Nayr Faquirá: “Gostava que vissem em mim uma voz de posicionamento, mostrando que é possível resistir num meio dominado por homens brancos”

Na adolescência, quando ainda não sabia bem onde cabia, Nayr Faquirá percebeu que tinha uma coisa que ninguém lhe podia contestar: a voz. Aos 28 anos, a cantora, compositora e produtora luso-moçambicana, natural de Sintra, continua a construir uma carreira sem editora, dá aulas num pequeno estúdio que montou na garagem dos pais e move-se numa indústria onde, diz, uma mulher tem de impressionar três vezes mais para ser aceite.

Nayr Faquirá Nayr Faquirá

Nos vídeos caseiros da infância de Nayr Faquirá há quase sempre música a tocar. À mesa, nos convívios de família, “desde o almoço aos banhos”. “Eu costumo dizer muito que a maior razão pela qual segui música e estou a fazer música foram os meus pais”, conta. O pai, moçambicano, com raízes em Maputo e Inhambane, mostrava-lhe música africana e, em paralelo, o rock dos anos 80. A mãe, madeirense, trazia o soul, o R&B e a música brasileira. “Eu cresci a ouvir muita coisa diferente e acho que essa foi a maior razão pela qual comecei a seguir música. Essa mistura de culturas também me moldou muito desde pequenina.”

A família viveu em Algueirão-Mem Martins até Nayr ter 20 anos. Em casa, a identidade nunca esteve em causa. O pai reivindicava-a “através dos avós, da comida e da música”; a mãe passava-lhe as tradições portuguesas e o sentido de família. Fora de casa, as certezas eram outras. “És portuguesa, mas sentes-te um bocado deslocada do típico português, não é?”, diz. “Não tinha dúvidas em casa, mas fora de casa isso foi-me marcando muito em termos de perceber em que caixinha é que eu estava.”

Pertence a uma geração em que já havia mais jovens com histórias parecidas à sua do que na geração dos pais. “Na minha altura, comparativamente aos meus pais, ainda assim já havia muito mais esta questão dos filhos dos PALOP que vieram para cá, portanto já havia uma comunidade maior desta mistura.” Não chegava para resolver a dúvida: “Mesmo assim, ainda havia uma dificuldade em perceber se era portuguesa, se não era portuguesa, se era moçambicana, se não era moçambicana.”

Um território só seu 

O período mais difícil chegou por volta dos 12 ou 13 anos, numa escola com poucos alunos afrodescendentes ou de outras origens. “Não era acolhedor, era um bocadinho hostil até”, recorda. “Aí foi a altura em que senti mesmo o peso da aparência na nossa sociedade: do tom de pele, do cabelo, dos pais, da música.” A isto juntava-se tudo o que essa idade traz, a começar pela relação com o corpo. “Eu também era gordinha na altura, para o que era a norma. Tudo isso ao mesmo tempo foi um embate e uma altura mais complicada, porque não tinha certezas de quem era, nem tinha confiança e autoestima.”

Foi nessa altura que a música, que sempre tinha sido um refúgio, passou a ser também um território próprio. “Comecei a encontrar a minha força através da minha voz, porque sabia que sobre esse assunto ninguém podia dizer nada sobre mim; era onde me sentia confiante, do género: ‘eu canto mesmo bem e aqui ninguém pode dizer o contrário’.”

A certeza vinha de trás. Aos cinco anos experimentou o ballet e não gostou; passou para o hip-hop e gostou. Aos seis começou as aulas de piano. Por volta dos oito, cantava pela casa inteira, e lembra-se “perfeitamente” do dia em que, a meio de um banho, a mãe lhe disse: “Olha que tu cantas bem!” Nayr anunciou que queria ser cantora. A mãe, que desconfiava de que pudessem ser “apenas olhos de mãe”, levou-a a uma escola de música em Mem Martins, e o professor confirmou. Seguiram-se concertos todas as semanas, até que o entusiasmo deu lugar ao cansaço. Ser “quase a mascote da escola” pesava, e Nayr parou durante um tempo, “até para ir contra a vontade” da mãe.

Voltou aos 15 ou 16 anos, já no secundário, com um vídeo no YouTube. “De repente toda a gente estava a ver o vídeo e os likes a subir, e eu percebi que a música continuava ali e não tinha morrido.” Aos 16 inscreveu-se no The Voice Portugal. Foi a segunda confirmação de que ia seguir carreira na música, “quer fosse em paralelo com outra coisa ou não”.

De Maputo ao Mindelo

Quando fala de referências, Nayr desenha um mapa. Michael Jackson é a sua maior referência “em termos de entretenimento e espetáculo”; Stevie Wonder moldou-lhe a voz. Ouvia Beyoncé, mas também Djavan e Caetano Veloso, o angolano Paulo Flores, o cabo-verdiano Tito Paris, do Mindelo, e os guineenses Tabanca Djaz. Do lado moçambicano, cresceu com os Ghorwane por causa do pai, e cita Stewart Sukuma, Mr. Bow e Selma Uamusse, “que é uma grande referência moçambicana cá em Portugal”. Nota, ainda assim, que “em Moçambique não se consome tanta música nacional, consome-se mais música brasileira e angolana”.

No centro desse mapa está Sara Tavares, que morreu em 2023. “A Sara Tavares era a minha maior referência a crescer: uma mulher negra e portuguesa com uma mistura de culturas, que cantava em crioulo, português e inglês. Ela tinha uma aura leve e foi uma referência positiva feminina muito importante.” Para uma adolescente que não encontrava muitas pessoas como ela à sua volta, ver alguém ocupar esse lugar sem ter de escolher entre origens era, em si mesmo, uma resposta.

O que Londres lhe deixou

Logo depois do The Voice, aos 18 anos, Nayr partiu para Londres com uma amiga. Conseguiu uma bolsa que lhe permitiu estudar sem pagar propinas, coisa que, lembra, o Brexit tornou mais difícil, e estudou performance, voz e produção musical enquanto trabalhava. Ficou quase cinco anos, até aos 23. “Moldou-me muito e fez-me crescer com pessoas de várias culturas e países.”

Ainda tem saudades da dinâmica da cidade. “Em Portugal, o meio artístico fora do convencional é muito limitado. Em Londres há um mundo gigante de artistas e dinâmicas a acontecer.” Menos saudades tem do resto. “Muita competição e muito mau tempo, o que me pesava muito. Em novembro, às 15h30, já estava a escurecer; essa para mim era a pior parte.”

Foi também no início dos 20 que a questão da identidade começou a assentar. Os horizontes que Londres lhe abriu ajudaram-na a aprofundar uma ideia que ainda hoje a guia: “Eu sou quem afirmo que sou, e não quem as outras pessoas dizem.”

A ideia sempre foi voltar. “Sou muito ligada à família e não me vejo a longo prazo a criar uma família longe dos meus pais. Além disso, faço música em português.” A pandemia apressou o regresso: não fazia sentido continuar a pagar renda em Londres. Voltou para casa dos pais, entretanto mudados para São Domingos de Rana, e começou a dar aulas de voz online, através da Fiverr (plataforma onde profissionais independentes vendem os seus serviços online). “Como estava toda a gente em casa na pandemia, comecei a ter muitos alunos americanos e chineses e criei o meu próprio negócio.” No mesmo período fez uma pós-graduação em pedagogia e educação musical.

Depois de anos a dar aulas em escolas espalhadas por Setúbal, Palmela, Cascais e Sintra, cansou-se das deslocações e construiu um mini-estúdio na garagem da casa dos pais. Ali, e ao domicílio, ensina voz, piano e teoria musical. O aluno mais novo tem cinco anos, a mais velha tem 18, mas já teve uma aluna de 75. “É muito gratificante.”

O talento não chega

Em 2021 lançou Misturas, o EP em que encontrou a sua voz enquanto artista. Foi o primeiro que escreveu por inteiro e o primeiro que escreveu em português. “Ter tido tempo na pandemia para explorar ajudou muito.” Depois veio Não Penses Nisso, com Valete, uma colaboração que nasceu de forma inesperada. O rapper enviou-lhe uma mensagem no Instagram depois de a ver atuar no programa Conversas ao Sul. Foi o irmão que a incentivou a responder. “O Valete tornou-se quase um mentor para mim”, diz. Pelo caminho trabalhou também com Selma Uamusse, Ivandro e Pedro da Linha, e participou no genérico da nova geração de Morangos com Açúcar. Em 2023 editou o EP Quente e, em 2025, o primeiro álbum de originais, Entrelinhas.

Nada disto, percebeu, era sinónimo de estabilidade. Olhando para a rapariga que foi ao The Voice, é taxativa: “Acho que não sabia mesmo nada! Sabia que ia ser difícil, mas não tinha noção do quão difícil seria e no que isso se ia traduzir. Achava que bastava cantar bem e escrever bem para que pegassem em tudo e estivesse feito.”

Os últimos cinco ou seis anos, diz, foram “super duros”. “Apesar de ser respeitada musicalmente e conhecida por muita gente na indústria, percebi que isso não é de todo sinónimo de sucesso ou de conversão em seguidores e números reais. É um processo muito mais lento e de tentativa constante. Não há uma linha do tempo em que aos 25 anos vais ser super famosa ou ter a vida resolvida.”

A essa lentidão soma-se uma pressão que sente como específica das mulheres. “Para nós, mulheres, há toda uma pressão de ter a vida resolvida aos 26 anos e ter casa própria, quando comprar casa para a nossa geração está incrivelmente difícil. Isso em paralelo com fazer música, que é demasiado caro quando não tens uma editora ou financiamento atrás de ti.” E dá números: “Um videoclipe low cost médio em Portugal custa 1000 euros, mais 500 euros no mínimo para promoção; isso é um ordenado!”

A independência tem, por isso, uma base que nem sempre se vê. “Tive a sorte de, quando voltei de Londres, ter a casa dos meus pais para onde voltar. Eles são as minhas âncoras, apoiam-me muito e não querem que eu desista da música. Se não tivesse esse apoio familiar, não sei até que ponto conseguiria manter a mesma consistência, porque há contas para pagar.” Passaram cerca de 11 anos desde a inscrição no The Voice, e tudo foi feito “sem produtora e muitas vezes sem manager”. “É preciso muita força de vontade, amor pelo que faço e apoio emocional da minha família para não desistir.”

Ser vista antes de ser ouvida

Parte do que Nayr aprendeu sobre ser uma mulher negra na música veio de fora, sobretudo da comunidade brasileira. “Aprendi muito com a comunidade brasileira sobre como o ser negro é uma construção social.” Isso inclui olhar para a própria posição sem simplificações. “Reconheço que tenho um privilégio de colorismo por ter o tom de pele que tenho em relação ao meu pai ou às minhas tias, mas sei que onde quer que vá nunca sou vista apenas como portuguesa sem questionarem a minha origem.”

A indústria, descreve, está organizada de forma a que essa leitura pese. “A indústria musical é fortemente dominada por homens brancos nas posições de poder. Para ser aceite, uma mulher tem de impressionar três vezes mais e tentam sempre colocar-nos em caixinhas estereotipadas. Se queres produzir, escrever ou fazer hip-hop, perguntam por que não te limitas a cantar baladas.”

Algumas escolhas não estão em negociação, a começar pelo nome artístico. “Há coisas das quais nunca abdiquei, como a afirmação da minha identidade e o manter o apelido Faquirá no meu nome artístico. Este nome representa a história do meu pai (Daúto Faquirá, conhecido treinador de futebol), do meu avô e da minha família, que trabalharam para que eu pudesse estudar”. Manter o apelido, ainda assim, não resolve a negociação de todos os dias: “É um desafio constante dialogar com o mercado pop sem perder a essência, especialmente num meio tão masculino e branco.”

Quando lhe perguntam se já tentaram reduzir essa herança a um rótulo, a resposta é imediata. “Tentam sempre reduzir-nos a um token” (pessoa incluída apenas para representar um grupo, como sinal de diversidade). Já lhe sugeriram gravar com outra artista negra apenas por serem ambas negras, “quando musicalmente não temos nada a ver uma com a outra”. E houve quem lhe dissesse, na indústria, que tinha o perfil ideal por ser “uma black clarinha de caracóis” ou que podia ser uma “Bárbara Bandeira black”. O tom de pele que ela própria identifica como privilégio aparece aqui transformado em argumento de venda, desde que embalado numa fórmula que o mercado já conhece. “É muito difícil entrar no mainstream sendo 100% autêntica.”

Com o tempo, aprendeu a proteger-se dessa lógica. “Aprendi que haverá sempre quem não goste do que fazemos, por isso desliguei da obrigação de agradar a todos e perdi o fascínio ingénuo pelas dinâmicas sociais da indústria.”

A escassez que põe mulheres umas contra as outras

As desigualdades de género que identifica “assentam sobretudo nas relações de poder, porque os cargos de decisão são ocupados por homens”. Fala de “situações de condescendência, abuso e assédio velado”. O Valete, sublinha, foi uma exceção, porque “manteve sempre uma postura estritamente profissional e respeitadora”.

Estas dinâmicas mudaram a forma como trabalha. Sente-se “100% mais confortável a colaborar com mulheres” e já não hesita em levar o pai ou o namorado a reuniões e eventos. “Infelizmente, a presença masculina impõe outro tipo de respeito e evita abordagens indesejadas.”

Recusa, por isso, a ideia de uma rivalidade natural entre mulheres na música. “É uma competição incutida pelos homens pela escassez de vagas atribuídas a mulheres. O meu objetivo é desmistificar essa rivalidade e criar comunidade.” Para explicar como, recorre a algo que ouviu Michelle Obama dizer no podcast Call Her Daddy: às vezes é preciso saber estar nos espaços de decisão para depois conseguir abrir portas e levar outras mulheres consigo.

A prática acompanha o discurso. Diz que foi a terapia que lhe ensinou “a não ter receio de arriscar e contactar outros artistas”, e foi ela própria quem abordou Selma Uamusse, hoje uma amiga próxima. Admira artistas como Iolanda e diz ter realizado o sonho de trabalhar com Selma e com Valete.

Escrever para não ficar sozinha

Nayr não escreve a quente. “Inicialmente, quando estou a passar pelas coisas, é difícil processar. Quando estou no meio do processo não consigo escrever porque é tudo muito pessoal.” Precisa de tempo até conseguir olhar para o que viveu “como se tivesse acontecido a outra pessoa”. Só então a escrita funciona. “Quando me sento a escrever torna-se algo terapêutico.”

Foi assim com Tua. A canção nasceu de uma relação “muito rápida, estranha e intensa, cujo final foi muito mau”. “Eu estava super apaixonada e, quando acabou, fiquei sem chão.” Pensou escrever um e-mail à pessoa para desabafar. Demorou alguns meses, mas acabou por transformar esse e-mail numa música, “para não ficar a remoer”. Tinha 25 anos; ele era bastante mais velho. “Foi violento a nível psicológico, porque a pessoa estava a fazer um jogo duplo ou triplo. Revelou-se uma pessoa completamente diferente daquilo que aparentava. Foi o processo de fazer o luto de uma pessoa que na verdade nem sequer existia.”

No material de imprensa com que apresenta o seu trabalho, Nayr escreve uma frase que resume a intenção: “Escrevo para que as pessoas se sintam menos sozinhas nas emoções que nem sempre conseguem nomear.” Questionada sobre as emoções que ela própria demorou a nomear, fala primeiro de confiança. “Demorei muito tempo a sentir-me confiante em quem sou.” O autocuidado mental, físico e espiritual passou a ser algo que preza e que tenta levar para as canções.

E há outras experiências que também demorou a nomear. “Falo também da condição de ser mulher e de questões de abuso psicológico, sexual, físico e verbal pelas quais passei. Demorei tempo a perceber que tinha sido vítima de várias situações consecutivas.”

O novo ciclo artístico que inicia depois de Entrelinhas é mais íntimo e nasce desse processo. “Estou muito mais madura, confortável comigo própria e consciente dos meus processos graças à terapia. Aprendi a lidar melhor com os meus demónios e a aceitar que o meu percurso pode demorar o tempo que for preciso.”

A igualdade também se canta

No dia 25 de setembro, Nayr Faquirá levou este percurso ao palco do Festival Política com Artigo 13.º, um concerto concebido de propósito para o festival. Construiu o alinhamento a partir do direito à igualdade consagrado na Constituição, o artigo que determina que ninguém pode ser privilegiado ou prejudicado em razão, entre outras coisas, da ascendência, do sexo, da raça ou do território de origem. A escolha não precisa de muita explicação para quem conhece a sua história.

“Gosto de encarar a minha performance como uma peça artística global”, diz. O objetivo não era confortar. “Queria provocar algum desconforto e consciencialização em relação a temas sociais e políticos que passei e presenciei. Gostava que vissem em mim uma voz de união, posicionamento e esperança, mostrando que é possível resistir num meio dominado por homens brancos.”

A voz como cura

Longe do palco, Nayr é alguém que faz “cem planos” e tem dificuldade em estar parada. Gosta de estar com amigos e família, de treinar, de ler, cada vez mais, no seu Kobo. A praia “é tipo o meu sítio”. A música vai sempre atrás: “Estou sempre a ouvir música nova, a ouvir os meus álbuns preferidos.”

O que vem a seguir mantém-se no universo do R&B e do soul, mas com uma ambição clara: “explorar ainda mais a minha voz como um instrumento de cura”. Tem ouvido muito hip-hop e R&B brasileiro, fez uma residência artística no Brasil com a rapper Cristal e quer aprofundar colaborações com o Brasil e com os PALOP. É para o espaço lusófono, de onde vêm tantas das suas referências, que quer agora levar a música.

A menina que procurava a caixinha certa já não parece preocupada com isso. “Sinto que estou a conseguir ser totalmente fiel a mim própria, falando da minha verdade de forma crua e sem rodeios.” E o que deixa às mulheres e à comunidade afrodescendente em Portugal já não é só sobre ela: “A mensagem principal é a necessidade de criarmos mais momentos de união e comunidade, para que possamos chegar juntas aos lugares de decisão.”

por Mariana Moniz
Cara a cara | 6 Outubro 2026 | música, Nayr Faquirá