Cáucaso: a romã de doces estilhaços pós-soviéticos (parte 2)
A saída da cidade faz-se então por uma estação situada na outra extremidade, numa marshrutka, híbrido pós-soviético entre autocarro e táxi coletivo, em modo minivan, que opera em rotas predefinidas: por vezes tem horário, outras sai quando enche. Chapa em Moçambique, candongueiro em Angola, van no Brasil, travel na Indonésia, furgon na Albânia e assim sucessivamente por meio mundo — algumas vezes com os destinos anunciados em voz alta pelo cobrador, outras, mais discretas, como na Arménia, com placas impressas colocadas atrás do para-brisas (em arménio e cirílico apenas, claro está).
A Suíça arménia e a memória soviética
Dilijan, Suíça arménia. Verde abundante, relevo e trilhos pela montanha que dão que fazer a bichos-carpinteiros. Uma guesthouse simpática, dono prestável, mas nada de inglês; valha-nos o russo, que, por necessidade, já desenferrujei até ao básico+. O pacote linguístico permitiu combinarmos que o pai, por uma módica quantia, me levasse de carro a visitar uma igreja do século XIII nos montes, restaurada com dinheiro de mecenas do Emirado de Sharjah, vizinho do Dubai. Está em estado impecável e, para lá chegar e de lá voltar, percorre-se uma estrada cénica. Enquanto uma floresta serrana desfilava do lado de fora, dentro do habitáculo rolava uma conversa aos solavancos, mas sumarenta.
“No tempo soviético estava-se muito bem, havia de tudo nas lojas, toda a gente tinha o que precisava e ninguém passava mal, não havia guerra.”
“De facto”, pensei na altura, embora só mais tarde me tenha lembrado do Afeganistão, o que me teria permitido desafiá-lo polidamente. Falámos da guerra recente com o Azerbaijão, que comenta com a expressão que reconheço de outras paragens: a guerra como qualquer coisa feita pelos outros, os que mandam, mas pela qual nós, comuns mortais, temos de passar e, por vezes, morrer.
Dizia ele que, durante o serviço militar, tinha estado na Ucrânia, mas num regime de pensão completa impensável nos dias que correm. Atiro um “[isso é tudo muito bonito, mas] então e o KGB?”.
“Isso era muito mau”, responde. Dá-me as razões, mas o meu léxico fica muito aquém da compreensão e fico a patinar entre partículas desconexas: “as pessoas vinham aqui… por exemplo, turistas… problemas… não era possível…”.
KGB, prisões e, durante um período, gulags, imprensa e cultura espartilhadas, mordaças várias, grupos de burocratas privilegiados: tudo isto torna muito difícil que o copo chegue a meio cheio. Agora, por muito que pesquise nas conversas que tive até à data, com mais ou menos paciência, com saudosistas do Estado Novo, não encontro uma que tenha gabado a prosperidade material das pessoas comuns, numa altura em que não eram raras as histórias de famílias inteiras que partilhavam uma sardinha por refeição; nem uma conversa em que tenha sido gabada a paz, num período em que era comum perder familiares na tentativa frustrada do regime de esmagar as revoltas de libertação das colónias.
Acrescentem-se, por último, como elementos úteis a qualquer reflexão minimamente séria, as estatísticas que nos revelam que, antes da Revolução dos Cravos, uma em cada quatro pessoas era analfabeta, em contraste com os 0% na Arménia, assim como em toda a URSS, onde há muito se alcançara a proeza da literacia universal.
E, embora nós, millennials e geração Z, já tenhamos crescido com televisão a cores, a memória histórica da União Soviética foi-nos, regra geral, vendida dentro de uma embalagem de amnésia seletiva a preto e branco, pelos mesmos que nos tentaram vender o capitalismo como o fim da História, essa com H grande. Agora que já não havia Muro de Berlim — vamos pôr as palas etnocêntricas para não ver os outros muros, ainda maiores, que entretanto cresceram em Ceuta, no México ou na Cisjordânia —, convenceram-nos de que viveríamos ainda melhor do que os nossos pais e de que a prosperidade e a liberdade seriam sempre a somar. Omitiram a parte em que uns poucos, muito poucos, são cada vez mais, muito mais, prósperos e livres do que todos os outros.

Diplomacia alcoólica e Cortina de Ferro
E, porque ninguém é de ferro, um copo de vinho, por favor. Tinto, local, nada mau, mesmo para quem, não sendo fluente no idioma enológico, foi habituado a uma fasquia decente de Douros e Alentejos. São pelo menos seis milénios de experiência a pisar e fermentar uvas, a julgar pelos vários vestígios arqueológicos que sugerem que já se produzia vinho por estas bandas em 4000 a.C.
Outra encarnação local possível para as uvas é o conhaque — brandy para os galo-chauvinistas ou escrupulosos das DOC —, duplamente destilado, como manda a lei, em precioso combustível para o fogo aromático e amadeirado que aconchega a garganta. Consta que Churchill, na Conferência de Ialta de 1945, que dividiu o mundo em dois blocos nas décadas seguintes, terá ficado maravilhado com o conhaque Ararat, ao ponto de Stalin lhe passar a enviar anualmente remessas de 400 garrafas.
conhaque AraratDesconhecemos a importância real que esta diplomacia alcoólica possa ter tido para selar a Cortina de Ferro e deixar-nos a todos mais sóbrios e contidos, cada qual no seu bloco, a assistir, do lado de lá, a primaveras esmagadas pelas lagartas dos tanques na Europa de Leste e, do lado de cá, a revoluções aniquiladas por títeres fascistas na América Latina.
Mas, como não sou o velho Winston — ainda bem —, nem tenho as suas amizades problemáticas — ainda bem —, fico-me por uma garrafinha de 250 ml de conhaque envelhecido durante sete anos, pelo equivalente a dez euros, e rumo à Geórgia. Também não há transportes tabelados para sair dali, mas tudo se resolve no posto de turismo — sim —, onde me dão um número para o qual escrevo via WhatsApp e de onde prontamente me respondem: “Para Tbilisi amanhã, à hora x, no sítio y, é tanto”, com fotografia do veículo e respetiva matrícula.
Geopolítica para ficar zonzo
A Arménia faz fronteira com quatro países. Mas só podemos atravessar as fronteiras com dois deles, o Irão e a Geórgia, já que, com os outros dois, Turquia e Azerbaijão, apenas se atravessam fronteiras entre nós.
Já perto da Geórgia, a estrada ladeia o Azerbaijão, com um muro alto, farpado e bem bandeirado do lado de lá. Lembrete da guerra recente com o lado de cá, que só terminou em 2023, e, para quem se quer menos amnésico, lembrete dos imensos estilhaços que resultaram da fratura da URSS e da sua dança sangrenta e suada, por vezes animada por música tocada por terceiros.
Olhemos brevemente para a pista. A Arménia mantém boas relações com a Rússia, integrando com ela um mercado único. Pelo meio das duas está a Geórgia, com quem a Arménia também mantém boas relações, mas que, por sua vez, tem 20% do território talhado por duas repúblicas separatistas apoiadas pela Rússia, com quem a relação de vizinhança naturalmente não é brilhante, sobretudo desde o último conflito armado, em 2008.
carrossel parado
O Azerbaijão, por sua vez, não tem relações com a Arménia, mas tem-nas com a Geórgia e tem, sobretudo, grande afinidade linguística, militar e política com a Turquia. Com esta, a Arménia tem um passado de hostilidade e um presente de costas voltadas, não só, mas também, por causa do genocídio que a Turquia se recusa a reconhecer.
Entre o Azerbaijão e a amiga Turquia está a tal Arménia, à exceção de um exclave azeri encaixado entre os dois últimos — para facilitar a ideia de exclave, imagine-se o que Gibraltar é para o Reino Unido —; e, até à Rússia, apenas uma fronteira aberta, numa relação tensa, mas pragmática. Conseguiram acompanhar o baile ou ficaram zonzos?
Um please na fronteira
Chega o rio Debed e a fronteira, com a bandeira georgiana: a cruz vermelha de São Jorge sobre fundo branco, como na bandeira inglesa, mas repetida em miniatura nos quatro cantos, numa espécie de heráldica tipo lata de fermento Royal.
No guiché, duas mulheres da polícia de fronteira, mímica inexpressiva e voz imperativa, ríspida, sobranceira, nem sequer acolchoada por um pequeno please. Please would be nice, refilaria Vincent Vega no filme Pulp Fiction, ao que Mr. Wolf contrapõe com a importância superior da autopreservação. Conselho sábio para engolir pequenos e grandes sapos pela vida fora, quando se trata de lidar com pequenas e grandes demonstrações de poder.
Pela Geórgia fora, uma amostra minimamente substancial de pessoas seguiu quase invariavelmente o mesmo padrão: primeira abordagem ritualmente fechada, quando não antagónica, e, quando o contacto se queria ou precisava mais longo, salto quântico e inesperado para a curiosidade, o interesse e até, pasme-se, sorrisos, simpatia e palmadões nas costas.
Escondi inicialmente, numa pasta oculta, os meus parcos ficheiros mentais de palavreado russo, pensando que podia cair mal, além de ser inútil, num país que há muito, ao contrário da Arménia, abandonara o ensino regular do russo nas escolas e desmantelara a sinalética nessa língua um pouco por todo o lado. Rapidamente percebi que era excesso de zelo e que, sobretudo com os mais velhos, o russo era normal e até vital.
Para lá disso, há a língua georgiana, de inteligibilidade críptica para todos os demais, já que não é indo-europeia nem pertence a nenhuma outra grande família linguística, com uma paleta de sons guturais e um alfabeto próprio:
მაგრამ უფრო მრგვალი [NT: mais redondinho] မြန်မာလူမျိုးမဟုတ်ပေမယ့် နီးပါးပါပဲ
[NT: não birmanês, mas quase].
Tbilisi entre banhos e tecnofeudalismo
Tbilisi. Lea Guesthouse, em Abanotubani, literalmente “o bairro dos banhos”, tal como Alfama (al-hamma, “os banhos” em árabe). Ambos partilham a mesma centralidade histórica e turística nas respetivas cidades, embora, à superfície, Tbilisi pareça estar a meio gás, em comparação, no que toca a despejar residentes para dar lugar a Airbnbs e hostels, a trocar tascas por tostas de abacate com chá matcha e, em geral, a higienizar as ruas de autenticidade em troca de assepsias comodificáveis para turistas.
Acometeram-me, portanto, alguns pruridos na consciência de viajante responsável wannabe quando me dei conta do lugar que o R. marcara para ficarmos e do pequeno impacto a jusante que os nossos euros poderiam vir a ter no tecido da cidade. Peanuts, claro está, comparado com o que os poderes autárquico e central podem ou não fazer, lá, aqui e acolá.
baixo relevo soviético Tbilisi. O R. chega de Tóquio, via Shymkent, no Cazaquistão, com a SCAT Airlines, pretexto para uma ou outra piada escatológica. Vem furioso com o taxista que o trouxe do aeroporto e lhe cobrou quatro vezes o suposto, a julgar pelo preço sugerido na aplicação da Yandex, plataforma russa que comprou a Uber local. Pelos vistos, os senhores tecnofeudais ainda disputam servos do algoritmo por aqui.
Tbili significará “quente”, e os tais banhos terão sido seminais para a cidade: uma nascente quente e sulfurosa determinou a escolha do assentamento no bairro. O seu aproveitamento balnear e terapêutico, também como ágora social, já tinha sido descrito pelo veneziano Marco Polo, no século XIII. Perduram até hoje algumas construções persas e otomanas, ainda em pleno funcionamento.
A mais notável será talvez Chreli Abano, de meados do século XVII, com cúpulas de tijolo castanho a encapsular as salas vaporosas e uma entrada sumptuosa, em pórtico ogival, coberta de padrões intrincados de azulejo azul e ladeada por duas estruturas semelhantes a minaretes, em estilo iraniano — arrisco que possivelmente inspiradas nas mesquitas de Isfahan, no Irão, e Mazar-e-Sharif, no Afeganistão.

E, a propósito de mesquitas, um pouco acima sobra a mais sóbria Mesquita de Juma, com o seu pequeno minarete octogonal. Sobra porque existia outra na cidade, utilizada por xiitas até aos anos 1950, quando foi demolida para permitir a construção de uma ponte, ligando-se as margens pela heresia soviética. Daí resultou que os sunitas da Mesquita de Juma albergassem a comunidade recém-desalojada, dividindo o espaço com uma cortina ao meio até 1996, quando o imã decidiu retirá-la. Um raríssimo exemplo de culto conjunto xiita-sunita no mundo — e de uma cortina removida no Cáucaso.
Cortinas, muros e estilhaços soviéticos
Fora da mesquita, e de sapatos calçados, palmilham-se ruas onde saltam à vista as cortinas e os muros simbólicos, as bandeiras e os muros reais, ditados pelas contingências identitárias nacionais, temperadas com uma boa dose de geopolítica internacional. Murais de “Fuck Russia”, com alusões nacionalistas possivelmente avivadas pela debacle da curta guerra de 2008.
Na configuração da URSS, a República Socialista Soviética da Geórgia compreendia dois territórios autónomos povoados por etnias que ali eram maioritárias: a Abecásia e a Ossétia do Sul, dois previsíveis estilhaços da cluster bomb pós-soviética que prontamente rebentaram sob a forma de territórios separatistas de contornos precários.
No final da primeira década deste século, após uma aproximação do Governo georgiano à NATO, uma breve sequência de provocações militares e acusações de limpeza étnica da população osseta culminou numa guerra de duas semanas, vide operação de manutenção da paz, vide consolidação de facto da ocupação russa da República da Ossétia do Sul, antes definitivamente provisória, agora provisoriamente definitiva. Déjà vu?
Há também um mural, este oficial, dedicado ao patrono da Avenida George W. Bush, que, à data do conflito, talvez tateando o alargamento da esfera de influência, talvez soprasse ao pequenote caucasiano: “We’ve got your back!”. Do we? Ou só pagamos para ver até onde vai e onde fica o nosso arquirrival imperial, desgastando-o pelo caminho? Déjà vu? Qualquer semelhança com a atual e penosa realidade ucraniana é mera coincidência.
E, finalmente, bandeiras da UE, pertença por enquanto apenas desejada e almejada, mas que conta com mastros dedicados em edifícios públicos. Afirmação corajosa ou cringe, dependendo das sensibilidades.
Ex-ministério das estradas da URSS
Mural soviético
O Zé dos Bigodes, Khinkali, brutalismo e techno
Talvez seja irónico que um dos maiores e mais sanguinários arquitetos do que a URSS viria a tornar-se fosse ele próprio georgiano: Josef Dzhugashvili, mais conhecido como Stalin. Da asfixia da democracia interna às purgas da oposição bolchevique, do redesenho étnico da União, assente em deportações em massa e gulags, à heroica vitória militar sobre o nazi-fascismo, passando pelo “socialismo num só país”, que consagrou a visão e a divisão do mundo em blocos pseudoimperiais, como tanto convinha aos Estados Unidos, o Zé dos Bigodes marcou como poucos o século passado e deu um lastro imenso ao compreensível e conveniente descrédito a que o socialismo foi votado enquanto projeto de emancipação da humanidade. Bebé jogado fora com a água do banho, dirão alguns.
Reflexões que se fazem bem à volta de uma mesa com khinkali, uma versão local de dumplings, em saquinhos que se comem à mão, ou com toda uma série de pratos vegetarianos, pontuados aqui e ali por grãozinhos de romã. E, sem um pingo de nostalgia pelo estalinismo, desmoendo o repasto com as relíquias desse passado não tão distante que a cidade oferece.
Um baixo-relevo gigante de realismo socialista celebra postes de eletricidade e vindimas. Uma senhora idosa, com uma pequena banca na rua, a quem compro um atlas de estradas da URSS de 1979. E, joia da coroa, um exemplar glorioso de arquitetura brutalista: ex-ministério das tais estradas e atual sede de um banco, edifício composto por peças paralelepipédicas empilhadas na perpendicular, como num jogo de blocos de madeira, algumas cobertas de hera.
À noite, alguns gatos revelam-se ainda menos pardos. Um bar gerido e frequentado por russos fugidos do regime em geral e da recruta para a guerra em particular, que, a somar a alguns cartazes pela rua, faz supor uma relevante comunidade de exilados. Um troço de rua com bares LGBTQIA+, um deles com uma noite exclusiva para mulheres. Portas de WC recheadas de autocolantes de cultura e política.
E, finalmente, a discoteca Bassiani, situada no Estádio do Dínamo de Tbilisi, vencedor, em 1981, do extinto troféu europeu Taça das Taças. Debaixo da bancada, rola um techno de qualidade, nem tanto ao hard, nem tanto ao minimal. Meia-luz, ambiente sombrio, mas cosy, géneros, corpos e estilos diversos, vibes bem amistosas, sem aparentes exuberâncias de serotonina alavancada por perlimpimpins. Com a importante exceção de não se verem pessoas negras ou racializadas, como, aliás, em quase todo o lado por estas bandas, poderia perfeitamente ser Berlim, Londres ou Lisboa.
Alto Cáucaso em versão beta
Mais uma vez, as portas de saída do país parecem perras: o recém-retomado serviço de comboio para Baku, no Azerbaijão, é vedado às nossas nacionalidades. A única solução é voar, e os preços mais razoáveis surgem uns dias mais à frente, pelo que decidimos preenchê-los com uma road trip de carro alugado até ao Alto Cáucaso, junto à fronteira russa.
A estrada, que já constava no tempo da outra senhora e no respetivo atlas, era sofrível: 150 quilómetros em quatro horas desafiantes, a serpentear por entre curiosas caravanas de camiões com matrículas russas, turcas e até uzbeques ou quirguizes.
Trilhos mil - alto Cáucaso
À chegada, o sopé do Monte Kazbek — 5054 metros, mais 250 do que o Monte Branco — premeia a perseverança de condutor e passageiro com vales verdejantes, picos nevados e campos de gelo que se babam das alturas em glaciares, espreitando pelas encostas.
Uma pequena casa de madeira, aço e vidro, sozinha no vale, alugada por um senhor corpulento na casa dos sessenta. Nada de inglês. Inicialmente cerrado, exige reter um documento nosso como garantia; ao segundo dia, sobe o termostato da interação com os hóspedes, com pedidos suplicantes de desculpa pela desconfiança; na despedida, via WhatsApp, manda um emoji de beijo — aquele dos lábios com batom, entenda-se — que, por acaso, até faz um belo pandã com o cirílico do resto da mensagem.
De resto, uma excelente base para dias a percorrer magníficos quilómetros polvilhados de cascatas, nascentes sulfurosas ou um pequeno lago, a mais de 2000 metros de altitude, habitado por uma jovem e amistosa família canina.
O limite de um trilho fica num checkpoint militar junto à fronteira com a Ossétia do Sul. O limite de outro fica numa estrada onde a circulação é interdita, a julgar pelos sinais de trânsito, exceto para um ou outro “operador” local que explora essa interdição, cobrando pela travessia da estrada interditada.
Aquele que nos calhou tinha morado em Portugal e fez questão de nos guiar pela beira da ravina enquanto, no tablier, fazia uma videochamada com os antigos colegas de uma estufa em Famalicão, queixando-se placidamente do vocabulário português já esquecido, mas exibindo o seu ainda proficiente vernáculo — fenómeno possivelmente já explicado pelos neurolinguistas, este de alguns arquivos lexicais serem tão resistentes à erosão do tempo.
O R., entretanto, aproveita a proximidade com a Rússia para constatar que o Grindr está banido naquele país. Fazendo um swipe até outubro de 1917, quando soldados, operários e camponeses revolucionários ainda não dispunham de dating apps, toda a sexualidade consentida entre adultos passou a ser considerada um assunto privado, e não uma questão de Estado, sendo por isso descriminalizada pouco depois.
Ainda que seja preciso bem mais do que decretos dos sovietes para acabar com a homofobia, um século mais tarde esta parece não ter passado ainda da sua versão beta.
Caucasiano canino de altitude