Entre os Escombros, as utopias e os amanhãs

Sabe-se que, por toda a Europa, se tem agravado, na última década, uma crise na educação. No caso português, como certamente noutros, os sucessivos governos parecem não querer saber fazer contas nem planear com consistência todo o sistema e a sua estrutura. Seria um problema de matemática que uma criança ou um jovem do ensino básico poderia resolver. Começaríamos por ver, por exemplo, o número de crianças nascidas entre 2012 e 2022 e antecipar o número de alunos a frequentar o sistema educativo até 2026.

Acrescentaríamos as entradas de alunos no sistema educativo resultantes da imigração recente, sabendo que, se os pais têm vindo a contribuir para os cofres da Segurança Social, as crianças e os jovens recém-chegados tornam menos dramática a nossa pirâmide etária.

Para resolver este problema de matemática, acessível a quem frequenta o ensino básico, olharíamos para a média de idades dos professores. Observaríamos as estatísticas de abandono da profissão, o número médio de docentes que ficam doentes por ano letivo e o de docentes que entram em licença parental… E iríamos alinhavando, a montante, a possibilidade de mais pessoas estarem em formação nas universidades e nos institutos politécnicos. Procuraríamos alternativas de emergência para substituições mais rápidas. Pensaríamos em aumentar os salários para atrair pessoas. Observaríamos os valores da habitação a crescer em comparação com os salários e calcularíamos que talvez fosse bom criar habitação acessível para professores.

Pensaríamos na monodocência do 1.º ciclo e do jardim de infância e calcularíamos que, depois de ter sido retirado a estes docentes o direito à reforma antecipada por trabalharem mais horas semanais, teríamos de reorganizar o seu serviço letivo para que tivessem os mesmos direitos que os outros professores e não houvesse um desgaste exacerbado nestes níveis de ensino.

Com tudo isto pensado e planeado, certamente não haveria falta de docentes.

E há outros cargos e funções dentro das escolas que também enfrentam cada vez mais problemas. Menos pessoas para realizar as mesmas tarefas, ou ainda mais. A proporção de auxiliares de ação educativa por espaço escolar e por número de crianças e jovens não sofreu alterações significativas para melhor, estando muitas escolas a funcionar com equipas reduzidas. Se alguém falta por alguma razão, já é difícil assegurar a vigilância dos portões e das portas, o apoio nas casas de banho e as limpezas.

As cantinas vão servindo comida, por vezes trazida de outros lugares. Uma espécie de take-away constante, porque fica mais barato usar louça descartável e centralizar a confeção do que arranjar as cozinhas, pagar às cozinheiras e a quem lave a louça. Assim, subcontratam-se pessoas a recibos verdes para servir a comida às crianças. Nas férias escolares, não trabalham nem recebem. E a louça de usar e deitar fora facilita que não seja preciso pagar a mais ninguém nem integrar trabalhadores em carreiras e quadros.

Os edifícios vão sofrendo, em muitos casos, da mesma falta de atenção e planeamento por parte dos sucessivos governos. Edifícios provisórios há décadas. Salas de aula onde, no inverno, podemos observar fenómenos de condensação ao expirar e onde, na primavera, no verão e no outono, podemos facilmente experienciar temperaturas acima dos 35 °C e fundir ideias.

Entretanto, foram crescendo, também nas últimas décadas, práticas interessantes para proporcionar acesso à cultura, ao desporto, ao lazer e à alimentação. Mas, pelo país fora, vemos serviços cortados e reduzidos. Carrinhas de transporte de crianças para museus, descontos nas refeições, apoios das juntas de freguesia para visitas de estudo… Cortados!

E tudo isto se agrava quando saímos do centro das cidades e nos deslocamos às periferias. A degradação dos edifícios. A falta de vidros nas janelas. As temperaturas extremas nas salas de aula. E a falta de professores. Que alguém faça um mapa da falta de professores e revele, aos olhos de todos, o que é óbvio, mesmo sem acesso aos números e às suas geografias.

E vejamos tudo isto agravado pela moral de tanta gente que considera as crianças e os jovens que, em grande número, procuram vaga um estorvo ao funcionamento do sistema. Em vez de procurarmos soluções entre adultos, há quem considere que as crianças e os jovens é que estão a mais e a trazer a ruína ao sistema.

Quem mais fica de fora já vem de um território marginalizado. E, se a redução de trabalhadores nos serviços do Ministério da Educação nos parece fazer parte de um plano para desmantelar a escola pública e ir financiando as escolas privadas, não nos surpreendem as declarações feitas há dias pela Comissão Episcopal da Educação Cristã sobre este tema, defendendo que, se a escola pública não dá resposta, se financiem as escolas privadas, que poderão fazê-lo.

E, enquanto se encaminham percentagens cada vez maiores dos orçamentos dos Estados europeus para o setor da defesa, construindo narrativas de guerra com inimigos potentes e infindáveis, a educação, a saúde e outros setores vão ficando cada vez mais afetados.

Os jovens que se levantaram em França para protestar e reivindicar recebem balas de borracha, granadas, gás lacrimogéneo e interpretações abusivas sobre religião e migração, feitas até pelo presidente dos EUA. Como disse o nosso atual ministro da Educação há cerca de um ano, os professores que andam em manifestações perdem a aura de respeito que lhes caberia. O que vale ao nosso ministro é que o povo, por aqui, não tem esta genica de protesto: vai-se reclamando e vai-se andando. Diz-se que não dá para continuar, enquanto se continua a aceitar as falhas brutas e ásperas do sistema e se vai, mais uma vez, para a escola que nos coube. Pois a gente reclama e clama, mas proclama, para si mesma e para todos os vizinhos, que não há nada a fazer.

E as aulas de Educação para a Cidadania, que ainda estão por pôr em prática? E o direito à opinião, à reunião, à sugestão, ao pensamento próprio e coletivo…

Entre os pilares e os escombros das estruturas educativas, ainda há milhares de docentes e outros elementos da comunidade educativa que vão para a escola carregados de utopias e amanhãs.

por Maria Prata
A ler | 9 Outubro 2026 | desigualdades sociais, direito à educação, educação, escola pública, Periferias, políticas públicas, Portugal., precariedade, professores