Desfocar o sujeito, sobre fred
Entrevistámos ska batista sobre fred, livro de fotografia e poesia com a editora GHOST. Enquanto o seu primeiro livro — uma publicação independente — tinha uma estética mais documental (o diário de uma viagem), já este mistura a documentação com a ficção, a representação com a performance, a forma e o conteúdo, mostrando uma vida queer em lisboa a partir tanto de sujeitos como de materiais precários, vencidos, fragmentados. Em fred, ska batista espreita por uma janela semi-cerrada para corpos que só parcialmente se deixam revelar na fotografia. Nesta entrevista-conversa, falámos sobre uma lisboa desaparecida e em desaparecimento, das armadilhas representativas dos discursos que rodeiam os corpos queer, da prática de uma fotografia que não pode ser um olhar exterior e de uma fotografia ‘desenrasca’ para corpos que, também eles, se vão desenrascando.

pf: Como é que descreverias fred de uma perspectiva pessoal? O que é que te levou a fazer fred?
sb: fred nasce de um desconforto com determinadas formas de representação. Muitas vezes a fotografia aproxima-se de certos corpos e experiências a partir de um olhar exterior, como se estivesse sempre a observar algo distante, estranho ou passível de ser explicado. Durante a pandemia deparei-me com a apresentação de um livro sobre mulheres trans e fiquei muito marcade pela forma como aquelas vidas eram descritas. Percebi que havia ali uma distância enorme entre quem produzia o discurso e aquilo de que falava. Esse momento fez-me pensar sobre quem produz imagens e a partir de onde as produz. Comecei a sentir necessidade de fotografar o meu próprio contexto, as pessoas com quem convivia, os lugares que habitava, não para construir um retrato representativo de uma comunidade, mas porque era parte da minha vida. fred surge desse movimento. É um trabalho construído a partir da proximidade, da convivência e do afeto. As imagens foram acontecendo ao longo de vários anos, acompanhando amizades, performances, encontros, conversas e momentos aparentemente banais. Interessa-me pensar que essas experiências não precisam de ser traduzidas em grandes narrativas para terem valor.
Sim, isso depois nota-se na fotografia, não é? Parece um trabalho que vem de uma certa intimidade, que vem do teu próprio percurso, dos espaços que tu ocupas, das pessoas com quem te encontras nesses meios.
Sim, o livro foi sendo construído ao mesmo tempo que muitas dessas relações se construíam. Há pessoas que fotografei várias vezes, em contextos muito diferentes. Algumas conheci através da performance, outras através da amizade, e muitas dessas coisas acabaram por se misturar. Para mim era importante que a fotografia surgisse a partir de uma relação. Há uma dimensão queer no livro, evidentemente, mas ela não aparece para ilustrar uma identidade. Aparece como forma de estar no mundo. O que me interessava era criar espaço para que estes corpos ( e também eu) pudessem existir sem terem de justificar constantemente a sua existência. Talvez fred seja, acima de tudo, uma tentativa de permanecer próximo das pessoas e dos lugares que me transformaram. Talvez por isso o livro oscile constantemente entre documento e ficção, entre memória e imaginação.

De alguma forma, a vida queer como uma vida minoritária - porque podíamos falar de outras vidas minoritárias aqui também - mas a vida queer como vida minoritária está sempre sobre a ameaça de armadilhas discursivas que têm a ver com a forma como somos percepcionadas e que têm a ver com a forma como nos querem encaixar em determinadas categorias sociais, em determinadas funções sociais. E o que tu estás a dizer faz muito lembrar este encaixar da vida queer entre quase como se fosse o manifesto ou a purpurina. Ou seja, nós temos de ser ou sujeitos de resistência que sobrevivem apenas nesse momento de resistência ou sujeitos de festa. E há, de facto, este terceiro elemento, pouco retratado e pouco falado, que é o do abraço. É o abraço queer. É a intimidade queer. E o teu livro pareceu-me que vai um bocado nessa direção. Eu não senti nada desta demasia da festa, mas parece que qualquer representação queer tende a encaixar na festa, como se fosse só isso que a gente consegue fazer. Como se nós não tivéssemos uma intimidade de amor e violência, que está muito presente nas nossas vidas.
Sim, e acho que uma das coisas que me levou a fazer este trabalho foi precisamente o desejo de escapar a essa espécie de economia da representação em que alguns corpos parecem estar sempre condenados a significar alguma coisa. Não me interessa produzir uma imagem queer exemplar. Nem uma imagem da resistência, nem uma imagem da festa. Essas experiências fazem parte das nossas vidas, evidentemente. A luta faz parte das nossas vidas. A violência faz parte das nossas vidas. A celebração também. Mas existe uma tendência para reduzir a experiência queer a momentos de exceção, como se estivéssemos sempre a resistir ou sempre a celebrar. Talvez por isso eu tenha alguma dificuldade em pensar fred como um trabalho sobre resistência. Não porque a resistência não esteja lá, mas porque ela aparece incorporada na própria experiência de viver. Existe qualquer coisa política em continuar a criar relações, em continuar a produzir intimidade, em continuar a imaginar futuros quando as condições para isso parecem cada vez mais frágeis. Ao longo dos últimos anos vi muitos dos espaços onde estas imagens aconteceram desaparecer. Vi pessoas mudarem de cidade, projetos acabarem, lugares fecharem. E talvez por isso tenha começado a valorizar ainda mais essas pequenas formas de convivência. O abraço de que falas. Não apenas como gesto afetivo, mas como forma de construir mundo.
Podes expandir um bocadinho mais sobre esta relação entre representação e performance? É bem interessante. Estás a falar de performance e de capturar momentos de performance — e eu não percebo se essas performances foram até encenadas em alguns momentos. Mas há um jogo interessante entre a representação, a performance, a captura da performance, a captura da representação e o espaço em que a performance é a representação e a representação é a performance.
Quando voltei a estudar fotografia estava muito interessado na performance enquanto acontecimento cénico. Muitas das primeiras imagens que produzi acompanhavam artistas e processos performativos. Havia uma curiosidade em relação a esse corpo que sobe ao palco e constrói uma presença diante de outras pessoas. Mas, à medida que fui acumulando essas imagens, aconteceu uma coisa curiosa: mesmo quando as imagens deixavam de estar ligadas ao palco, continuavam a ser lidas como performance. Isso obrigou-me a deslocar a questão. E a pensar na performance como uma condição mais ampla da experiência social. De certa forma, comecei a perceber que a vida quotidiana também é composta por coreografias, gestos, encenações e modos de aparecer. Interessa-me essa zona onde já não é possível distinguir claramente representação e experiência. O palco invade a vida e a vida invade o palco. A fotografia torna-se um espaço onde essas fronteiras deixam de funcionar de forma estável. Hoje penso menos a imagem como registo de uma performance e mais como um acontecimento performativo em si mesmo. A imagem como um lugar onde vida, imaginação e representação se cruzam constantemente.

Estabeleces uma relação muito forte entre conteúdo e forma. Usas químicos vencidos, , brincas muito com o desfoque e a sobreposição, o granulado e o risco — tudo coisas que não aparecem simplesmente como problemas ou defeitos da fotografia, mas antes, na sua positividade, como escolhas artísticas. Por outro lado, lidas com sujeitos fragmentados, com sujeitos perdidos e encontrados, que são queer precisamente porque parecem não encaixar nos modelos representativos do enfoque do género. Queria saber mais sobre esta relação entre conteúdo e forma, e também sobre as tuas práticas técnicas.
Cada vez mais experimento os processos fotográficos enquanto espaços de relação e não apenas como ferramentas de produção de imagens. Quando trabalho com películas fora de validade, químicos alterados pelo tempo ou processos experimentais, não estou apenas a procurar um resultado visual. Estou a criar condições para que a imagem aconteça através de uma negociação entre diferentes agentes: a luz, a matéria fotográfica, os químicos, o tempo, os acidentes do processo. Nesse sentido, o laboratório tornou-se um lugar muito importante para mim. Porque ali sou constantemente confrontado com os limites do controlo. Posso planear uma imagem, mas nunca consigo determinar completamente aquilo que ela será. Existe sempre uma margem de imprevisibilidade. Talvez seja essa experiência que mais se aproxima das questões que atravessam o livro. Não uma ideia de fragilidade, mas uma recusa da fixação. Interessa-me aquilo que permanece em transformação. Aquilo que ainda não se estabilizou completamente. O grão, o desfoque, as manchas, os riscos ou as sobreposições aparecem muitas vezes como vestígios dessa relação, são o próprio processo a tornar-se imagem. Penso que isso também acontece com os corpos e com as relações que aparecem em fred. Interessa-me mais aquilo que existe no entre: entre presença e desaparecimento, entre visibilidade e opacidade, entre aquilo que conseguimos nomear e aquilo que continua a escapar.
fred joga muito com o esconder e revelar do sujeito. Este revelar nunca é total. Pelo contrário, avança e retrai-se de um modo não linear. O sujeito nunca está totalmente centrado — tal como o próprio processo técnico, está desfocado. Esse desvelar aparece então como gradual mas nunca total. Qual a tua relação com a opacidade na fotografia?
A opacidade coloca em causa uma expectativa muito forte que herdámos da fotografia: a ideia de que uma imagem existe para tornar algo totalmente visível. Durante muito tempo a fotografia foi pensada como prova, como evidência, como um meio privilegiado de acesso ao real. O meu interesse tem seguido noutra direção. Há pessoas que conheço há anos e que continuam a surpreender-me. Há sempre aspetos que permanecem inacessíveis, contraditórios ou difíceis de nomear. Não vejo porque uma fotografia deveria resolver essa complexidade. Pelo contrário, interessa-me que a imagem conserve alguma dessa abertura. Tenho pensado bastante na ideia de “direito à opacidade” proposta por Édouard Glissant. Não como um direito ao segredo, mas como uma recusa da exigência constante de transparência. Nem tudo precisa de ser completamente explicado para existir, nem tudo precisa de se tornar legível para ser reconhecido. Talvez seja isso que procuro quando um corpo aparece desfocado, fragmentado ou parcialmente oculto. Não se trata de esconder alguém, mas de reconhecer que nenhuma pessoa cabe inteiramente numa imagem. Existe sempre uma parte da experiência que escapa ao olhar e que continua a existir para além daquilo que a fotografia consegue mostrar. Uma imagem não se esgota naquilo que revela. Às vezes é no que permanece por resolver que ela encontra a sua maior potência.

Notei na apresentação do fotolivro que se referiam sempre a fred no masculino. Falavam muito do fred. Foi engraçado porque quando eu tinha visto o livro e quando tinha lido a poesia, fred para mim era claramente uma figura não binária. Claro que uma figura não binária pode utilizar pronomes masculinos. Mas não tive nenhuma assunção de que porque a pessoa se chamava fred que ele se chamaria o fred. E acho que foi muito, outra vez, por esta sensação de que fred estava perdido numa vida fragmentada, que se encontra, e mesmo pela poesia e de uma maneira quase nostálgica, com outros corpos e pessoas que também elas parecem perder e encontrar numa cidade desfasada. Podias-nos falar um bocadinho do género de fred ou de como é que tu te relacionas com o género de fred também?
Para mim, fred é claramente uma figura não binária. O nome apareceu muito antes do livro existir na forma que tem hoje. Era um nome que me acompanhava há bastante tempo. Havia qualquer coisa nele que me atraía precisamente por não me parecer completamente resolvido. Existe uma tendência para preencher rapidamente aquilo que permanece em aberto. Como se a ambiguidade fosse sempre uma espécie de vazio que precisa de ser corrigido. Mas fred surge muito antes de qualquer questão que fui colocando sobre identidade, pertença, mas também de um desejo de não fixar essas questões numa resposta definitiva. Também existe uma dimensão ficcional importante, por exemplo no poema que aparece no meio do fotolivro algumas das situações descritas aconteceram efetivamente, outras foram transformadas, deslocadas ou inventadas. Habitam uma zona onde memória e imaginação deixam de funcionar como opostos. Onde aquilo que vivemos e aquilo que inventamos começam a contaminar-se mutuamente. No fundo, talvez fred exista nesse intervalo. Não como uma identidade estável, mas como uma possibilidade. Gostaria que fred escapasse um pouco às categorias que tentam organizar as coisas.
O Maura fala no seu texto — que está incluído no fotolivro — também da presença do Eros no teu trabalho e de uma espécie de enamoramento com os próprios sujeitos e com a própria cidade. Vocês dialogam sobre isto, sobre haver uma relação erótica com a cidade e com os espaços da cidade que estavas a documentar também. Queria saber um pouco mais sobre a tua relação com Lisboa, suponho. E sobre se esse enamoramento se mantém também agora, tendo em conta que parte dos espaços que tu estás a documentar estão a desaparecer ou já desapareceram em Lisboa?
O livro nasce de um período em que eu estava profundamente encantade ou enamorade com as pessoas que fui encontrando em Lisboa. Mais do que a cidade em si, eram os encontros que a cidade tornava possíveis. A partir de determinado momento começou a existir uma circulação muito intensa de artistas, performers, migrantes, pessoas que chegavam com outras referências, outras urgências e outras formas de imaginar a vida coletiva. Em 2018, Lisboa teve um boom de vários artistas brasileiros e isso transformou profundamente a minha experiência com a cidade. Não apenas a nível profissional, mas também a nível afetivo e político. De repente havia casas abertas, jantares improvisados, festas, conversas, colaborações inesperadas. Havia uma sensação muito forte de que estávamos a construir alguma coisa juntes. Quando olho para muitas das imagens de fred reconheço esse entusiasmo. Não apenas pelas pessoas individualmente, mas pela possibilidade de mundo que parecia estar a emergir naquele momento. Talvez seja aí que o Eros aparece como força de aproximação. Como aquilo que nos move em direção aos outros, aos lugares e às experiências. Existe um desejo muito grande pelas pessoas que aparecem no livro, pelos espaços que habitávamos e pelas formas de convivência que fomos inventando. Mas hoje também olho para essas imagens com alguma melancolia. Lisboa mudou muito. Muitos dos espaços desapareceram. Algumas pessoas partiram. Outras foram empurradas para fora da cidade. A crise da habitação, a precarização das condições de vida e o crescimento de discursos cada vez mais violentos alteraram profundamente a paisagem social.

Acho que nos sacudiu a todas, de uma forma impressionante. Foi a prova de que tudo o que há pior em termos de relação de classe, em relação racial e em relação queer, é o modelo da integração. É o modelo que tenta fazer desaparecer a diferença sobre uma determinada hegemonia precedente que já existe na cidade. E tudo aquilo que a malta brasileira veio demonstrar é que se pode efetivamente ter uma relação diferente com o habitar. O carnaval é um exemplo máximo disso. Mostra que se pode criar incisões fortes no tecido social a partir de uma política de diferença que não é uma política integracionista mas que é uma política de desfasamento e de nos apercebermos das coisas que podemos ganhar também a partir de determinadas formas de diferença em vez de tentar integrar em formatos que já existiam previamente. Ou pondo de outra forma, nenhum integracionista devia ter direito ao carnaval.
Existe um medo muito real nesse momento. Não apenas porque certos discursos xenófobos, racistas ou homofóbicos voltaram a ganhar espaço, mas porque começamos a perceber como determinadas conquistas podem ser mais frágeis do que imaginávamos. Ao mesmo tempo, penso que esse medo não é uma experiência nova para muitas das pessoas que aparecem no livro. Existe uma consciência muito concreta de que os espaços de encontro precisam de ser continuamente construídos e defendidos. Talvez por isso eu tenha dificuldade em separar a dimensão afetiva da dimensão política. Quando falávamos há pouco sobre resistência, era precisamente isso que eu tentava dizer. Nem sempre a resistência aparece sob a forma de confronto direto. Às vezes aparece na persistência dos encontros, na construção de comunidade, na capacidade de continuar a imaginar e a criar vínculos mesmo quando as condições se tornam mais difíceis.

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Exposição “o material não aguenta”, de ska batista baseada no livro fred, inaugura no próximo dia 4 de Julho às 18h00, Rua das Gaivotas 6. De terça a sábado, das 15h às 19h até 25 de Julho.
fred, ska batista
Design: Joana Durães
Ensaio: Maura Grimaldi
Formato: 205 x 260 mm, 68 pp.
Impressão: Offset, duotone, 43 pictures
Tiragem: 400 copies
Idiomas: Portuguese/English
ISBN: 978-989-36209-2-2