Um outro olhar para a Líbia de Gaddafi

A figura de Muammar Gaddafi permanece uma das mais controversas da história política contemporânea do Norte de África. Durante mais de quatro décadas, o líder líbio governou a Líbia após a revolução de 1969 que derrubou a monarquia, procurando construir um modelo político e económico próprio. Sustentado pelas receitas do petróleo e inspirado por uma ideologia apresentada no seu Livro Verde, o regime promoveu transformações sociais e um papel ativo do Estado na gestão dos recursos nacionais.

A queda de Gaddafi em 2011, no contexto da revolta interna e da intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte, marcou o fim desse projeto político. Contudo, mais de uma década depois, o debate sobre a Líbia de Gaddafi continua marcado por narrativas profundamente polarizadas. Compreender esse período exige, por isso, um olhar mais atento às dinâmicas internas do país, às políticas económicas e sociais do regime e ao contexto internacional que acompanhou a sua ascensão e queda.

Muammar Gaddafi na cimeira da União Africana em 2007, fonte Al Jazeera Muammar Gaddafi na cimeira da União Africana em 2007, fonte Al Jazeera

 

A revolução de 1969 e a construção da Líbia de Gaddafi

A ascensão de Muammar Gaddafi ao poder ocorreu a 1 de setembro de 1969, quando um grupo de jovens oficiais do exército líbio depôs o rei Idris I da Líbia, pondo fim à monarquia que governava o país desde a independência. O golpe militar desenrolou-se de forma rápida e praticamente sem derramamento de sangue, permitindo ao novo regime assumir o controlo das principais instituições do Estado. Inspirado pelo nacionalismo árabe e pelas correntes revolucionárias que marcaram o mundo pós-colonial da época, o novo governo procurou redefinir profundamente o papel do Estado na economia e na sociedade da Líbia.

Uma das primeiras medidas do seu regime foi a nacionalização progressiva do setor petrolífero, até então amplamente dominado por empresas estrangeiras. O petróleo, sendo o principal recurso económico do país, passou a constituir a base financeira do Estado líbio. As receitas provenientes da sua exploração foram canalizadas para programas de desenvolvimento interno, permitindo a expansão de serviços públicos e investimentos em infraestruturas. A educação e o acesso à saúde tornaram-se amplamente disponíveis, enquanto programas de habitação e de apoio social procuraram elevar o nível de vida da população.

Ao longo das décadas seguintes, estes investimentos contribuíram para que a Líbia registasse indicadores de desenvolvimento relativamente elevados no contexto regional. O país alcançou um dos níveis mais altos de rendimento per capita do continente africano e apresentou valores de desenvolvimento humano superiores aos de muitos Estados vizinhos. A combinação entre uma população relativamente reduzida e abundantes recursos energéticos permitiu ao regime financiar um modelo económico fortemente apoiado na redistribuição das receitas do petróleo. Entre os projetos de infraestrutura promovidos pelo regime destacou-se o Grande Rio Artificial, frequentemente descrito como um dos maiores sistemas de engenharia hidráulica do mundo. Concebido para transportar água subterrânea das reservas aquíferas do deserto para as principais cidades e zonas agrícolas do norte do país, o projeto procurava responder à escassez de água num território amplamente árido. Financiado em grande parte pelas receitas do petróleo, o sistema foi apresentado pelas autoridades líbias como símbolo da capacidade do Estado em transformar os recursos naturais em projetos de desenvolvimento nacional.

A visão política de Gaddafi encontrou expressão no seu Livro Verde, obra publicada a partir de meados da década de 1970 e concebida como fundamento ideológico do regime. Nela, o líder líbio apresentou a chamada “Terceira Teoria Universal”, proposta como alternativa tanto ao capitalismo ocidental como ao socialismo soviético. O sistema defendido assentava na ideia de democracia direta baseada em congressos populares e comités locais, modelo que o próprio designou como “Jamahiriya”, traduzido por “Estado das massas”. No plano social, o regime procurou igualmente promover uma narrativa de modernização. O acesso das mulheres à educação expandiu-se significativamente e a sua presença em setores como o ensino, a saúde e a administração pública tornou-se mais visível. Reformas na legislação familiar procuraram regular práticas tradicionais e incentivar uma maior participação feminina na vida económica e profissional.

Paralelamente às transformações internas, a política externa líbia assumiu também um caráter marcadamente ideológico. O regime procurou posicionar-se como apoiante de diversos movimentos considerados anti-imperialistas ou de libertação nacional, incluindo a causa palestiniana ligada à Organização para a Libertação da Palestina, à qual prestou apoio político, financeiro e logístico, incluindo a disponibilização de infraestruturas de treino em território líbio. Este apoio estendeu-se a outros grupos, como o Irish Republican Army na Irlanda do Norte, sobretudo através de financiamento e do fornecimento de armamento. Esta postura contribuiu para projetar a Líbia como um ator político ativo no cenário internacional, mas também alimentou tensões prolongadas com várias potências ocidentais. Simultaneamente, Gaddafi assumiu-se como um dos principais defensores do pan-africanismo nas últimas décadas do século XX e início do século XXI. Progressivamente afastando-se do pan-arabismo inicial, passou a promover a ideia de uma maior integração política e económica do continente africano, defendendo a criação dos chamados “Estados Unidos de África”. Entre as suas propostas mais ambiciosas destacava-se a defesa de uma maior autonomia financeira africana, incluindo a ideia de uma moeda comum, frequentemente associada às reservas de ouro líbias, como forma de reduzir a dependência de moedas ocidentais. No plano institucional, desempenhou também um papel ativo na consolidação da União Africana, posicionando a Líbia como um dos seus principais financiadores e defensores políticos.

Durante mais de quatro décadas, o regime de Gaddafi procurou assim construir um modelo político próprio, baseado na afirmação da soberania nacional sobre os recursos naturais e numa forte intervenção do Estado na economia. Esse projeto acabaria, contudo, por enfrentar profundas transformações no início do século XXI, culminando nos acontecimentos que levariam à queda do regime em 2011.

A revolta de 2011 e a intervenção internacional

Mais de quatro décadas após a revolução de 1969, o regime de Muammar Gaddafi enfrentaria o maior desafio à sua sobrevivência. Em 2011, no contexto das mobilizações políticas que marcaram o mundo árabe, conhecidas como Primavera Árabe, eclodiram protestos em várias cidades da Líbia. O que começou como contestação interna rapidamente evoluiu para um conflito armado entre forças leais ao governo e grupos rebeldes. Perante o agravamento da situação, a crise líbia internacionalizou-se. O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou, em março de 2011, uma resolução que autorizava a criação de uma zona de exclusão aérea, com o objetivo formal de proteger civis. A operação foi conduzida por uma coligação internacional liderada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte, com participação ativa dos Estados Unidos, França e Reino Unido.

Os bombardeamentos e o apoio logístico e militar aos rebeldes alteraram decisivamente o equilíbrio de forças no terreno. Ao longo dos meses seguintes, o regime foi progressivamente enfraquecido, permitindo o avanço das forças insurgentes. Em agosto de 2011, a capital, Trípoli, caiu, assinalando o colapso efetivo do poder central estabelecido desde 1969. Em outubro desse ano, Gaddafi foi capturado na cidade de Sirte e morto pouco depois, após a sua detenção pelas forças rebeldes. A sua morte simbolizou o fim de um ciclo político de mais de quarenta anos, mas não significou o início de uma nova estabilidade. Pelo contrário, abriu caminho a um período prolongado de fragmentação interna.

Para além da dimensão interna do conflito, a intervenção internacional tem sido objeto de intenso debate. Diversos analistas apontam que, para lá da proteção de civis, estariam em jogo interesses estratégicos mais amplos. Entre os elementos mais citados encontram-se e-mails posteriormente divulgados ligados à então secretária de Estado Hillary Clinton, nos quais surgem referências a preocupações de autoridades francesas com as reservas de ouro líbias e com a possibilidade de iniciativas financeiras africanas autónomas, apoiadas por esses recursos. Embora estas interpretações não constituam consenso absoluto, elas contribuem para uma leitura mais ampla da intervenção, enquadrando-a num contexto de disputa por influência económica e geopolítica. A Líbia, detentora de vastos recursos energéticos e financeiros, ocupava uma posição estratégica que ultrapassava largamente as suas fronteiras.

O pós-2011 revelou-se, contudo, profundamente instável. A queda do regime não foi acompanhada pela consolidação de instituições políticas sólidas. O país fragmentou-se entre diferentes centros de poder, milícias armadas e governos rivais, tornando-se um espaço de disputa interna e externa. Assim, a intervenção que contribuiu para o fim do regime de Gaddafi marcou também o início de uma nova fase na história da Líbia, uma menos caracterizada pela construção de um novo Estado e mais por uma prolongada crise de soberania e estabilidade. 

Muammar Gaddafi, fonte CJPME Muammar Gaddafi, fonte CJPME

 

O Legado de Gaddafi

Perante este percurso, analisar a Líbia de Muammar Gaddafi implica recusar leituras simplistas. Entre um projeto político que procurou afirmar a soberania nacional através do controlo dos recursos e um sistema marcado por tensões e contradições internas, o seu legado permanece aberto a interpretações divergentes.

A Líbia que emergiu após 2011 levanta, inevitavelmente, questões difíceis. Se, por um lado, o fim do regime foi apresentado como uma condição necessária para a liberdade política, por outro, a realidade subsequente revelou um Estado fragilizado, atravessado por disputas internas e influências externas persistentes. A promessa de uma nova ordem deu lugar a um cenário em que a estabilidade e a soberania continuam por consolidar.

Neste sentido, mais do que uma figura encerrada no passado, Gaddafi permanece como um ponto de interrogação na história contemporânea africana e internacional. A sua trajetória convida a refletir não apenas sobre o que foi, mas também sobre o que poderia ter sido e sobre o papel decisivo das dinâmicas externas na definição desses caminhos.

No fim, a linha que separa o “inimigo” do “libertador” raramente é neutra, como diz o ditado: “one man’s terrorist is another man’s freedom fighter”. O balanço final do seu impacto permanece, pois, dependente da perspetiva entre as ambições do regime e os escombros de uma Líbia que ainda procura a sua estabilidade.

por Pedro Oliveira
Vou lá visitar | 2 Abril 2026 | líbia, Muammar Gaddafi