A bitola de sentido entre Fany Mpfumo e o primeiro western

Quando, em 1947, Fany Mpfumo, a contar uns dezoito janeiros, tomou o comboio para Joanesburgo, talvez não cogitasse que a sua música viria um dia a integrar a trilha sonora de uma relíquia da imaginação traduzida em imagens para o cinema: o mais do que centenário The Great Train Robbery, de 1903. Talvez a razão — estou apenas a aventar hipóteses — seja o facto de não ter conhecido Diana Manhiça, fundadora do Kugoma, nem António Maxlhaieie, produtor oficial do fórum há três anos. E não os podia ter conhecido, como é óbvio. Mas é precisamente daí que brota a coisa mágica que é a arte: essa capacidade de capturar um tempo, um momento, e de o fazer comunicar com outros tempos e outros lugares.
Esta figura maior da música moçambicana, compositor de temas clássicos, foi invocada no cineconcerto da 16.ª edição do Kugoma, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo. É como que um palhar aos ancestrais — no imaginário xi-ronga, um gesto de pedido de permissão ou de celebração dos que já se foram.
Eternizada por Mingas, que elevou o tema a um dos mais célebres do património musical moçambicano, A Vasati Va Lomu tornou-se, no filme, o sabor sonoro de uma noite boémia que poderia ter acontecido algures no Infulene. Ao repertório juntou-se ainda Cecília, também de Fany Mpfumo, uma crónica cantada das vivências da periferia da então Lourenço Marques. Há quem diga que existiu, de facto, uma Cecília, uma mulher real na origem da canção. Trazida para o cineconcerto, essa possível biografia amplia o diálogo entre imaginários — o da película muda norte-americana e o da crónica cantada moçambicana —, sem deixar de questionar o sentido que a trilha sonora, que a música, dá à imagem que vemos na tela. Até que ponto não estará ela própria a narrar uma história paralela àquela que os fotogramas contam?
A escolha da película, feita pelo Max, é particularmente simbólica este ano, tendo em conta o contexto do fórum. The Great Train Robbery foi uma das primeiras obras a recorrer à montagem narrativa, aos cortes paralelos e a cenários reais. É também reconhecido como um dos filmes fundadores do western enquanto género, o primeiro a fixar-lhe uma gramática visual própria: o comboio, o assalto, a perseguição.
O filme representa uma espécie de «certidão de nascimento» da narrativa cinematográfica moderna. Projetá-lo assinala a ligação permanente de qualquer cinematografia às raízes da própria linguagem da imagem em movimento.

O Kugoma já integrava, nas edições anteriores, workshops e masterclasses, com financiamento da Multichoice Plus. Este ano, porém, ampliou o seu espectro através da primeira edição do FilmLab Moçambique, realizada em parceria com a Rede de Cinema e Audiovisual PALOP-TL.
Neste contexto, torna-se ainda mais simbólica a fusão de um clássico do cinema mudo com música ao vivo, executada por António Maxlhaieie, na meia bateria e voz; Fernando Maholele, na voz e mbira; Estevão Chissano, igualmente na voz e prato; e Mayuya Dinis, na guitarra acústica. Os arranjos ficaram a cargo de Gerson Mbalango.
Esta composição coletiva representa uma reinterpretação e apropriação do património cinematográfico global através da identidade sonora e cultural moçambicana e lusófona. O clássico deixa, com efeito, de ser um fóssil e passa a ser uma obra viva, aberta à reinvenção.
Há neste gesto uma espécie de subversão de um dos filmes mais emblemáticos do cinema ocidental e norte-americano. Diria tratar-se de uma ponte de desacato poético, capaz de subverter a hegemonia histórica do cinema dominante através da arte performativa. No fundo, uma tela grande projetava imagens a preto e branco que os músicos puseram a dançar ao som de melodias e ritmos herdeiros das raízes do cancioneiro do sul de Moçambique.
A sala estava quase cheia, olhando para aquele palco, vendo uma nova geração de artistas tomar o centro dos acontecimentos, conquistar visibilidade e procurar um caminho incomum para a consagração.
Não deixou de ser uma surpresa ver Max, como é tratado no circuito cultural, produtor desta edição do Kugoma, sentado à bateria, depois de o termos visto, na tarde anterior, a orientar um workshop sobre curadoria e pirataria.
O mesmo se pode dizer de Chissano, com quem me cruzei, há uns anos, num domingo, na Gulbenkian, em Lisboa, durante um concerto de música clássica — uma dessas rumarias. Tem vindo a consolidar-se como compositor de missas e de outras peças que integram o repertório do projeto Xiquitsi.
Saí da sala a pensar também num Magaíza Mandevo, personagem craveirinhesca, e no comboio de carvão que Hugh Masekela cantou em Stimela: o mesmo comboio, embora de outra bitola, que, em 1947, levou Fany Mpfumo a Joanesburgo. Por trás de ambos encontra-se a mesma engrenagem histórica: a WENELA, que geria o recrutamento de mão de obra moçambicana para as minas sul-africanas e que João Paulo Borges Coelho fez correr, como linha narrativa, em O Olho de Hertzog. As linhas férreas que atravessam o romance são, por conseguinte, as mesmas que atravessaram esta noite: não uma metáfora emprestada à história, mas a própria história a impor-se como metáfora. Entre o western nascente de Edwin S. Porter e o cancioneiro migrante do sul de Moçambique, ficou claro que aquele cineconcerto, na noite do Franco-Moçambicano, tinha encontrado a sua própria bitola de sentido.
