A Sul. O Sombreiro - pré-publicação Pepetela

Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta.

O maior filho de puta que pisou esta miserável terra. Pisou no sentido figurado e no próprio, pisou, esmagou, dilacerou, conspurcou, rasgou, retalhou. O filho de puta admito ser apenas no figurado, pois da mãe dele pouco sei, até dizem ter sido prendada senhora e de bem. Embora quem tal crocodilo deixou crescer no ventre pomba não deveria ser, afirmam os entendidos. Mas mereço eu, desgraçado padre, julgar o ventre de donas bem casadas?

Ventres não se julgam, dão frutos, alguns podres. Sou sacerdote. De rito católico. A vida perigosa me fez assim. Talvez não o coração, mais de judeu. Entretanto, nestes pesados tempos dos bons reis Filipes de Espanha, quem quer ser judeu? Pior ainda, quem pode ser judeu? O meu prudente bisavô, de nascimento Jacob, mesmo antes de ser obrigado, mudou o nome de família para Oliveira e por isso me chamo Simão de Oliveira. Cristão-novo, marrano, pois claro. Mas poucos o sabem. E a minha ordem aceitou o ingresso e formou-me despachadamente, iam fazer mais como?, dada a falta de vocações religiosas entre as linhagens peninsulares, todas atraídas pela fortuna das Índias e do Brasil, para aí enviando os rebentos mais prometedores, os outros vegetando pelos paços. Ou nas ruas. Os superiores sempre conheceram as minhas origens, mas já não é crime ter proveniências hebraicas, crime é conservar as antigas lealdades de crença. Se acreditarmos em tudo que dizem. E eu sou como os outros todos, traímos a nossa religião milenar para guardar o pescoço, traímos o Deus do verdadeiro Livro, para beijar os pés do deus pequeno do novo livro, o que fala de bondade, perdão e indulgência.

Como se um Deus verdadeiro perdoasse as ofensas e não destruísse com um gesto cidades inteiras de pecadores. Como se um Deus verdadeiro fosse indulgente para os traidores, os idólatras, os ingratos, sem os transformar em estátuas de sal. Lá porque um desgraçado foi sacrificado numa cruz, se dizendo o filho dele, o pequeno deus das

causas justas, já todos aceitaram a hipocrisia de rezar ao deus do amor para em terra praticarem as maiores atrocidades contra os seus semelhantes e dissemelhantes. Ao menos, o Deus verdadeiro dizia e obrigou a gravá-lo em fogo na pedra, quem com ferro mata com ferro morre, olho por olho, dente por dente. Assim é que é falar, nada de lamechices e perdões sem sentido, quem tem poder, poder a sério, sabe usá-lo com fúria, com rancor, sem perdão. Estarei a justificar por isso Manuel Cerveira Pereira, o brutamontes impiedoso?

Dúvida insuportável.

Não posso defender em público ideias religiosas tão perigosas como as que acabo de expor, apenas guardá-las nos recessos do silêncio temeroso, como fizeram o meu avô e o meu pai, esse dito agiota de Lisboa, com banca de penhores por baixo do castelo, banca herdada de avós e bisavós, escapando a todas as chacinas que se seguiram aos éditos dos reis católicos de Portugal, imitadores baratos dos da sangrenta Espanha, terminando os meus parentes por se prosternarem borrados de medo na Igreja de S. Domingos, batendo com vigor no peito contrito. Na igreja onde antes os sacerdotes da mesma ordem incitaram ao ódio e vingança contra os nossos, provocando impavidamente a carnificina que se seguiu em Lisboa. Talvez então o meu bisavô tenha apontado um antigo companheiro que recusou mudar para a nova religião, quereis um judeu?, aí o tendes, o Isaac. Com efeito, não há famílias inocentes. 

Voltarei talvez a falar de massacres semelhantes e a propósito do objeto do meu ódio, Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela. Mas noutro ponto deste relato visceral, odiento, vingativo. 

E perplexo.

Diz ele, Manuel Cerveira Pereira, ter nascido em Ponte da Barca, seja isso onde for no pequeno território junto da grande Espanha. Não tem real importância, mas mesmo esse detalhe, por mais insignificante que seja, pode ser falso. Tudo nele soa a falso. Quem me garante que não nasceu em Arraiolos ou Alcaídes? Ou até na digníssima vila de Águeda, onde por contraste dois grandes homens virão a nascer, honrando a vila e o nome? Espero bem que tenha sido em Ponte da Barca, para não misturar o bolor com o pão velho. Garante ele ter nascido nessa ignota terra e não me interessa. Pode ser. Que se dane. Ele e a terra onde foi parido. E mais aquela onde vai morrer. Pois seu corpo, mesmo putrefacto de morto, pode contaminar a região pelo pus maléfico expelido dos seus tumores. Nada pior para a natureza que fluidos saídos de um mau corpo, ainda por cima empestado por alma ruim. Pena não ter ficado em Ponte da Barca antes de nascer.

Um aborto que pouparia muitos trabalhos e maldades ao mundo.

Um dos deuses não quis, ou o Verdadeiro ou o pequeno, que interessa?

Inclino-me mais para o pequeno, só faz mal com sua intrínseca bondade, essa mania insana de salvar toda a gente do horror do pecado, como é morrer sem batismo. Mas já não fala o antigo judeu, antes o católico profissional. Porque isto de ser sacerdote católico em África é uma profissão rentável, um simples negócio, nunca uma devoção desinteressada.

benguela benguela

As devoções foram tragadas no tráfico de escravos.

Pertenço à ordem dos franciscanos. Pelo facto, nunca poderia ser o chefe da Inquisição em Benguela, se ela aqui estivesse instalada. Seria muito longo de explicar, nem eu sou o mais dotado para o fazer, mas a ordem dos dominicanos ganhou provisoriamente o combate mortal contra outras, em especial a dos jesuítas, esses quase heréticos que tentam o poder através da instrução, e contra a minha organização, feita de frades mendicantes e pobres. Bem, nem todos vivem das esmolas, sobretudo nesta terra fonte de escravos, sempre com possibilidades de negócios, mas quem se importa? A jogada dos jesuítas é boa, formam as elites e naturalmente ficam com a influência posterior. Quem é o indivíduo criado numa escola que de pois a renega, ao ter de dividir as benesses políticas e patrimoniais?

De facto, a Companhia de Jesus começa a gozar de grande influência em Luanda, por formar as suas elites, quer dos brancos quer dos mulatos ou negros. Mas também cria anticorpos. E nós, os outros, os iletrados, pobres, beneficiamos disso. Sobretudo os dominicanos, esses seres tortuosos por excelência e dados a ganhar as jogadas mais sujas nas travessas escuras. Todos os principais inquisidores peninsulares saem hoje dessa ordem, segundo dizem os mais instruídos.

Uma forma de o papa equilibrar influências, pois a nossa ordem goza do amor bondoso dele e dos cardeais, mas para aí, fica só pelo amor brando, os benefícios vão para os outros. O aspeto feliz da coisa é que a Santa Inquisição não existe de forma oficial em Benguela. Nem no Congo ou Angola, os demais reinos ao norte. Isso implica menos espionagem sobre os nossos atos e pensamentos. No entanto, apesar da inexistência local do Santo Ofício, os relatórios que enviamos para o Vaticano são lidos atentamente e algumas acusações levam a processos encobertos. Embora os dos dominicanos pareçam mais credíveis aos olhos da Santa Sé, talvez por terem ganho inexcedível experiência em venenosas denúncias, os nossos relatórios também lá vão fazendo o seu laborioso caminho. Tudo no maior sigilo, como se deve. Houve mesmo um bispo, bispando sem vergonha por partes de África mais perto de Marrocos, que foi chamado à Europa e aí condenado por não respeitar os sagrados ensinamentos da Madre Igreja, ficando com a cabeça a alguns metros do corpo. Curiosamente, não foi queimado na fogueira, como é hábito na sagrada casa, mas degolado.

Por ser bispo? Há privilégios.

Pelo meu lado, não tenho poderes para fazer decepar uma cabeça.

As minhas exposições contra o criminoso que se diz nosso governador caíram até hoje em saco roto, foi preciso tomar providências locais.

Infelizmente de resultado duvidoso.

Mas estou a avançar no relato dos factos, inconveniente para a compreensão. Resumindo, o meu objetivo é retificar as insuficiências do Santo Ofício e aqui, em letras escritas com vagar e sacrifício, fazer justiça terrena e divina ao conquistador de corpos em nome do rei de Espanha e Portugal, Dom Filipe como o seu antecessor, denunciando o grande criminoso e pecador chamado Manuel Cerveira Pereira.

Este fidalgo, muito certamente fidalgo de papel e não de sangue, pois o seu ruim mais parece o de um bastardo de bode com galinha, conseguiu por certas influências arrebatar o governo de Angola em 1603. Não por merecimento mas por falta de outro nobre e por ações torpes exercidas em nome do monarca, seu grande protetor. Quem tem um rei como guarda-costas não precisa de para-vento. Tal honraria lhe subiu à cabeça de forma intempestiva, levando-o a cometer todo o tipo de despautérios, até mesmo troçar de símbolos sagrados.

Vamos a alguns factos.

Cerveira era apenas um capitão do exército, sem dúvida destemido e com uma boa folha de serviços, secundando um espanhol degredado, capitão-mor. O governador João Rodrigues Coutinho, com quem Manuel Cerveira Pereira veio de Portugal, morreu menos de dois anos depois de chegar, com as febres. Enquanto o rei não nomeasse outra chefia para a colónia de Angola, ficava o capitão-mor a despachar ou quem fosse escolhido pelos principais cabos de guerra, padres e conquistadores mais antigos. O novo governador mandava em pouco, pois a colónia era aquele arremedo de vila chamada de Luanda e mais um território ao longo do Kwanza que quase cabia na palma da mão. Mas o Cerveira ambicionava deitar as unhas sujas ao ridículo território, conquistado por se dizer haver imensas minas de prata no curso do rio. Moveu-se nas sombras. A uns dizia, como engolir isso, um rei espanhol e ainda mais um governante espanhol?

PepetelaPepetelaE este candidato a governador não passa de um degredado, que tiraram da prisão porque mais gente não arranjamos para guerrear em África. A outros dizia cinicamente, temos de obedecer ao capitão-mor, apesar de ser espanhol e degredado por ter matado vinte pessoas inocentes. Para quem se dizia tão fiel partidário do rei Filipe e a favor do domínio castelhano sobre Portugal, tendo conquistado benesses por andar a beijar os cueiros do soberano na corte e a fazer guerras na Flandres com o duque de Alba, que ele chama de seu mestre eterno, estas afirmações só denotam mau caráter e hipocrisia. Até hoje não se descobriu como o capitão-mor apareceu apunhalado num ermo escuro, na subida da barroca, abraçado a um cato-candelabro, em Luanda. Para mim, foi Manuel Cerveira Pereira o mandante escondido no meio do exército de Massangano, mas, cala-te boca, só os mudos têm vida larga. Não possuo provas, no entanto, a quem aproveitou o homicídio? O assassinato do espanhol levou o Cerveira para o cargo de capitão-mor e portanto governador interino.

A estória merece ser contada com alguns detalhes. O Manuel Cerveira nunca escondeu a amizade tecida com os hipócritas jesuítas, os verdadeiros chefes do território, passando no seu retiro maior parte do tempo ocioso de Luanda. Conspirando, evidentemente. Que sabe um jesuíta fazer quando não está na missa e nos velórios?

Mesmo aí conspira. Contra Deus, contra o rei, contra os homens, até contra os cães pode conspirar. Pois bem. Mortos o governador Coutinho de doença no mato e em seguida o espanhol capitão-mor na vila de Luanda, um padre da Companhia de Jesus, Jorge Pereira de seu nome, logo se pôs aos gritos em Massangano dizendo que João Coutinho, antes de ir desta vida miserável, tinha deixado no seu escritório do presídio, fechado e lacrado, o nome do sucessor. E que este era Manuel Cerveira Pereira. Os capitães andavam todos agitados, disputando entre si e com os antigos conquistadores os despojos do extinto governador, que eram apetitosos, mas perante tal nome logo se acalmaram, calando despeitos e escondendo riquezas.

Não se calaram por respeito, antes por temor. Pois era conhecido o feitio irascível e desbragado do chefe designado pelos jesuítas. Maus tempos vinham e todos sabiam, ninguém era ingénuo. Mas cada um se pôs a jeito, ou para abrandar a pancada anunciada ou para estender a mão à fortuna corrupta.

 

continua…

 

“Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta.” Assim começa um grande romance de aventuras que nos conduz à Angola dos séculos XVI e XVII, enquanto Portugal vivia sob o domínio filipino. Entre lutas de poder, muitas conspirações, envolvendo governadores e ordens religiosas, com os franciscanos e os jesuítas na linha da frente, travamos conhecimento com homens muito ambiciosos, com um inglês um pouco doido, e com os terríveis jagas, os guerreiros incomparáveis que povoavam os piores pesadelos dos brancos, ao mesmo tempo que nos deixamos encantar por um fugitivo que se torna um aventureiro e explorador de terras por desbravar. O regresso de Pepetela com um empolgante romance ambientado nos primórdios do colonialismo, revelando uma época desconhecida da história de Angola.

A Sul, o Sombreiro, de Pepetela, Leya, nas livrarias a 19 de Setembro.

por Pepetela
Mukanda | 6 Setembro 2011 | literatura angolana, Pepetela, romance