Portugal Refractário
#. Portugal, como tal, não existe. Toda a nação é uma noção, não mais do que isso, uma construção cultural sedimentada pelo tempo, que ocorre apenas à força de acreditarmos nela. A terra, essa, persiste e resiste, em larga medida indiferente às transformações humanas, ainda que muito afectada por elas — e, agora, dizem, a um ponto que muitos garantem ser irreversível, talvez até extintivo para a espécie humana.
Não são portuguesas as andorinhas ou as gaivotas e as águias-pesqueiras, nem as nuvens e as tempestades, os equinócios, as estações do ano, e a terra e o mar só são nossos porque assim se convencionou que o fossem, o que depende de nós, sem dúvida, mas também ou sobretudo dos outros, que aceitam e reconhecem a lusa «soberania» sobre este pedaço de mundo.
Tendemos a pensar as nações como produto da vontade de um grupo, ou de uma comunidade, o «plebiscito de todos os dias» de que falava Ernest Renan. Esquecemo-nos, com frequência, que uma nação depende igualmente da boa vontade e da tolerância alheias e que, se acaso estas falharem, é muito mais difícil que essa nação sobreviva, invadida e ocupada, desde logo por falta de uma terra onde ancorar-se. É a terra, sempre ela, que nos define.
Aqui estamos, pois. Por mérito nosso, é certo. Mas também porque nos deixam.
#. Aos que insistem em afirmar que em Portugal não há racismo cabe tão-só perguntar porque é que nos empregos menores e menos qualificados, e mais mal remunerados, existe uma percentagem tão significativa, esmagadora, de pessoas negras ou de origem africana, hoje ditas «racializadas».






António Araújo (texto) e Duarte Belo (imagens), Portugal Refractário. Um país entre o imobilismo e a mudança, Lisboa, Museu da Paisagem, 2026, 512 páginas.