Improvisando
Tal e qual imigrante recém e oficiosamente desterrado, fui improvisando
tal e qual preto nado em Portugal a tentar encontrar-se, fui-me improvisando
toda a minha caminhada na escrita é um freestyle
começo com o rap por acaso, no entanto, rapidamente com ele me caso
não é difícil nos apaixonarmos por ele, o imponente, o orgulhoso,
o empoderador, o desafiante, o poderoso
a mim e a tantos deu voz
a mim e a tanto tornou eficientemente nós.
rimou as nossas inseguranças
cimentou as nossas certezas
integrou-nos em mais vertentes e assim, de repente,
não estamos tão sós
Tal e qual imigrante a precisar de chão firme
tal e qual Preta Tuga que sente que tranças e danças
dentro de si a afirme fui improvisando,
contando estórias de gentes de um já bem perto ali
que alguns recusam veemente que seja o nosso tão aqui
fui improvisando, falando de vidas que podiam sonhar mais,
que podiam alcançar mais não fosse o degrau gigantesco,
vulgo racismo estrutural
fadar-lhes que estão sempre a mais.
Tal e qual qualquer uma da Linha de Sintra,
fui seguindo o estilo pseudo-livre dos nossos momentos,
das esfuziantes alegrias e dos audíveis tormentos,
não vá alguém daqui a 500 anos soletrar online
que nem nunca existimos
então eu escrevi, eu escrevi porque nós resistimos
eu escrevo nos porque não obstante esse Tudo de Luta
há um tudo de nos celebrar, pois resistimos.
Titus Kaphar, Language of the Forgotten (2018)
Poema no seguimento do encontro “Vozes da afrodiáspora em Lisboa”, 11/11/2024.