Limites, silêncios e ausências
‘Ceci N’est Pas Francisco’ é a mais recente exposição de Marta Pinto Machado na Casa da Cultura de Cabo Verde, com curadoria de Filipa Oliveira e Ricardo Barbosa Vicente, patente entre 22 de maio e 27 de junho de 2026. A mostra dá continuidade à exposição homónima apresentada no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, e aberta ao público entre 15 de maio e 28 de junho de 2026.
O trabalho de Marta Pinto Machado tem-se desenvolvido em torno da fotografia e do arquivo, explorando as relações entre memória, história, identidade e pertença, bem como os seus limites, silêncios e ausências. É precisamente nesse território, situado entre o visível e o invisível, entre a memória e o esquecimento, que se desenvolvem muitas das questões presentes nesta exposição. Para compreender melhor esta exposição, gostaria de partir de três projetos da artista que me parecem fundamentais para compreender algumas das questões que atravessam esta exposição.
O primeiro é Nos Txôn: as Fotografias, a Memória e as Possibilidades de uma Narrativa no Discurso Pós-Colonial, desenvolvido a partir de um álbum de fotografia da sua mãe. Esse trabalho esteve na base da exposição apresentada na Galeria Imago, em Lisboa, em 2022, bem como da publicação de um livro editado pela Pierrot le Fou, no mesmo ano.

“Nos txôn” expressão cabo-verdiana que significa “o nosso lugar” ou “a nossa terra”, convoca uma ideia de pertença. A particularidade deste trabalho reside no facto de as fotografias presentes no álbum terem sido tiradas pela própria pessoa retratada – Lúcia Pinto Machado. Para além de ser responsável pela sua própria imagem, pela forma como quer ser representada e recordada, este álbum coloca-nos perante uma dimensão profundamente pessoal. Mais do que um simples arquivo familiar, estas imagens constituem um exercício de autorrepresentação, permitindo-nos aceder a uma esfera íntima feita de afetos, relações familiares, experiências quotidianas e memórias partilhadas.
As fotografias existem simultaneamente como objetos do passado e do presente. São testemunhos de momentos vividos, mas continuam a produzir significado no presente através das relações emocionais e memoriais que suscitam. Neste sentido, não funcionam apenas como registos documentais, mas também como dispositivos ativos de construção de identidade e pertença.
É possível pensar estas imagens enquanto atos performativos, na medida em que produzem uma afirmação da presença e da subjetividade daqueles que nelas se representam. Recordo aqui as reflexões de Tina Campt em Image Matters: Archive, Photography and the African Diaspora in Europe, onde a autora propõe compreender a fotografia como uma forma de reivindicação de existência, de pertença e de agência. A fotografia surge, assim, não apenas como documento, mas como prática social e política.
Identidade, memória e experiência histórica cruzam-se neste trabalho através da fotografia. Pierre Bourdieu escreveu, em 1965, que os álbuns de família exprimiam a essência da memória social. E é precisamente nesta articulação entre memória privada e história coletiva que a investigação de Marta Pinto Machado encontra um dos seus eixos centrais.

Esta relação entre experiência pessoal e narrativa histórica reaparece num segundo projeto, de natureza académica e ainda em desenvolvimento. A investigação parte de álbuns fotográficos existentes em contexto familiar, produzidos durante a guerra colonial em diferentes territórios africanos sob domínio português, e procura refletir sobre a forma como as histórias pessoais se cruzam com narrativas históricas, políticas e coloniais mais amplas. Aqui surge uma outra dimensão dos álbuns fotográficos: aquela em que as histórias pessoais se cruzam com as histórias oficiais e institucionais.
A fotografia aparece simultaneamente enquanto experiência pessoal e social. Cada imagem fixa um instante específico, mas deixa inevitavelmente fora de campo a pessoa que segura a câmara, os acontecimentos que antecederam o disparo e aqueles que lhe sucederam. Muitas destas fotografias tiradas em contexto da guerra colonial escaparam à censura do regime e circularam entre continentes como provas de vida, testemunhos de presença e formas de manter vínculos afetivos à distância.
Ao mesmo tempo, estes álbuns recordam-nos a dimensão material da fotografia. Não estamos apenas perante imagens; mas perante objetos que foram guardados, transportados, anotados, reorganizados e transmitidos entre gerações. Objetos que carregam marcas de uso, de circulação, de afeto e, por vezes, de esquecimento.
Nestes álbuns, tal como em muitos outros produzidos em contexto da guerra colonial – eu diria que todos nós já vimos ou temos pelo menos uma fotografia dos nossos pais, tios ou avós – surge inevitavelmente a questão da autoria das imagens. Quando as fotografias não são tiradas pelos próprios soldados, importa pensar na relação estabelecida entre quem fotografa e quem é fotografado, bem como nas condições em que essas imagens foram produzidas, circuladas e preservadas.

A questão da autoria torna-se particularmente interessante quando colocada entre diferentes escalas e contextos de produção: por um lado, os álbuns pessoais e familiares, marcados pela experiência íntima e afetiva; por outro, imagens produzidas em contextos institucionais, de encomenda ou de propaganda, onde a fotografia participa na construção de determinadas narrativas e imaginários políticos. Existe, assim, uma tensão muito forte entre a dimensão privada da imagem e a sua possível instrumentalização ideológica. E talvez seja precisamente nesse cruzamento entre arquivo íntimo e arquivo institucional que o trabalho da Marta Pinto Machado ganha densidade e complexidade.
Esta preocupação torna-se particularmente evidente em Presente, trabalho integrado na publicação Imaginários da Guiné-Bissau – o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955–1975), editada em 2025 por Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, e apresentado, nesse mesmo ano, nos Encontros da Imagem, em Braga. Partindo do espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo, fotógrafo português que viveu na Guiné-Bissau durante o período colonial, Marta Pinto Machado confronta-se com uma longa tradição de representação e objetificação de corpos negros na história da fotografia. O seu gesto consiste em devolver centralidade às mulheres retratadas, sem reproduzir a violência implícita nas condições em que essas imagens foram originalmente produzidas. Para isso, utiliza o livro Razões da Pertença de Portugal no Ultramar, de Marcelo Caetano, publicado em 1971, como suporte para um exercício de blackout poetry. Através da supressão e seleção de palavras, a artista desmonta a linguagem do discurso colonial e produz novas possibilidades de leitura.
Os olhares das mulheres presentes nas fotografias entram, assim, em diálogo com fragmentos de texto reconfigurados. Entre aquilo que a linguagem colonial procurava afirmar e aquilo que os rostos revelam, emerge uma contra-narrativa que desafia as hierarquias e os mecanismos de representação herdados do passado colonial.
E é nesta reinscrição e reinvenção de silêncios e presenças que chegamos a esta exposição, ‘Ceci N’est Pas Francisco’. Entre 1961 e 1962 não existem registos relativos a Francisco Mendonça, precisamente durante o período associado à tentativa falhada de fuga de estudantes da Casa dos Estudantes do Império através da Estrada Nacional 101. A travessia do rio Minho surge, no entender de Marta Pinto Machado, como metáfora da própria dissolução da memória histórica.
Importa sublinhar que a exposição não procura reconstruir exaustivamente a biografia de Francisco Mendonça, nem seguir uma lógica de investigação assente na procura de novos documentos ou testemunhos. Pelo contrário, assume a ausência como matéria de reflexão. O seu objetivo não é restaurar uma verdade histórica perdida, mas interrogar as condições que tornam certas histórias visíveis e outras invisíveis.
Esta questão é particularmente relevante quando pensamos o arquivo. Tal como argumenta Ann Laura Stoler, os arquivos coloniais não são meros repositórios neutros de informação, mas são dispositivos de sistemas de poder que classificam, organizam e excluem. Aquilo que encontramos nos arquivos é tão significativo quanto aquilo que deles foi removido ou nunca chegou a ser registado.
Nesse sentido, ‘Ceci N’est Pas Francisco’ propõe uma deslocação importante ao não procurar fechar a história nem produzir uma narrativa definitiva. Pelo contrário; abre espaço para imaginar outras leituras do passado. As imagens funcionam aqui como dispositivos críticos que levantam novas perguntas sobre memória, identidade, colonialismo e pós-colonialismo. Existe também uma tensão entre o documento histórico e a intervenção artística. O projeto questiona os limites do arquivo e da historiografia oficial, expondo as suas parcialidades e os apagamentos que produzem.
Parece-me particularmente importante esta inscrição de micro-histórias individuais — neste caso, a de Francisco Mendonça – na nossa memória coletiva, sobretudo quando partem de vozes esquecidas ou apagadas. A fotografia e o arquivo surgem como espaços onde memória e esquecimento coexistem, revelando a complexidade dos processos através dos quais construímos narrativas sobre o passado.
Roland Barthes, no célebre livro Câmara Clara, recorda que o século XIX inventou simultaneamente a História e a Fotografia. Talvez seja precisamente essa coincidência que continua a tornar tão fecundo o encontro entre ambas. A exposição de Marta Pinto Machado interroga a possibilidade de a imagem não apenas ilustrar a história, mas contribuir para a sua reinterpretação crítica.
Pode a imagem refazer a história?

Talvez não no sentido de restituir integralmente aquilo que foi perdido. Mas pode certamente criar condições para imaginar outras formas de relação com o passado. Pode tornar visíveis os seus silêncios, revelar as suas lacunas e questionar os seus mecanismos de exclusão. É precisamente isso que torna ‘Ceci N’est Pas Francisco’ um projeto relevante. Ao partir de uma história individual para refletir sobre questões coletivas, a exposição recorda-nos que os arquivos são inevitavelmente incompletos e que a memória é sempre um campo de disputa.
Esta exposição desafia-nos não apenas a olhar imagens e arquivos, mas a interrogá-los – e a interrogarmo-nos também sobre as histórias que herdamos, preservamos e contamos. E é talvez esse o aspeto que torna este trabalho relevante: o facto de não procurar respostas fechadas nem uma reconstrução definitiva da história, mas antes criar espaço para a dúvida, para a imaginação e para aquilo que permanece por dizer. Ao aceitar a incompletude do arquivo, Marta Pinto Machado propõe uma outra forma de relação com a memória – menos assente na ideia de verdade e mais aberta à complexidade, à fragmentação e às múltiplas camadas do passado.
Mais do que procurar respostas definitivas, o trabalho de Marta Pinto Machado abre espaço para a dúvida, para a imaginação e para o pensamento crítico. Convida-nos a olhar para as ausências não como simples falhas documentais, mas como lugares de produção de conhecimento. E lembra-nos que aquilo que permanece fora de campo pode ser tão revelador quanto aquilo que se encontra diante dos nossos olhos.