugadas tem a noite?''Quem me dera ser onda?''Quem me dera ser onda?'I

Elinga Teatro, foto de Stefanie AlischElinga Teatro, foto de Stefanie Alisch

Importante centro da cultura angolana, o teatro Elinga vai desaparecer, como tantas casas antigas do centro da capital.

 

Em breve, o pano vai cair sobre o palco do teatro Elinga de Luanda. Definitivamente. Na verdade, este centro da cultura angolana, berço de artistas contestatários, vai desaparecer em breve, com as suas paredes cor de rosa reduzidas a entulho, esmagadas pelos bulldozers e conhecer, assim, o mesmo destino de tantas casas antigas do centro da capital angolana, entregue aos promotores imobiliários atraídos pelas fragrâncias do ouro negro do segundo produtor de petróleo da África subsariana. E, no entanto, o teatro tinha todas as condições para escapar a este destino funesto.

Para além da reputação internacional das suas criações no domínio da dança e do teatro, o edifício era classificado monumento histórico pelo ministério da cultura. Nada disso interessa! Esta antiga escola construída pelos colonos portugueses no séc. XIX foi pura e simplesmente desclassificada em Abril pelo Ministério da Cultura.

“De um momento para o outro, deixaria de haver razões históricas para manter a classificação. Foi a única explicação que souberam dar-me. Seria motivo para rir se não se tratasse da morte do teatro”, lamenta o seu diretor e autor de peças, José Mena Abrantes. A verdadeira razão é financeira. Todo o bairro vai ser destruído para se construir aí um parque de estacionamento e escritórios. Um investimento de algumas dezenas de milhões de dólares suportado por misteriosos financeiros ligados ao poder, que esperam naturalmente obter um retorno rápido do investimento, alugando os locais a algumas multinacionais do petróleo - americana, francesa ou brasileira - ou a bancos.

O cálculo não é disparatado. Luanda é a segunda cidade mais cara do mundo para os expatriados, depois de Tóquio, segundo a classificação de 2011 realizada pelo gabinete de consultoria Mercer. O preço dos escritórios bate recordes nesta cidade em que o aluguer mensal de uma casa para expatriados ronda os 20 000 dólares (15 500 euros). Desde o boom petrolífero de meados da década de 1990 que fez explodir o crescimento do país (15% em média nos anos 2000) Luanda foi tomada por uma febre construtora. Os estaleiros, em que trabalham sem parar operários chineses, desventram a cidade. As velhas pedras não lhes resistem.

Elinga Teatro, foto de Stefanie AlischElinga Teatro, foto de Stefanie Alisch

“Os angolanos, tão orgulhosos de viverem numa das capitais mais antigas da África negra, em breve deixarão de ter de que se vangloriar. Nada de antigo restará na cidade”, observa José Mena Abrantes. Quase por baixo das suas janelas, passa uma cornija de 200 milhões de dólares, inaugurada na véspera da sua reeleição, a 28 de agosto, pelo presidente José Eduardo dos Santos, no poder há trinta e três anos.

Uma cornija liberta das velhas casas que se dá ares californianos com os seus joggers e os seus amantes de musculação ao ar livre. E até patinadores, incongruentes no resto desta cidade com passeios desfeitos. Os arranha-céus, esses, crescem como cogumelos e deslocam para os subúrbios, a toque de bulldozers selvagens e de bastonadas da polícia, os musseques, essas favelas angolanas sem água nem eletricidade em que se amontoa a maior parte dos 6 a 7 milhões de habitantes de Luanda.”

“As autoridades pretendem fazer de Luanda o Dubai da África Austral”, lembra Claudia Gastrow, urbanista e universitária sul-africana a estudar a capital angolana. Mas não se vê a lógica urbanística nem a coordenação. O centro da cidade não é mais do que uma fachada. “Copiar o modelo Dubai? Até ao ponto de projetar construir, como no Golfo, ilhas artificiais ao largo de Luanda.

Uma ideia defendida por um tal José Recio, um antigo consertador de pneus que fez fortuna no imobiliário. Os planos foram bloqueados pelo presidente em consellho de ministros Mas para o teatro Elinga, os dados estão lançados. E, no entanto, José Mena Abrantes, de resto conselheiro do presidente para a comunicação, não estava mal posicionado para evitar o irreparável. Mas nada valeu. Nem as petições, nem as intervenções discretas. Elinga vai tornar-se um parque de estacionamento.

Elinga Teatro, foto de Stefanie AlischElinga Teatro, foto de Stefanie Alisch

José Mena Abrantes pertence ao primeiro círculo do poder mas não enriqueceu “, confirma Antonio Setas, jornalista de oposição que não pode ser considerado afável no que diz respeito a um membro do MPLA (antigo partido único, no poder). Até o cantor rap e figura de proa anti-regime Luaty Beirao não encontra nada a dizer contra o diretor do teatro. Nascido em 1945 em Angola, de pais de origem portuguesa, fez os seus estudos em Portugal de onde fugiu nos inícios da década de 1970 para escapar ao recrutamento que enviava os jovens portugueses combater na sua colónia contra os independentistas. Liga-se ao MPLA na Alemanha, sem poder juntar-se à guerrilha. ” “Não queremos Brancos !”, disseram-me eles. “ Uma luta surda sacudia, então, o MPLA onde uma parte do movimento queria ” africanizar ” a rebelião. Ele regressa a Luanda na altura da independência, em 1975. A guerra civil dilacera o país. Uma luta de morte entre o MPLA e a FNLA que fará 500 000 vítimas e 4 milhões de deslocados até 2002.” Havia a guerra e, eu, queria fazer teatro! “, recorda ele. Terá de esperar mais de dez anos durante os quais cria a agência de imprensa oficial Angop de onde acabará por se fazer despedir por ” não cooperação com a esfera ideológica Os aliados do regime angolano são, nessa altura, soviéticos e cubanos. ” Mas desde meados dos anos 1980, Eduardo dos Santos pensa numa reforma do sistema, antes da  perestroïka “, afirma ele.  Ele escolhe o teatro,  ” para não ter nada a ver com a política, diz ele. Pouco a pouco, o marxismo é enterrado em favor de uma economia de mercado confiscada por uma pandilha de oficiais, tais como Helder Vieira Dias ” Kopelina “, diretor do suculento Gabinete de Reconstrução Nacional. ” Muitos enriqueceram nessa época “, lamenta ele, antes mesmo do boom petrolífero. José Mena Abrantes é um idealista. Fiel a Eduardo dos Santos mais que ao MPLA, diz-se convencido de que o presidente ouviu os movimentos de contestação que agitam a capital há mais de um ano. ” Era necessário reconstruir as infra-estruturas antes de se enfrentar a política social. Agora, ele deve investir nesse terreno. “ Nas paredes do teatro, um pequeno graffiti proclama:” Este caos está a matar-me. “  O teatro ficou à sua mercê.”

'Morte e vida severina' 'Morte e vida severina'

artigo retirado do jornal Le Monde, fotografias de arquivo Buala

 

 

Tradução:  Maria José Cartaxo

por Christophe Châtelot
Cidade | 28 Setembro 2012 | Elinga Teatro, luanda, Mena Abrantes, património, teatro