Vistos Gold: A fugir de Hong Kong para... Lisboa

O recurso aos vistos gold portugueses tornou-se uma opção segura para os habitantes da ex-colónia britânica que querem escapar ao controlo de Pequim.

Hong Kong, terra emprestada. A expressão, celebrizada nos anos 1960 pelo jornalista australiano Richard Hughes, não passava de uma recordação bem arrumada a um canto da memória de Lawrence Ip. O gestor era ainda criança quando chegou com a família à então colónia britânica que, apesar dos dias contados sob administração de Londres, recebia diariamente milhares de refugiados do outro lado da fronteira.

Os pais de Lawrence, empresários inconformados com o rumo da nova China de Mao Zedong, na ânsia de salvaguardar liberdades e património, engrossaram a longa lista de imigrantes que, na década de 50, confluíram no território. Em 1945, Hong Kong tinha 600 mil habitantes e, passados seis anos, o número excedia dois milhões.

Hoje refaz-se o ciclo. Com a instabilidade política e a crescente interferência de Pequim nos assuntos da região semiautónoma chinesa, Lawrence prepara o caminho para deixar esse abrigo provisório que o tempo fez casa. “Sonhava-se que Hong Kong se transformasse numa cidade extraordinária e que a China se tornasse como Hong Kong, mas claramente aconteceu o contrário”, diz o gestor, que tem no currículo a administração de várias empresas cotadas em bolsa, e que, por receio de retaliações, pede para não ser identificado pelo nome verdadeiro.

Lawrence chegou há poucos dias de Taiwan, onde esteve em trabalho, e quando falámos ao telefone, está em casa a cumprir quarentena. É um risco ficar em Hong Kong, pergunto. “Sim, não sabemos que direção vão tomar estas políticas, que podem chegar ao extremo desses anos 50, quando os comunistas subiram ao poder e disseram: ‘tudo o que vocês têm é nosso’”.

Com a ajuda da mulher e dos dois filhos adolescentes, o gestor começou a estudar diferentes planos de imigração, e Portugal, através do regime de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (conhecido por visto gold), garantia um salvo-conduto neste tempo incerto. Sem qualquer relação anterior com Portugal – onde “as pessoas se sentem bem na própria pele e são mesmo muito descontraídas” –, a família de quatro investiu 500 mil euros numa propriedade no centro de Lisboa, assegurando o título de residência que após cinco anos pode ser convertido no direito à cidadania portuguesa.

A exigência de passar apenas sete dias por ano no país permite a Lawrence uma relação sem amarras com Portugal. “Se tudo correr mal em Hong Kong, há sempre um lugar para onde ir”, nota o investidor, que defende que a residência no país europeu tem a vantagem de abrir as portas ao espaço Schengen.

Um lugar agora irreconhecível

Às onze da noite de 30 Junho, a uma hora do 23º aniversário do retorno de Hong Kong para a China, Pequim anunciou a imposição da lei de segurança nacional na região. A intenção de se aprovar localmente legislação antissubversão - prevista na Lei Básica, miniconstituição que governa o território – já tinha enfrentado resistência em 2003, com meio milhão de pessoas a ocuparem as ruas da cidade, numa marcha contra o que consideravam ser uma ameaça às liberdades e direitos da população.

A lei caiu, numa clara vitória para a vontade popular e, desde aí, pelo menos outros três momentos de contestação iriam fragilizar a imagem do executivo de Hong Kong aos olhos do governo central: em 2012, caíram por terra os planos para incluir educação patriótica nas escolas; dois anos depois, foi a vez de o movimento pró-democracia Umbrella Movement ocupar o coração político e financeiro da cidade ao longo de 79 dias; mais recentemente, as autoridades recuaram com o projeto de emenda da lei da extradição, avaliado por críticos como um instrumento para afastar opositores de Pequim, por abrir caminho ao julgamento de suspeitos de crimes na China continental. Este último momento levou a uma onda de protestos que marcou praticamente todo o ano de 2019 e que só abrandou com o aparecimento da pandemia.

George Lei e Rita Leung, casal de hongkongers, juntaram-se a esse movimento que a 16 de junho de 2019 levou, segundo dados da organização, dois milhões de pessoas às ruas da cidade. Também os jovens aceitam falar na condição de não serem identificados pelo nome verdadeiro – prevalece “o medo pelo futuro”, justifica George. É ele quem avança, quase sempre, nas respostas. “O meu inglês não é tão equilibrado”, explica Rita. Estes dois jovens, que nasceram nos anos 80, e na Hong Kong ainda colónia, admitem o peso da educação britânica na forma como examinam o mundo. George e Rita falam numa asfixia gradual dos direitos e liberdades da população e acusam as autoridades de violarem o acordo sino-britânico, segundo o qual, no retorno da região à soberania chinesa, em 1997, estaria assegurado durante meio século um elevado grau de autonomia.

“A educação está cada vez mais associada à China, estão também a focar-se mais no mandarim em vez da nossa língua, o cantonês, e querem que as crianças amem o país, ensinam-lhes o hino nacional, dizem que precisam de o saber cantar e aprender a hastear uma bandeira”, salienta George. Rita encerra o raciocínio: “Depois de casarmos, queríamos ter filhos, mas vimos o que o governo está a fazer e não conseguimos ver um futuro para eles aqui.”

Apesar de a proposta de alteração à lei da extradição ter estado na origem dos protestos de 2019, várias reivindicações estruturaram o movimento – “cinco exigências, nem uma a menos”, entoavam os manifestantes – sendo o derradeiro objetivo deste e de outros movimentos pró-democracia, em Hong Kong, o sufrágio universal para a eleição do governo e do parlamento (Conselho Legislativo). Horizonte necessário, mas cada vez mais distante, observa George, que recorda a recente desqualificação de 12 candidatos pró-democracia para as legislativas, numa decisão que o governo sustentou com a lei de segurança nacional. “Hong Kong está a tornar-se uma cidade chinesa como as outras, ao invés de se manter esta cidade única.”

Resta a emigração, questiono. É novamente George a falar: “Ninguém quer ir embora da terra onde nasceu, mas não reconhecemos mais este lugar.”

Pedido de passaportes acelerou

Quando nos anos 1960 o pai de Rita, chinês natural de Macau, se mudou para a então colónia britânica, levou na bagagem o passaporte luso que o governo de Lisboa concedeu a todas as pessoas nascidas até 1981 no antigo território português. Décadas depois, em 2003, Hong Kong anunciava a intenção de legislar a segurança nacional. “Comecei logo a pensar ir embora e pedi a nacionalidade portuguesa”, conta a jovem, que trabalha em recursos humanos.

A cidadania portuguesa chegou, por fim, há cinco anos, e Portugal, lugar remoto e desconhecido, começou a despontar como “uma opção para o futuro”. Com a solidificação do poder de Pequim sobre o território e a crescente repressão dos movimentos antigovernamentais, Rita e George, entretanto casados há dois anos e meio, tomaram finalmente a decisão de partir.

Apesar de serem portadores do passaporte BNO (British National Overseas), por terem nascido antes da transferência da região para a China, os jovens admitem que Portugal não é apenas uma escolha política. “[Londres] também é um polo financeiro, uma cidade moderna e comercial, e nós queremos mudar de ambiente”, assume George, profissional no setor das finanças. E contam com o apoio da família? “Os meus pais são hongkongers tradicionais, relativamente pró-governo chinês e não querem que parta, mas temos o apoio da família da Rita”, conta.

Não fosse a pandemia e a paralisação das ligações aéreas e os dois jovens já teriam visitado Portugal este ano pela primeira vez. Do país – admitem – pouco sabem. “É uma aventura, precisamos de pensar como é que vamos viver”, assume George que, para pedir a cidadania portuguesa através do matrimónio, tem de estar casado há três anos e provar conhecimentos de língua portuguesa. A necessidade de aprender o idioma levou o casal à Portuguesinho, escola que abriu as portas no final de 2018 e que, neste momento de crise, vê o negócio expandir-se. Dos 120 alunos inscritos, mais de 80% aprendem português por questões políticas, conta Jan Hung, cofundadora do espaço. “A instabilidade política acelerou o pedido de passaportes dos descendentes de portugueses e, além destes, várias pessoas estão a emigrar através dos vistos gold”, constata.

Pensar no futuro dos filhos

A assinatura da Declaração Conjunta Sino-Britânica que definiu a data do retorno de Hong Kong para a China, em 1984, e o massacre de Tiananmen, cinco anos mais tarde, levaram centenas de milhares de residentes, preocupados com o futuro, a partir. Agora, o território pode estar perante uma nova vaga migratória, sugere um estudo da Universidade Chinesa de Hong Kong, publicado no final do ano passado. Dos cerca de 700 inquiridos, 42% responderam que gostariam de deixar a cidade, estando as “disputas políticas e clivagens sociais” e a “falta de democracia” no topo das motivações.

Jennifer Lee, diretora da FGI Holdings, empresa que tem acompanhado processos de emigração através de investimento para Portugal, nota que o aumento do número de pedidos do registo criminal obrigatório para quem quer emigrar “é um forte indicador” de um renovado êxodo. Só em 2019, os pedidos aumentaram 40% face ao ano anterior, segundo dados da polícia de Hong Kong.

“Na história da emigração local, muitas pessoas tinham entre 40 e 50 anos, e o nosso público-alvo andava à volta dessa idade, mas desde o ano passado, a idade tem vindo a diminuir para 30 e 40 anos”, vinca Lee, traçando o perfil do novo emigrante.

Foi através da FGI que David Wong, de 40 anos, adquiriu o visto gold para Portugal. Pai de duas crianças, de 4 e 10 anos, Wong tornou-se, este ano, proprietário de uma casa nos Anjos, em Lisboa. Os protestos contra a lei da extradição deram o sinal de alerta. “Vi muitas crianças que não sabiam o que estavam a fazer, que se sacrificaram e foram para a prisão, por causa do movimento, e estou muito preocupado com o futuro dos meus filhos”, refere.

A esmagadora maioria dos participantes de protestos antigovernamentais, como o Umbrella Movement ou a contestação à lei da extradição, eram jovens. Dados oficiais revelam que, entre junho e dezembro de 2019, foram detidas durante as manifestações cerca de seis mil pessoas – 40% eram estudantes e 900 tinham menos de 18 anos.

“Os meus filhos estudam na escola internacional, não numa escola pública, e tenho medo de que na universidade entrem em contacto com estudantes locais e que estes os influenciem”, sublinha Wong.

O plano de imigração português, “mais transparente e fácil”, e o “mercado imobiliário com potencial” pesaram na decisão de David, que espera investir na compra e arrendamento de imóveis quando se fixar em Portugal. Ao todo, o empresário gastou 400 mil euros com o projeto, incluindo a aquisição do apartamento onde vai viver, e o serviço da FGI Holdings. Jennifer Lee, por sua vez, admite que a crise veio “triplicar o negócio” da empresa que, só no mês após a aprovação da lei de segurança nacional, vendeu 15 apartamentos em Portugal. Cerca de 200 pedidos de informação sobre o mercado imobiliário português chegaram também às agências parceiras da empresa desde então. Segundo Lee, apesar de Taiwan encabeçar a lista dos destinos mais procurados, Portugal encontra-se neste momento no topo das opções dos hongkongers.

 

Artigo publicado originalmente no jornal Sábado a 07/09/2020

por Catarina Domingues
Cidade | 15 Outubro 2020 | China, Hong Kong, instabilidade política, Lisboa, Portugal