Kikongo, língua, história e identidade, uma conversa com Pedro Armando
“Estudar línguas africanas hoje como o kikongo é fundamental por várias razões que vão muito além da comunicação”
O estudo da língua Kikongo vai além do simples exercício linguístico, constitui uma via de acesso ao conhecimento de uma realidade histórica e cultural profundamente enraizada na África Central. Integrado no vasto grupo das línguas Bantu, o Kikongo é falado por milhões de pessoas em países como Angola, República do Congo e República Democrática do Congo, sendo a língua tradicional do povo Bakongo.
Mais do que um meio de comunicação, o Kikongo é um elemento fundamental de identidade, memória e continuidade. Ainda assim, enfrenta os desafios do mundo atual, como a pressão de línguas mais dominantes. Foi neste contexto que conversámos com Pedro Armando, professor de Kikongo na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciado em Línguas e Literaturas Africanas e mestre em Linguística Bantu, para compreender melhor a história, a estrutura e o futuro desta língua.
Mapa de falantes de Kikongo
Como definiria o Kikongo para alguém que nunca teve contacto com a língua?
O kikongo é uma língua africana do grupo bantu, falada principalmente na região da África Central entre os países: Angola, República Democrática do Congo e República do Congo.
Qual a importância histórica do Kikongo, particularmente no contexto do antigo Reino do Kongo?
No Reino do Kongo (séculos XIV–XIX), o kikongo funcionava como língua comum entre diferentes regiões e povos. Isso ajudava a manter a coesão de um território vasto e relativamente centralizado, com capital em Mbanza Kongo (atual Angola). Era essencial para a administração, diplomacia interna e organização do poder.
O Kikongo pertence ao grupo das línguas bantu. O que caracteriza este conjunto de línguas e onde se insere o Kikongo dentro dele?
As línguas bantu formam um dos maiores conjuntos linguísticos de África, pertencendo à família maior das línguas nigero-congolesas. O kikongo é um membro importante desse grupo e partilha vária das suas características fundamentais.
O Kikongo é uma língua única ou existem várias variantes? Em que medida é que essas diferenças são significativas?
O kikongo não é uma língua única e homogénea, mas sim um conjunto de variantes (ou dialetos) relacionados entre si muitas vezes chamados coletivamente de “cluster kikongo”. O kikongo tem mais de 36 dialetos em toda sua extensão.
Que papel desempenha o Kikongo na identidade cultural das comunidades que o falam atualmente?
Hoje, o kikongo continua a desempenhar um papel central na identidade cultural das comunidades bakongo, funcionando como um verdadeiro elo entre passado e presente. Falar kikongo é, para muitos, um sinal de pertença ao povo bakongo. Mesmo em contextos urbanos ou em países onde predominam outras línguas oficiais (como o português ou o francês), o uso do kikongo reforça a ligação às raízes culturais e históricas associadas ao antigo Reino do Kongo.
Que influência teve o português no Kikongo ao longo do tempo? Existem exemplos concretos de empréstimos linguísticos?
Desde a chegada dos portugueses, houve interação intensa: missionários aprenderam kikongo e introduziram o português, sobretudo em contextos religiosos, administrativos e comerciais. Muitos objetos, ideias e instituições europeias não existiam anteriormente, o que levou à adoção de palavras portuguesas para os designar (especialmente em religião, tecnologia e organização social). Aqui estão alguns exemplos típicos de palavras de origem portuguesa adaptadas ao kikongo (a grafia pode variar conforme a variante): mesa (ou forma próxima), sapatu (de “sapato”), sikola (de “escola”), ngeleja (de “igreja”) e livulu (de “livro”).
O Kikongo continua a ser transmitido às novas gerações ou enfrenta riscos de perda?
O kikongo continua a ser transmitido, mas enfrenta desafios reais que, em alguns contextos, colocam a sua vitalidade em risco. A situação não é uniforme depende muito do país, da região e do contexto social.
Em muitas comunidades rurais e familiares, sobretudo em regiões de Angola, República Democrática do Congo e República do Congo: o kikongo ainda é aprendido como primeira língua é usado no dia a dia, em casa e na comunidade continua a ser veículo de tradições e valores. Nesses contextos, a transmissão intergeracional mantém-se relativamente forte. No entanto, há vários fatores que podem enfraquecer essa transmissão.
O português (em Angola) e o francês (nos Congos) dominam: a escola, a administração e os meios de comunicação.
Isso leva muitos pais a priorizar essas línguas para o sucesso académico e profissional dos filhos.
A tecnologia, nomeadamente a internet e as redes sociais, pode desempenhar um papel na preservação do Kikongo?
Sim, a tecnologia pode desempenhar um papel muito importante na preservação e até revitalização do kikongo, embora também traga alguns desafios. A internet pode permitir que o kikongo “exista” num espaço global, através de publicações em redes sociais, vídeos, músicas e conteúdos culturais, bem como páginas dedicadas à língua. Isso ajuda a reforçar o orgulho linguístico, especialmente entre jovens das comunidades ligadas ao antigo Reino do Kongo.
Qual é a importância de estudar línguas africanas hoje?
Estudar línguas africanas hoje como o kikongo é fundamental por várias razões que vão muito além da comunicação. Trata-se de cultura, conhecimento, identidade e até desenvolvimento global. As línguas africanas são portadoras de histórias, valores, saberes tradicionais e visões do mundo. Ao estudá-las, ajuda-se a preservar heranças ligadas a civilizações como o antigo Reino do Kongo, evitando que esse conhecimento se perca.
Nyimi Mabiintsh III- Our ancestories
Depois desta conversa, fica claro que o Kikongo é muito mais do que gramática, é um território de memória e o eco de uma identidade que resiste. Preservá-lo não é apenas uma tarefa para linguistas, mas um ato de valorização de um património que salta fronteiras e une gerações.
Hoje, num mundo onde as línguas dominantes parecem abafar tudo o resto, o Kikongo luta para continuar a ser falado pelos mais novos. Estudar esta língua deixou de ser, para mim, um mero exercício de faculdade, tornou-se um contributo para que esta diversidade não se apague. Reconhecer a força do Kikongo é, no fundo, admitir que estas vozes precisam de espaço no presente, e não apenas no arquivo da história.