Retrospectiva de Eugénia Mussa

Escrever um texto para acompanhar a exposição de um determinado momento do percurso de um artista começa por uma aprendizagem, uma aproximação, um reconhecimento da linguagem do artista. Talvez linguagem pudesse aqui ser substituída por pensamento; mas estou em crer que o pensamento de um artista – o modo como constrói o mundo – apreende-se através do seu trabalho e não por via de textos interpretativos ou de contextualização da sua prática. Este processo de repérage em que se baseia a escrita de um texto sobre o trabalho artístico, tem qualquer coisa de antropófago, visa pedir de empréstimo modos de ver, ordenar, experienciar o mundo. E a Pintura é uma via para esta descoberta/exploração especialmente obscura à nossa aproximação. Trata-se de um campo de ação intensamente sensível, velado e quase que intransponível durante a sua execução. Este diálogo complexifica-se quando o local da pintura não coincide com o local do tema, assim como, quando o objeto, pessoa, referente, não está, não é presente. Tudo isto seria mais ou menos evidente não fosse o caso das pinturas mais recentes de Eugénia Mussa não serem abstratas (lugares, sensações, ideias – ou a sua recusa – encontrados no ato da pintura). Em rigor são paisagens localizáveis (ainda que apenas situadas decorrido o processo de pintura). O lugar representado foi de facto encontrado pela artista primeiro na pintura e depois na paisagem; invertendo assim a lógica da ilusão ótica da miragem: a referência da realidade passa a ser a da placa sensível. E o mesmo nos pode acontecer, a nós observadores, ao participar na sua pintura: encontrarmo-nos na realidade, sabermos onde estamos, através da experiência matizada do espaço e do lugar revelados por estas pinturas.

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Eugénia Mussa tem vindo a utilizar a cor liberta das teorias óticas e estéticas assim como dos seus significados simbólicos e semióticos. No entanto é por via da cor que mapeia esse lugar, a localidade, onde estar é ser (Pessoa). E este lugar é um lugar em permanente descoberta. É através do jogo entre as temperaturas das cores, da sua proximidade e confronto, do não contornar mas utilizar determinados preconceitos, que a artista localiza esse estar enraizada na ausência de um lugar (Simone Weil). E o limbo entre a memória, a descrição e a miragem que o estado de dépaysement lhe confere é a melhor escola para a sua pintura. Como no conto do escritor brasileiro Raduan Nassar, Menina a caminho, em que esta percorre, em silêncio, uma série de situações (o arrufo entre três meninos, a polémica na barbearia, a sedução da senhora à janela, a lição na escola, etc.) das quais é excluída, mas que por via da sua intensa observação, ela participa desse fazer acontecer da rua, do seu movimento incerto e da inquietação de encontrar novos horizontes. São também, da ordem da informalidade, as situações de rua, os provisórios pormenores de um céu, os vazios imprevisíveis entre prédios desgastados e as cores que banham estes volumes e geometrias do mundo, que informam as paisagens (não clássicas, basta pensarmos na sua verticalidade) reunidas nesta exposição. Numa entrevista, o pintor Álvaro Lapa a propósito do género da paisagem, que no seu caso particular designava por paisagísticas (as suas pinturas sendo horizontais também não são clássicas e nelas o lugar representado não é facilmente verificável mas sensualmente identificado) dizia; «paisagem» significa um lugar que atravessamos, um lugar onde estamos, onde nos imaginamos.

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O olhar retrospetivo que em torno, e a partir, destas pinturas – e destes lugares – é sugerido, desfia algumas possibilidades, alguns caminhos. 1) A biografia da artista. Eugénia nasceu em 1978 em Maputo mas veio viver muito cedo para Lisboa. Tem regressado pontualmente a Moçambique, fazendo escala no Dubai. A experiência pedestre da Cidade é a principal fonte da sua linguagem. 2) A história da pintura. Eugénia sem pudor miscigeniza no seu trabalho marcos como Piero della Francesca, Velázquez, Morandi com nomes menores da Pop; utiliza a técnica clássica da pintura a óleo segundo um acaso musical; flutua livremente entre estilos, géneros ou paradigmas pré-estabelecidos. 3) Poderá ainda haver lugar para uma saudável ironia. No entanto, a ideia de retrospetiva jamais poderá configurar-se limitadora, já que para participarmos no seu trabalho procurámos o “desvio” da norma, o “deslocamento” da experiência, o “avesso”da pintura. 4) Reencontramos as várias possibilidades de desdobramento desta retrospetiva na surpreendente intemporalidade das palavras de Cézanne: Está a passar um minuto do mundo. […] Tornarmo-nos esse minuto. Sermos então a placa sensível. Dar a imagem do que vemos, esquecendo tudo o que apareceu antes de nós.

Maio, 13


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pinturas oleo sobre papel 201329,7x42cm

 

Exposição de 16 de Maio a 19 de Julho 2013 

espaço arte tranquilidade LISBOA

3ª a 6ª (exceto feriados) 12:30 – 19:00 entrada livre 

por Maria do Mar Fazenda
Vou lá visitar | 28 Maio 2013 | Eugénia Mussa, pintura