Manjacos de Caio

«Em meados de 1974, deu-se um renascimento em Badú, com um novo ambiente e com novas amizades. O seu avô, Manél Dacurim, queria mandá-lo de propósito para casa do seu irmão Mário em Bissau, porque achava que ele impedia o casamento da sua filha, Toié, com o seu marido tradicional, Djon. Isto porque achava que, tendo o Badú por perto, Toié nunca iria tirar da cabeça a sua trágica história com Justin, o pai de Badú. O outro impacto desse casamento era o próprio Justin. Apesar de seriamente ameaçado pelo pai de Toié, ele tentava manter uma ligação com ela através da sua amiga Amê. Aliás, às vezes até chegava a deslocar-se à povoação de Binhangai, onde Toié efetivamente residia com Badú.» (A Vida É Madrasta, Capítulo I, p. 5)

A Vida É Madrasta, de Amélia da SilvaA Vida É Madrasta, de Amélia da SilvaA guineense sentiu-se aliviada, bem-disposta, alegre por ter escrito sobre os manjacos de Caio, onde nasceu, em 12 de novembro de 1974, e viveu a infância. 

Para além dos Manjacos, também conhecidos por manjaca, manjiak, manjaku, manjack, mandyak, mandjaque e mendyako, encontramos na Guiné-Bissau vários grupos étnicos, nomeadamente os Fulas, os Mandingas, os Balantas, os Diúlas, os Papéis, os Mancanhas, os Bijagós, entre outros povos. Os manjacos emigram para França, Espanha, Gâmbia, Bélgica, Portugal e Senegal, país onde vive uma comunidade de manjacos, nomeadamente em Ziguinchor. Para além de Caio, encontram-se manjacos em Geta, Barra, Tchûr, Jaleques e Cathonbe-tam.

É de Cathonbe-tam que são originários os avós paternos de Amélia da Silva, que, aos 15 anos de idade, foi viver para Bissau, dando início a um percurso de vida que lhe permitiu continuar os estudos na Escola Dr. Agostinho Neto e frequentar os cursos de formação em Oficina de Biblioteca e Tecnologias da Informação e Comunicação, Oficina de Actores, Formação de Biblioteca e Documentação e Oficina de Formação Teatral. Colaborou em espetáculos como atriz, figurante e bailarina, nomeadamente em peças de teatro e filmes realizados em Portugal, no Senegal, em Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e na Guiné-Bissau, entre 1991 e 2011. Amélia da Silva participou nos filmes Nha Fala, Os Olhos Azuis de Yonta, Máscara, Pó di Sangue de Flora Gomes (nome artístico do cineasta guineense Florentino Gomes (Flora Gomes), com formação em cinema no Instituto Cubano de Artes e Cinematografia e no Senegal). Amélia da Silva participou também nos filmes Djitu Tem Ku Tem, de Suleiman Bial, e Veneno do Sol, de Victor Silva, alicerçado no romance de Fernanda de Castro, que retrata a Guiné no tempo dos portugueses. 

Pedro da Silva (1924-1999), pai de Amélia da Silva, descende de uma linhagem importante da sua aldeia natal, Binhangai. Foi simpatizante do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e, para não ser preso pela polícia política portuguesa, a PIDE/DGS, teve de fugir para o Senegal, país vizinho, onde abriu mercearia, boutique e restaurante. Antes de se radicar definitivamente naquele país, Pedro da Silva viveu entre os dois países, tendo, mais tarde, optado por viver em Dakar, onde continuou com os seus negócios. Sabado Gomes (1952-), mãe de Amélia, é natural da aldeia de Tubébe, localizada a 4 km da aldeia onde nasceu Pedro da Silva, cuja família é proprietária de terras para cultivo de caju, amendoim, feijão e outros produtos. Sabado Gomes, originária de uma família pobre, aos 15 anos, passou a ser mais uma das mulheres de Pedro. A tumba é o lugar sagrado entre os manjacos, onde os anciãos tratam assuntos importantes da comunidade, como a apresentação da noiva (na noiba) para o casamento com o noivo (ca nimum), escolhido pela família.      

      Com a chancela Chiado Books, publicou em 2019 o seu primeiro livro na coleção «Viagens na Ficção» com o título A Vida É Madrasta. As cenas do livro, com 44 páginas e 7 capítulos, cuja escrita foi iniciada na década de 90 e concluída em 2000, têm lugar em Bissau e no Senegal, tendo a autora contado com o contributo e estímulo do guineense Amílcar Fernandes, do encenador polaco Andrzej Kowalski e da atriz guineense Sandra Semedo. 

Na realidade, o livro é inspirado em Sabado Gomes, que, aos 15 anos de idade, se tornou esposa, por obrigação, do seu marido tradicional, Pedro da Silva. Este teve outras nove mulheres, sendo Sabado Gomes a décima, com a qual teve cinco filhos, dois rapazes e três meninas, uma das quais Amélia da Silva. Esta, em 2010, emigrou para Lisboa, cidade onde reside atualmente com as duas filhas, Lea Mendy, com 21 anos, e Deusa Mendy, com 13 anos. Como Amélia da Silva não conseguiu trabalho na área em que tinha formação, começou por trabalhar em limpezas e restauração. Amélia tem também mais 18 irmãos que nasceram das outras mulheres do seu pai, sem contar com os que faleceram.

Os filhos, na cultura manjaco, são importantes, pois fortalecem a relação entre homem (catchituram) e mulher (butchagra). No caso de uma mulher não poder ter filhos (como aconteceu com a tia de Amélia, que não teve filhos biológicos), acaba por receber do marido, para ela criar, um filho que ele tenha tido com outra mulher, passando a ser chamada “mãe pequena”.

O livro de Amélia da Silva chama a atenção para a existência da poligamia entre os manjacos, que atribuem muita importância ao nascimento (cabuka), ao casamento (benime/bnime) e à morte (pudjes). É uma homenagem às mulheres da Guiné que perderam os seus filhos (fidjos) na luta pela independência política, por terem criado os netos, por terem ajudado a transportar material de guerra, a preparar comida e a procurar água potável para os guerrilheiros, entre outras atividades. Amélia da Silva, maltratada em criança pelas madrastas, não aprova a poligamia, nem o facto de a mulher casar por obrigação, sendo defensora de que a mulher e o homem possam escolher com quem casar. Defende que os homens e as mulheres devem ter apenas um parceiro, seja sexual ou romântico, durante o período em que coabitam; não se opõe nem critica o relacionamento entre gays e lésbicas, apesar de não ser comum este tipo de relacionamento entre os manjacos, “senão um homem não teria muitas mulheres”, como afirma Amélia da Silva. 

Os manjacos são considerados fidjos di tchon (filhos da terra), porque já aí viviam quando os europeus chegaram à costa oeste africana. Alguns estudos disponíveis sobre os manjacos não deixam de lado a geografia, a flora e fauna, a poligamia e a natalidade, bem como a vida social, o regime de propriedade e o direito consuetudinário. 

O tema principal do livro de Amélia da Silva é a escolha de noivos pelas respetivas famílias, sendo que a rapariga recém-nascida é eleita para ser noiva de um determinado rapaz, ou oferecida como noiva a um menino pela família. São realizadas algumas cerimónias que juntam homem e mulher: num círculo, dançam com folhas de palmeiras; homens e mulheres vestem lindos trajes e missangas, sendo os seus corpos untados com creme de óleo de palma, preparados para a cerimónia. A posição da mulher manjaca, dadas as novas formas de organização da vida familiar, tem permitido questionar e abandonar práticas ancestrais como a poligamia. Atualmente, entre os manjacos, muitos são os jovens que escolhem com quem casar e não os seus familiares.   

Cerimónia do noivado, em Caio. As missangas são oferta do noivo. Espólio de Amélia da SilvaCerimónia do noivado, em Caio. As missangas são oferta do noivo. Espólio de Amélia da SilvaA maior parte das personagens masculinas e femininas do livro é guineense. As personagens masculinas são: Amílcar, Badú, Djon (João, em português), Elísio, Justin, Manél, Mário, Pepito, Mancany, Papis; as femininas são: Amê, Apíli, Júlia, Toié, Nanque e Rose. Entre as personagens, também encontramos um português, Luís Carlos, dono de uma loja em Bissau. 

Toié vivia em Binhangai, com o seu pai Manél Dacurim, com a madrasta Nanque e os irmãos Badú, Pepito, Papis e Jorge, e já tinha o seu marido tradicional, Djon, considerado o genro legítimo, mas mantinha um relacionamento com Justin. Toié era amiga de Amê, irmã de Rose e comerciante de frutas e legumes, e estabeleceu uma grande amizade com os irmãos que eram filhos da sua madrasta. Esta ia informando o marido Manél sobre a relação entre Toié e Justin.

A partir de um certo momento, o relacionamento amoroso entre Toié e Justin impedia que Djon fosse convidado por Manél. Djon fez parte do grupo que agrediu Justin após Manél ter «decidido que o Justin ia morrer logo no dia seguinte e iam trazer a Toié para casar forçosa e definitivamente com Djon, sob vigilância do grande irã. Mancany, ao ouvir isso, foi precipitado para o quarto onde estava o Justin. — Precisas de comer para ficares mais forte…» (p. 24) 

Na verdade, o irã (utchai), na cultura manjaco, é o antepassado que se manifesta nas várias cerimónias, pois é considerado o elo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. O sujeito indicado para receber as mensagens do irã é o namanha. O irã pode ser considerado um espírito bom ou um espírito mau. O espírito bom protege a comunidade e os seus membros, e o espírito mau deve ser afastado, uma vez que causa problemas e é usado para fazer mal. 

Manél Dacurim sabia do relacionamento entre Toié e Justin. Manél contava com informações da sua esposa Nanque. O velho Manél, certo dia, convidou Djon e Justin, após ter engendrado o plano para o espancamento de Justin. Depois de espancado, Justin foi colocado entre patos e galinhas, onde devia ficar até amanhecer. 

Enquanto Manél se preparava para ir buscar Toié, esta, sabendo dos planos paternos, refugiou-se em casa do seu tio Mário, irmão de Manél, em Bissau, onde trabalhava Rose, irmã de Amê, que veio a casar com o seu patrão português, Luís Carlos, dono de uma loja que comprava fruta e legumes de Amê.

Justin, pai de Badú, sofreu imenso com as consequências do espancamento de que foi alvo, chegando ao ponto de necessitar de ajuda para andar de um lado para o outro. Toié e Amê visitaram Justin no hospital. Antes de ser hospitalizado, Justin foi tratado com medicamentos tradicionais pelo seu amigo Mancany, que também lhe levou comida, água e fruta. 

Festa de noivado, em Caio. Catchituram (homem) e butchagra (mulher), de mãos dadas, acompanhados pela melhor amiga, que canta, dança, borrifa água ao rapaz. Espólio de Amélia da SilvaFesta de noivado, em Caio. Catchituram (homem) e butchagra (mulher), de mãos dadas, acompanhados pela melhor amiga, que canta, dança, borrifa água ao rapaz. Espólio de Amélia da Silva

De facto, Amê não era bem vista por Manél, uma vez que era portadora de notícias, correspondência e encomendas que Toié trocava com Justin, neto da avó Júlia, que, com 79 anos de idade, pisava mandioca seca e a transformava em farinha para fazer cuscuz, com ajuda de Apíli. Esta, após a morte da avó Júlia, recebeu Justin em sua casa.

Claro que o tio Mário, proprietário rural com plantações de fruta, com inclinação para a política, fez com que fosse atribuída a responsabilidade da gestão da propriedade rural ao seu filho Amílcar, a quem coube o encargo de vender mangas e laranjas para Dakar, capital do Senegal. Para aí se deslocou algumas vezes com o seu sobrinho Badú, que estudou medicina em Cuba graças a uma bolsa de estudo conseguida pelo tio Mário. No seu regresso ao seu país natal, Badú foi trabalhar com o Doutor Elísio, na clínica ABC, onde Justin foi tratado depois de ter sido espancado e salvo pelo seu amigo Mancany. Este levou Justin para o Senegal, onde vivia o seu pai, proprietário do restaurante-bar Lambaipidjinão. «Surpreendido com a fuga, o velho Manél entrou em estado de frustração, pois não acreditava que tudo aquilo estava a acontecer na realidade com ele, talvez estivesse a sonhar.» (p. 26)

Amélia da Silva, no Carnaval de 2001, em Bissau.Amélia da Silva, no Carnaval de 2001, em Bissau.

Trata-se, portanto, de um livro escrito por quem recusou o noivo tradicional que lhe estava atribuído quando vivia em Bissau, onde começou a ler os primeiros livros, conseguidos nas viagens que o cineasta Flora Gomes realizava ao estrangeiro. Entre os vários livros que a autora leu, destacamos O Silêncio das Lágrimas, de Fauzuya Kassindja, que permitiu a Amélia da Silva realizar uma viagem cultural entre o Gana e o Togo, e ainda o livro Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, no qual Eugénio Fontes, apaixonado por Olívia, casa com Eunice, filha de um pai rico. Esta obra foi uma das fontes de inspiração para escrever.

Para concluir, uma das lições que tiro da leitura do livro é o facto de Amélia da Silva questionar a poligamia, uma prática bastante enraizada entre os manjacos, que não dignifica a mulher, nem respeita a sua escolha e liberdade individual.

 

 

 

 

 

por Carlos Alberto Alves
A ler | 2 Junho 2020 | Amélia da Silva, Guiné Bissau, manjacos, poligamia, ritual