O futebol a dar vida à cidade? Talvez sim...

Para onde é que vamos? Será o futebol a dar vida à cidade ou é a cidade que precisa do futebol para se sentir viva? Em setembro, surge sempre algo que traz à memória os acontecimentos que nos levaram a conquistar a independência. Essa independência ainda está por traduzir numa liberdade plena. E, no meio de tantas correrias da vida em Bissau, há sempre momentos de pausa para ver o futebol acontecer. Uma bola pelo meio e pessoas à procura dela.

No princípio da terceira semana de agosto, começou oficialmente o Campeonato Interbairros, que decorre até novembro. É motivo para dizer que Bissau vai respirar e inspirar através do futebol. Do bom futebol que há muito não se via nem se sentia.

São 32 equipas a representar os bairros da capital guineense. A diversidade, mas sobretudo a união, vive-se e demonstra-se em cada bairro quando há jogos. Cada um quer levar a taça no último jogo do campeonato. Para além dessa meta, paira sobre o povo a vontade de vencer. E essa vitória deve acontecer, tal como outrora se venceu para libertar o povo do jugo colonial.

Um grupo de cerca de dez pessoas empreendedoras, empenhadas em criar um espaço de entretenimento com propósito, dinamiza este campeonato. Lutam firme e forte para chamar todos os bairros da capital e despertar a consciência dos citadinos para a necessidade de se libertarem do sufoco existente. Ao mesmo tempo, criaram oportunidades, ainda que informais, para que mais de 70 jovens, rapazes e raparigas, possam ganhar algum dinheiro para se safarem no dia a dia.

E tudo isto não se resume às 22 pessoas que, dentro do campo, procuram a mesma bola, acompanhadas por outras três que não a procuram, mas garantem que o jogo seja justo. Há gente nas bancadas e ainda mais gente nos muros do Estádio Lino Correia. À volta do campo, uns estão em pé, outros sentados; alguns circulam com os seus negócios ambulantes, enquanto outros se fixam em determinados espaços. É uma oportunidade para ver a economia a circular, movida por quem sabe que é preciso procurar o pão de cada dia e fazer sacrifícios para o conseguir.

É caso para dizer que, hoje, em Bissau, o futebol está a fazer aquilo que a política muitas vezes não consegue: unir diferentes sensibilidades e personalidades. No mesmo lance, no mesmo golo, diversos gritos tornam-se um só. Na hora do golo, não há etnia a instrumentalizar, partido ou posicionamento político, religião ou diferenças. Há apenas um povo. Nesse instante, há um bairro inteiro que grita de alegria e outro que lamenta. Mas ambos seguem na disputa, de forma limpa.

Bissau, foto de Marta Lança Bissau, foto de Marta Lança

A lição de união através do futebol já foi bem visível. Durante a mobilização para a luta de libertação, Cabral usava o futebol para explicar o seu princípio de Unidade e Luta. Afirmava:

«Consideremos, por exemplo, uma equipa de futebol. Ela é composta por 11 jogadores, cada um com um papel específico. São pessoas diferentes: temperamentos, níveis de instrução, religiões, ou até mesmo afiliações políticas distintas. Um pode ser muçulmano, outro católico, um pode apoiar a situação, outro pode ser da oposição. Contudo, ao entrarem em campo, precisam agir em conjunto para vencer o adversário. Cada um mantém a sua individualidade, mas é necessário que obedeçam à lógica do jogo em equipa, com o objetivo claro de marcar o máximo de golos. Sem essa unidade, não há equipa de futebol.»
— Amílcar Cabral, discurso dos anos 1960

O futebol já foi escola de revolução. Hoje, precisa de voltar a ser escola de união. Mas também é importante ter cuidado para que não se torne uma escola de ilusão. Nos últimos tempos, assistimos a situações que deixam descontente qualquer amante do futebol: polémicas sem fim na Federação de Futebol da Guiné-Bissau e, ao mesmo tempo, promessas grandiosas. Promessas vãs, atiradas para a bancada para provocar aplausos fáceis, ganhar votos e desviar as atenções. Populismo na sua forma mais pura.

Prometem-se milhões para a bola quando os alicerces de uma sociedade saudável continuam aquém das expectativas: há agressões nos hospitais, falta um plano curricular para o próximo ano letivo e os agricultores familiares são deixados à margem, sem apoios estruturais para o trabalho no campo. O futebol merece investimento, sim. Um investimento estruturado, como demonstra a organização deste Campeonato Interbairros. Mas não ergueremos o país só com golos. É fundamental desenvolvê-lo de forma estrutural, respeitar as leis, viver os princípios democráticos e dar atenção à saúde, à educação, à agricultura e à justiça.

Não podemos aceitar que a paixão pelo futebol seja usada para distrair dos problemas mais duros. O povo gosta de futebol, e isso sente-se, mas também precisa de viver. Os valores do desporto que Cabral nos ensinou não eram os das promessas vãs. Eram os do sacrifício, do trabalho sério e da construção coletiva. O populismo faz o contrário: promete tudo a todos, sem trabalho nem plano, apenas para obter o aplauso do momento.

É fundamental irmos para onde a bola nos levar, sim. Mas com os pés bem assentes na terra. Porque, enquanto houver uma bola no meio da correria, haverá sempre um motivo para estarmos juntos. Para além da bola, porém, tem de haver arroz, escola e futuro. E há lições claras neste Campeonato Interbairros que podem ser aproveitadas e levadas mais longe.

Estádio Lino Correia, BissauEstádio Lino Correia, Bissau

por Mamadu Alimo Djaló
Vou lá visitar | 24 Setembro 2026 | Amílcar Cabral, Bissau, Campeonato Interbairros, futebol