O que acontece aos africanos que tentam migrar pela via legal?
Sou gambiano e quero fazer documentários sobre o meu país. Quando recebi o e-mail a comunicar que tinha sido aceite no curso de Cinema e Televisão da Escola de Tecnologias Inovação e Criação (ETIC), em Lisboa, senti que esse projeto estava mais perto de se tornar realidade.
Em fevereiro, tive uma entrevista com Pedro, o coordenador pedagógico do curso. Falámos do programa: realização, montagem, escrita de argumento, som, emissão em direto, investigação, desenvolvimento, divulgação e distribuição. Era precisamente a formação abrangente que procurava. Também perguntei pelas datas de início das aulas, pelo alojamento e pelo apoio disponível para estudantes internacionais. Precisava dessas informações para preparar a viagem e o pedido de visto.
Tinha pesquisado escolas na Europa e na Ásia antes de escolher a ETIC. O curso era lecionado em inglês, língua que falo desde criança, e conduzia a uma qualificação BTEC de nível 5 em Cinema e Televisão. Na minha carta de motivação, expliquei o que pretendia fazer com essa formação. Venho da Gâmbia, o menor país da África continental, e acredito que as nossas histórias continuam pouco representadas no cinema e na comunicação social. Queria adquirir competências para realizar documentários sobre o meu país, apresentá-los em festivais e procurar que fossem exibidos por canais de televisão.
Essa ideia surgiu durante a pandemia de COVID-19, quando deixei o meu trabalho como subgerente da receção de um hotel. Os turistas faziam-me muitas perguntas sobre a Gâmbia. Percebi que queria contar essas histórias por mim próprio.
A entrevista correu bem, mas, no dia seguinte, Pedro propôs-me uma alternativa: cursos mais curtos, em que realização, montagem, câmara e som eram ensinados separadamente. Recusei. Eu tinha explicado que precisava de compreender o processo de criação de um filme no seu conjunto, antes de decidir em que área me especializar. Viajar para Portugal e suportar os custos das propinas e da estadia para regressar sem a qualificação que procurava não fazia sentido para mim. Mantive, por isso, a candidatura a Cinema e Televisão.
Foi-me pedido que realizasse uma curta-metragem como parte da avaliação. Duas semanas depois, soube que tinha sido aceite. Partilhei a notícia com a minha família na Gâmbia, nos Estados Unidos e no Reino Unido. Tinham acompanhado as dificuldades que enfrentei ao fazer o meu primeiro documentário e sabiam o que aquela oportunidade significava para mim.
PAPER/work,Tahir Karmali
Pagar para saber quando começavam as aulas
Depois de ser aceite, voltei a pedir as datas de início das aulas e informações sobre alojamento e apoio ao estudante. Para requerer um visto, precisava de organizar os documentos e de apresentar um calendário ao meu patrocinador. Pedro respondeu que primeiro teria de concluir a matrícula, pagando uma taxa não reembolsável de 700 €. Só depois receberia informações da equipa de acolhimento e teria a vaga definitivamente garantida.
Achei estranho não me poderem indicar uma data de início antes do pagamento. Ainda assim, entre março e junho recebi mensagens da ETIC sobre a candidatura, incluindo uma oferta de assistência, e mantive a confiança na escola. Entretanto, comecei a procurar informações junto dos serviços de vistos e da Embaixada de Portugal. Não conhecia os procedimentos portugueses e queria preparar o pedido com antecedência.
Paguei os 700 € para concluir a inscrição e voltei a solicitar as datas. Segundo me tinha sido explicado, esse pagamento garantia a vaga e permitiria receber as informações necessárias. No entanto, continuaram sem me indicar o dia em que as aulas começariam. A escola disse-me então que, para confirmar a matrícula e receber os documentos, teria também de pagar 30% da propina: 3492 €.
Já tinha comprometido 700 € numa taxa não reembolsável e queria avançar com o curso. Paguei os 3492 € e enviei imediatamente os comprovativos. Poucos dias depois, recebi um e-mail a indicar um saldo em dívida. A situação causou-me grande ansiedade; contactei a escola e Pedro, e o assunto acabou por ser resolvido. Recebi os documentos de admissão e pedi, mais uma vez, a data exata de início das aulas.
A primeira resposta foi que o curso decorria «de setembro a julho». Era uma indicação geral, quando eu precisava de datas concretas para tratar do visto, da viagem e do seguro. Tinha pedido essa informação desde fevereiro e entendia que me fora dito que a receberia após os pagamentos. Segundo a informação então disponível no site da ETIC, o curso começaria em outubro. As datas exatas só me chegaram sete dias depois de ter pago, no total, 4192 €.
É esta sequência que considero difícil de aceitar: fiz pagamentos sucessivos com a expectativa de obter informações essenciais para frequentar o curso, mas continuei sem as receber no momento em que delas precisava. Guardei a correspondência e os comprovativos relativos a todo o processo.
Um estudante internacional à procura de apoio
Enquanto tratava do visto, estive em contacto com a VFS no Senegal e com a Embaixada de Portugal. Não conhecia o sistema de ensino português nem os procedimentos consulares. Esperava que a ETIC me ajudasse a esclarecer o que cabia à instituição confirmar e que documentos podia fornecer.
Encontrei informação sobre uma via aplicável a pedidos de visto de estudante e pedi apoio à escola. A resposta foi que os estabelecimentos de ensino portugueses não intervêm em processos de visto. Eu não tinha pedido à ETIC que apresentasse o requerimento por mim: sabia que essa responsabilidade era minha. Queria perceber se podia confirmar a minha admissão junto das entidades competentes e prestar os esclarecimentos institucionais necessários.
Recebi os documentos de admissão e informação sobre alojamento, mas senti falta de orientação sobre os passos seguintes. Desde a candidatura que a escola sabia que eu vinha da Gâmbia, que nunca tinha estado em Portugal e que precisaria de um visto. Gostaria que o alcance do apoio prestado a estudantes internacionais me tivesse sido explicado antes de assumir estes compromissos financeiros.
Quando se tornou difícil obter um agendamento para o visto a tempo do início das aulas, procurei soluções com a ETIC. Propus entrar no curso em janeiro de 2027 ou adiar a frequência para o ano letivo seguinte. Perguntei também que outras possibilidades existiam para não perder a quantia já paga.
A escola respondeu que, se entrasse mais tarde, perderia demasiado conteúdo, e que o adiamento para o ano seguinte não era possível. Segundo a resposta que recebi, teria de apresentar uma nova candidatura e voltar a pagar. Questionei essa posição porque o contrato do curso prevê períodos de recurso ou repetição de avaliações e, na minha leitura, não exclui expressamente um adiamento. Compreendo que entrar meses depois do início possa criar dificuldades pedagógicas; o que pedi foi que a minha situação concreta fosse avaliada e que me fossem explicadas as opções disponíveis.
Não decidi desistir do curso. Queria frequentá-lo, mas dependia de um processo de visto cujo calendário não controlava. Por isso, considero desproporcionado perder a totalidade dos 4192 € sem ter assistido a uma aula ou utilizado equipamento e recursos pedagógicos da escola. Solicito que a ETIC reavalie o meu caso e esclareça, de forma fundamentada, as condições em que retém a taxa de inscrição e a parte da propina já paga.
PAPER/work, Tahir Karmali
A história que quero filmar
Estou a desenvolver um documentário chamado CEUTA: Borders and Bureaucracies, a partir desta experiência. Nos relatos sobre a migração africana para a Europa, vemos muitas vezes as travessias perigosas do Mediterrâneo. Quero também olhar para quem tenta seguir a via legal: candidata-se a uma escola, reúne documentos, paga milhares de euros e enfrenta prazos consulares e decisões administrativas que podem impedir a viagem.
Senti-me particularmente vulnerável neste processo por ser gambiano e por depender de um visto para estudar em Portugal. Essa experiência levou-me a perguntar se outros estudantes africanos enfrentam dificuldades semelhantes e que proteção têm quando pagam antecipadamente por um curso que, por razões ligadas ao visto, acabam por não conseguir frequentar.
Peço que a minha situação seja examinada à luz dos documentos e da cronologia completa: o que me foi comunicado antes de cada pagamento, quando recebi as datas necessárias ao pedido de visto, que apoio estava previsto para estudantes internacionais e que soluções foram consideradas quando o agendamento se revelou difícil. Tenho a correspondência, os comprovativos de pagamento e o contrato. Quero uma resposta justa para o meu caso e mais clareza para os estudantes que venham depois de mim.