Arquivo Vivo – artistas em diálogo com o arquivo pessoal de Mário Pinto de Andrade

Ensaísta, sociólogo, crítico literário, poeta, tradutor e filólogo, Mário Pinto de Andrade foi um intelectual angolano que desempenhou um papel fundamental na divulgação da cultura africana no século XX. Profundamente cosmopolita, o seu percurso foi marcado por trânsitos entre culturas, espaços e geografias diversas, assim como por diversas línguas. Ao mesmo tempo, a sua trajetória intelectual é indissociável do seu empenho político. Promotor de várias organizações anticoloniais de caráter transnacional e um dos fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual foi também o primeiro presidente, colocou a sua vida ao serviço da luta contra o colonialismo e o neocolonialismo em África.

A excepcionalidade do seu percurso político, intelectual e humano reflete-se na riqueza do seu arquivo pessoal, um fundo que reúne uma quantidade e uma variedade notável de materiais: correspondência, fotografias, esboços de ensaios, documentos relativos às atividades dos movimentos de libertação, recortes de imprensa, bem como cadernos repletos de anotações de natureza variada.

Esta exposição nasce do projeto de investigação de Elisa Scaraggi, dedicado à valorização e revitalização deste acervo. Para além da investigação académica e da produção de conhecimento histórico, o projeto procurou explorar o arquivo como um espaço de memória, criação e imaginação, aberto a novas leituras e interpretações.

Neste contexto, três artistas foram convidados a desenvolver trabalhos inéditos a partir do contacto com documentos do arquivo de Mário Pinto de Andrade. O desafio para cada um consistiu em estabelecer um diálogo pessoal com esses materiais, fazendo com que deixassem de ser apenas testemunhos do passado para se tornarem matéria de criação artística no presente.

O resultado é Arquivo Vivo, uma exposição que reúne formatos e linguagens distintas através das obras de Lino Damião, Raquel Lima e João Ana. As suas propostas revelam novas formas de reimaginar e reapropriar o passado e convidam o público a pensar o arquivo como um espaço vivo e em transformação.

A exposição está patente na Casa do Comum, um espaço que se quer ponto de encontro da cidade com a cultura, atento às grandes questões do mundo e sensível às preocupações de artistas — um lugar de reflexão, partilha e ação, frequentado por uma audiência transversal em termos de geração, nacionalidade, profissão e proveniência social.

Programação

17 de junho, 18h — Inauguração na Casa do Comum

Às 19h, projeção da curta-metragem Monangambééé (1969), de Sarah Maldoror.

21 de junho — Performance Alvorada de Olhares Íntimos, de Raquel Lima

Construída a partir do cruzamento de correspondência selecionada de Mário Pinto de Andrade e da própria vivência da artista.

3 de julho, 18h — Conversa: arquivos pessoais, história e prática artística

Encontro com investigadoras, arquivistas e artistas que trabalham com arquivos relacionados com o passado colonial português e com as lutas de libertação das antigas colónias africanas. (Mais informações em breve.)

5 de julho — Lançamento do livro Os Papéis do Leste

Organizado por Elisa Scaraggi e Nelson Pestana, o livro reúne documentos produzidos por Mário Pinto de Andrade durante ou em consequência da sua experiência junto dos guerrilheiros da Frente Leste (1971–72). Publicado pela Tigre de Papel, na coleção Buala.

16.06.2026 | by martalanca | Mário Pinto de Andrade