Saliu Djau: de Bissau a Lisboa, uma vida de participação cívica

Nasceu no norte da Guiné-Bissau, fundou uma associação de jovens aos 17 anos e chegou a Lisboa aos 18 para estudar. Aos 31, Saliu Djau é gestor de projetos, passou pela banca, pelo combate à desinformação na Fundação Calouste Gulbenkian, e é cofundador da associação Isonomia, que organiza o Festival Política. Fala com mais à-vontade do que faz do que de si próprio, mas é no que faz que se percebe quem é.”

Saliu DjauSaliu Djau

Quando pensa na Guiné-Bissau, a primeira imagem que ocorre a Saliu Djau não é uma paisagem nem uma memória de família. “Penso num país que está em construção, um país novo, que está no seu processo muito inicial de realmente se afirmar como um Estado organizado.” É a resposta de alguém habituado a olhar para as coisas pelo que ainda falta fazer.

A ligação mantém-se, com familiares e amigos que lá ficaram, mas descreve-a com cuidado. A Guiné continua a ser-lhe muito próxima “no sentido da ligação com as pessoas que estão lá, não no sentido daquele patriotismo extremo”. Admite, ainda assim: “De vez em quando desencadeia saudades.” Da vida pessoal guarda o essencial para si. Diz que nasceu no Norte do país e pouco mais. É quando a conversa chega à comunidade, ao que se pode construir com os outros, que as respostas se alongam.

O privilégio de ter escola 

Tinha 17 anos quando, com colegas, criou em Bissau a Associação para o Progresso dos Jovens (APROJOV). Era uma associação de jovens da cidade, ainda que a ideia tenha nascido no contexto escolar. “A ideia era mobilizar colegas, amigos, jovens da zona para atividades culturais, sociais, e organizávamos inclusive pequenas formações, pequenas sessões de partilha e sessões de estudo.” Hoje olha para esse começo sem o engrandecer. Tudo aquilo, diz, “era numa fase muito humilde, sem a maturidade que se tem hoje”.

O que explica que um adolescente se ponha a organizar os outros? Djau responde pela condição em que estava. “Eu tinha escola à vontade, o que muitas pessoas não têm, na verdade.” Estudava numa escola “com alguma qualidade”, onde encontrou colegas com interesses parecidos com os seus. Num país com tantas necessidades, onde poucos têm acesso ao que ele tinha, quem tem a oportunidade sente vontade de retribuir.

Reconhece também o peso dos valores que recebeu desde pequeno. “Sempre aprendi de forma quase automática a questão da solidariedade, de lidar bem com outras pessoas sem ter de receber nada em troca. Ainda acredito nessas coisas.”

Um país que pede ação 

A Guiné-Bissau em que cresceu era, e continua a ser, “um país de muitas convulsões políticas e sociais”. “Já passou por muitas instabilidades, crises militares, já teve uma guerra civil em 1998”, enumera, referindo-se ao conflito de 1998 e 1999, e lembrando ainda os muitos anos de guerra colonial que o país carrega. “Isso são marcas que vão ficando e que também influenciam a população.”

Não viveu a guerra colonial, mas viveu os golpes de Estado e as crises que se seguiram a 2000. Vistas de dentro, as coisas têm outra escala. “É diferente quando estás lá, parece menos dramático.” Foi a escola que lhe deu distância para as ler de outra maneira: “Percebes que as coisas precisam de ação e precisam de alguém que as tente resolver.”

Desse percurso democrático “sempre ligado às instabilidades” nasceu o interesse que o levou a escolher Relações Internacionais. A política internacional, as políticas públicas e os assuntos diplomáticos eram, e são, os temas que lhe interessam.

Tornar-se minoria 

Terminado o 12.º ano, veio para Portugal com o objetivo de entrar na universidade. Viajou sozinho, para se juntar aos pais, que já cá viviam. “A adaptação teve um processo. Não foi automático”. Enquanto esperava pela equivalência dos estudos, teve de repetir o último ano do secundário, “para reforçar algumas coisas” e para se manter ocupado. Perdeu tempo, admite, mas ganhou familiaridade com um sistema de ensino diferente.

Nesses primeiros anos, a identidade tinha um único eixo. “Toda a minha personalidade era em torno de ser estudante. Se calhar agora mudou.” Quando lhe perguntam se sentiu racismo à chegada, não confirma nem nega. “É possível. Não me foquei nisso na altura.”

A explicação vem mais adiante, quando a conversa chega às referências. Em criança, nunca lhe pareceu estranho ver pessoas negras em posições de poder. “Era normal, estava em África.” Depois acrescenta: “Há coisas que se calhar fui descobrindo sobre a injustiça do mundo já crescido, mas tudo o resto, até a uma certa altura para mim, era o dia a dia. Eu nunca fui minoria, passei a sê-lo já adulto. Portanto, isso quer dizer também que quando me tornei minoria já tinha maturidade para lidar com o mundo.”

De referências fala com alguma resistência. “Não acredito em idolatrias”, avisa. Ainda assim, há um nome que surge sem esforço. “Amílcar Cabral é sempre uma referência e sempre fez parte do meu percurso.” Na escola, Saliu Djau estudou o líder da luta para a libertação, assassinado em 1973, meses antes de a Guiné-Bissau proclamar a independência, num país onde ele é “uma lição quase obrigatória, o pai da nação”. A forma como Cabral liderou a construção da Guiné e de Cabo Verde ficou-lhe como modelo, “como para muitos guineenses com interesse por estes temas”. Recorda também Kofi Annan (1938-2018), secretário-geral das Nações Unidas entre 1997 e 2006.

Aprender a responder a crises 

Djau licenciou-se em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa, e viveu a vida académica “com toda a intensidade”. Entre a licenciatura e o passo seguinte, passou um verão no quartel dos bombeiros de Queluz. Fez formação em técnicas de socorrismo, aprendeu protocolos de salvamento e de resgate, e estagiou numa ambulância do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), acompanhando ocorrências. Não voltou ao quartel, além de alguns workshops de atualização, mas a experiência deixou marca. “Isso influenciou-me também na escolha da pós-graduação.”

A mesma foi em Crise e Ação Humanitária, também no ISCSP. Queria perceber como funciona o direito internacional humanitário e, ao mesmo tempo, como se gere uma crise no terreno: a proteção civil, os mecanismos de prevenção, a operacionalização das respostas. Havia nisso uma razão que vinha de trás. “Venho de um país que recebeu ajudas humanitárias e passou por muitas crises que receberam respostas internacionais para tal.”

O percurso académico teve um desvio, e é o exemplo que dá quando se lhe pergunta por fracassos. Fez o primeiro ano de um mestrado em Estudos de Desenvolvimento, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), e não o concluiu. “Pode-se dizer que ‘fracassei’ nesse mestrado, tudo bem, mas foi um redireccionamento.” Saiu para estudar Tecnologias Digitais e Gestão de Negócios no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e, em 2025, concluiu um mestrado na mesma área no ISCTE Executive Education.

O único na sala 

O atual gestor de projetos candidatou-se ao BNP Paribas, um dos maiores bancos europeus, e entrou quando já tinha começado a pós-graduação. Saliu Djau trabalhou em funções de negócio, primeiro como Management Support Officer e depois como ESG Data e Digital Project Manager, no centro de sustentabilidade do banco. O resto fazia-se em paralelo.

Esse resto era o que mais lhe interessava. Afirma que há coisas que se mantêm constantes onde quer que esteja: “A questão de contribuir para a sociedade, a questão da justiça social, a questão de incluir, dar acesso e dar oportunidades a outras pessoas sempre que for possível.” O banco, que descreve como “uma empresa de referência” em diversidade e inclusão, permite que os trabalhadores criem associações internas, com membros e orçamento próprios. Djau aderiu a várias iniciativas e acabou por ajudar a criar uma, a BOLD, que hoje se intitula EthniCity.

Dessa associação, em cooperação com os executivos do banco, nasceu o Mosaico, um programa que promove a educação sobre inclusão, diversidade e multiculturalidade nas escolas. O projeto arrancou em outubro de 2023, já depois de Djau ter saído do banco, em cinco escolas-piloto das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, juntando o BNP Paribas, o Instituto Padre António Vieira e a Forum Estudante. 

Não exagera o alcance do que se consegue por dentro de uma grande instituição. “Nestes temas, os impactos que conseguimos ter acabam por ser demasiado pequeninos em relação àquilo que gostaríamos de ter.”

Foi nesses anos que ganhou consciência do que a sua presença significava. Não era a única pessoa negra no banco, mas quando são muito poucos, explica, “acabas por ser a única pessoa negra naquilo que estás a fazer”. Não lhe chama peso. “Obviamente aumenta a responsabilidade e algum sentido de compromisso.” Por isso, vai às escolas, onde ao longo dos anos tem dinamizado sessões sobre dignidade humana e direitos humanos. “Acho que pode fazer a diferença um miúdo acreditar que um dia poderá trabalhar para uma grande organização, ou que poderá fazer grandes coisas além dos sonhos básicos que muitos têm por falta de referências.”

Conclui com uma franqueza que explica muito da sua reserva: “Às vezes, temos de ser nós a referência para os miúdos, por mais que não gostemos de falar de nós.”

 

Fora do currículo 

Há quase uma década que Saliu Djau aparece também em campanhas publicitárias, em vídeo e em fotografia. Não lhe chama trabalho nem hobby. “É uma forma de trabalho que não é séria, em que vou mais por motivos de aventura.”

Num meio conhecido por ser difícil, assume não ter sentido obstáculos, pelo simples facto de nunca lhe ter dado extrema importância. Em cada campanha repete a mesma ideia: aquele pode ser o último trabalho “e está tudo bem”. O que ali encontra é descanso. “Fico distraído e é diferente, não tem carga cognitiva. Quando tenho de filmar, não tenho de pensar.”

Bombeiro, modelo, ator. Quando lhe pedem que explique o que une experiências tão distantes do resto do currículo, a resposta é curta. “Sou curioso e gosto de experimentar a vida.”

 

O que a tecnologia acelera

Em janeiro de 2023, trocou o banco pela Fundação Calouste Gulbenkian para trabalhar no European Media and Information Fund, um programa de âmbito europeu que apoia o combate à desinformação e a promoção da literacia mediática. O fundo, que tem a Gulbenkian e o Instituto Universitário Europeu como parceiros, arrancou com uma contribuição de 25 milhões de euros da Google. Financia projetos de verificação de factos, como o Polígrafo, e iniciativas que trabalham com cidadãos e escolas para capacitar as pessoas na forma como “digerem a informação”, sobretudo a que circula online. Djau geriu projetos de investigação e estudos sobre as dinâmicas de desinformação em vários países europeus. Saiu em julho deste ano e irá regressar brevemente ao BNP Paribas.

A desinformação costuma ser discutida como um problema de tecnologia, mas Saliu corrige esta formulação. “Não é só um problema tecnológico, mas faz parte e é acelerado pela tecnologia.” Qualquer resposta tem de contar com as plataformas, os algoritmos e a velocidade a que tudo circula. “A tecnologia acelera a informação e a desinformação.”

Saliu DjauSaliu DjauQuando vivia na Guiné, não pensava nestes termos. Hoje tem “a noção de que há desinformação em todo o lado, incluindo na Guiné”. Sobre as narrativas que visam imigrantes e afrodescendentes em Portugal, começa por avisar que não é um tema que tenha trabalhado diretamente. Dá, ainda assim, a sua leitura. Uma das mais presentes, sobretudo em momentos politicamente intensos, “é a tentativa de associar os imigrantes com a criminalidade ou com a dependência perante o sistema da Segurança Social”. São “narrativas falsas que tentam criar sentimentos de ódio”, considera.

 

Um palco para a democracia 

Em paralelo com tudo isto, Djau é cofundador da Associação Isonomia, a organização responsável pelo Festival Política. O evento, criado por Rui Oliveira Marques e Bárbara Rosa, começou em 2017 no Cinema São Jorge, em Lisboa. Djau juntou-se-lhes no final desse ano e faz parte da equipa desde 2018.

O propósito é criar um espaço para debates e conversas sobre democracia, participação cívica e direitos humanos, através de workshops, filmes, documentários e outras atividades. O festival cresceu e saiu de Lisboa. Este ano, depois da edição lisboeta em setembro, passa por Loulé, em outubro, e por Coimbra e Torres Vedras, em novembro.

O que lhe falta? Primeiro, território. “Há muito mais cidades em Portugal onde faria sentido o festival chegar.” Depois, algo mais difícil de resolver: saber o que acontece às pessoas depois de lá passarem. Que ligações nascem, que ideias se multiplicam, quem sai dali com vontade de criar alguma coisa. “Acreditamos que estamos a ter esses impactos nas pessoas, mas não os conseguimos registar.”

 

O que falta construir 

Saliu Djau já disse, noutra ocasião, que o altruísmo nunca é puro. Explica agora o que queria dizer. “Quando contribuímos para a sociedade, estamos a contribuir também para nós.” Quem é ajudado pode vir a ajudar outros, e há no próprio gesto “um sentimento de satisfação que já é uma forma em que beneficiamos da coisa”. O que nunca esperou foram retornos imediatos ou materiais.

Acredita que o seu trabalho tem efeitos, mas recusa fazer disso uma contabilidade. “Não podemos estar obcecados pelos resultados daquilo que fazemos, não é suposto.”

Aos 17 anos, bastava-lhe uma associação de jovens e algumas sessões de estudo. Aos 31, a ambição tem outro tamanho. “Gostava de conseguir ter a oportunidade de continuar a fazer coisas úteis, e se calhar numa maior dimensão. Se puder, ao invés de construir uma associação, construir escolas ou hospitais.” Quer também chegar a um ponto em que possa “influenciar políticas públicas” que respondam às necessidades das pessoas.

Até lá, resume a sua maneira de estar numa frase que serve para qualquer pessoa: “Cada um faz o que pode, quando pode e com as capacidades que tem, esperando que outras pessoas também façam. É assim que se contribui para a sociedade.”

por Mariana Moniz
Cara a cara | 8 Outubro 2026 | Guiné Bissau, Saliu Djau