"É do chinês"

“É chinês”. Eis uma frase que se diz frequentemente, sem pensar muito quando se trata de sublinhar o carácter incompreensível de algo. Ainda assim, esta palavra “chinês” não é algo tão evidente. Um parágrafo de introdução não chegaria para perceber a complexidade da construção europeia do que se designa nas línguas europeias por “chinês”.

O que nos é em contrapartida possível apresentar aqui é o facto de que os países europeus vêem a China no seu conjunto como um país e é neste sentido que consideram os “dialectos” que o povoam como parte do que temos o hábito de considerar o “chinês”. Dada a extensão do país, a questão de saber o que é o “chinês” continua, no entanto, ambígua e a multiplicidade da China parece não poder ser negada.

Da mesma forma que os europeus vêem a China como um país, há certos chineses que consideram a Europa como espécie de grande país, cujos países membros seriam como províncias. É pelo menos o que temos observado nos diversos artigos em chinês quando se trata de comparar as arquitecturas de uma região cultural do sul da China com a do sul da Europa.

Para compreender a multiplicidade histórica e cultural da China, os olhares, também múltiplos, dos sinólogos europeus ao longo da história são uma fonte preciosa. Por exemplo, é interessante notar aqui que Portugal tem, durante vários séculos, visto uma China, através da cultura cantonense e a partir de Macau que, conscientemente ou não, os portugueses tomaram como representante da cultura chinesa no seu conjunto. O facto de os sinólogos-intérpretes coloniais luso-macaenses terem durante um período considerado o cantonense como o “chinês”, vendo consequentemente o mandarim com o estatuto de “dialecto de Pequim”, é algo igualmente notável.

Portugal é o país europeu que tem mantido, através de Macau, o mais longo contacto com a China. Apesar de emocionalmente muito ligados a Macau, é-nos sempre um tanto doloroso constatar que, apesar desta herança de contactos privilegiados e prolongados com a China, a sinologia portuguesa não pode hoje em dia encontrar um lugar de destaque no mundo editorial e da academia.

cartaz de Victor Hugo Marreiroscartaz de Victor Hugo Marreiros 

Ao longo da história da sinologia portuguesa colonial, os sinólogos portugueses e macaenses parecem ter sido motivados pelo seu amor e pela sua curiosidade em relação ao que os rodeava e ter construído o seu saber sobre a China através dos arredores imediatos em Macau. Foi deste amor e desta curiosidade que nasceu uma rede de documentos testemunhos da cultura popular cantonense da época – que os portugueses designavam por “cultura chinesa”. É precisamente nesse plano que a sinologia portuguesa colonial merece a atenção da sinologia, no que ela oferece de olhar original e inédito sobre a China através do prisma de Macau.

A originalidade desta sinologia portuguesa e da China cantonense que esta sinologia propõe – se bem que tenha sido apresentada pelos próprios portugueses como uma “China chinesa” – vislumbra-se, por exemplo, no facto de que os portugueses da época transcreviam as palavras chinesas nos textos em português segundo a sua pronúncia em cantonense e não em mandarim como actualmente. Nas antigas transcrições portuguesas dos primeiros anos do século XX, o cantonense usado parece mesmo afastar-se do cantonense padrão que conhecemos hoje. Isso pode dever-se ao facto de o cantonense ainda não ter sido padronizado na época. Poderia igualmente dever-se ao facto de que este cantonense foi especificamente falado entre os antigos sinólogos-intérpretes coloniais. Mas esta questão deverǻ ser objecto de uma mais ampla investigação.

 

Infelizmente, continuamos hoje a ouvir esta frase – “é chinês” – que reflecte a maneira como a China é percebida pelos europeus: um conjunto mais ou menos homogéneo, no seio do qual Macau e a cultura cantonense poderão ter perdido o estatuto de representantes da cultura chinesa que tinham aos olhos dos antigos colonizadores e se encontram actualmente remetidas ao nível de sub-cultura, com o cantonense encarado como um dialecto entre os outros na China.

 

A homogeneização da sinologia em geral é cada vez mais surpreendente e verifica-se igualmente no mundo lusófono hoje quando os portugueses, que durante muito tempo tão pouco aprenderam o cantonense, são hoje tão numerosos a aprender o mandarim padrão – ou, noutras palavras, este “chinês” da frase que usamos com tanto prazer para descrever a incompreensibilidade de algo.

 

Parece que a época em que o cantonense era considerado como o “chinês” e Macau como representante cultural da China dos sinólogos portugueses e macaenses pertence já, definitivamente, ao passado. Mas quando pensamos nisso, recuperar a sinologia portuguesa sobre a antiga colónia, assim como o cantonense, não seria justamente a oportunidade de recuperá-la para conseguir, dada a especificidade e originalidade do seu ponto de vista, um lugar de destaque no mundo literário e académico actual?

Artigo originalmente publicado no Jornal Tribuna de Macau, 21 Outubro 2020.

por Cheong Kin Man e Mathilde Denison
A ler | 18 Novembro 2020 | China, cultura, História, Macau, preconceito