A revolução sudanesa: à terceira é de vez?

Pão, paz, justiça. Três palavras simples que resumem o programa inicial da revolta popular no Sudão em curso desde dezembro de 2018. Mas o movimento de massas que já provocou a queda do presidente Omar al-Bechir, destituído pelos militares a  11 de abril, continua mobilizado, pacífica e ordeiramente, para levar a bom termo a sua revolução nacional e democrática, a terceira desde a independência do país em 1956. 

As anteriores tentativas tiveram lugar em 1964 e 1985 e acabaram com golpes militares que deram lugar a novas ditaduras, mais férreas e liberticidas que as anteriores.  A última, instaurada em 1989 pelo coronel Omar el Bechir e o seu mentor, o ideólogo Hassan al Tourabi, ambos Irmãos Muçulmanos, durou três décadas. 

Mas a chamada «comunidade internacional», que não dedicou aos acontecimentos do Sudão nem um décimo da atenção suscitada pelas crises na Venezuela e Argélia, foi acordada pelo estrondo da queda do ditador de Cartum. Como se subitamente os governos ocidentais, árabes e africanos tivessem compreendido que uma revolução democrática no Sudão podia vir a ter efeitos devastadores para a estabilidade dos países vizinhos e sobre o equilíbrio regional, assiste-se desde então a uma agitação política e diplomática febril. 

Só um diminuto número de especialistas se interessa pelas realidades específicas do Sudão, que muitos consideram «demasiado negro para ser árabe e demasiado árabe para ser africano», segundo a fórmula do jornalista francês Christophe Ayad.   

Trata-se de uma «maldição» que desde a Antiguidade persegue os sudaneses porque a história várias vezes milenar «Bilal al Sudão» (país dos negros, em árabe), assim chamado no século XI pelo historiador andaluz al-Bakri, foi sempre eclipsada pelo brilho do Egipto faraónico. O racismo dos colonizadores europeus do século XIX, que consideravam os negros demasiado selvagens e atrasados para terem uma história, perenizou o preconceito. 

Se as missões arqueológicas conduzidas pelo suíço Charles Bonnet puseram termo aos sarcasmos e à violenta polémica suscitada pelas teses de Ki Zerbo e de Cheik Anta Diop sobre as origens africanas da civilização faraónica, com a descoberta, em 2003, no norte do Sudão, das estátuas monumentais dos faraós negros da 25ª dinastia, que reinaram sobre o Alto e o Baixo Egipto durante mais de um século, os historiadores modernos continuam a considerar as influências cultural e militar árabes como os elementos determinantes da identidade sudanesa.

O véu de esquecimento que se abateu sobre os reinos sudaneses de Karma, Kush e Méroe, cujas riqueza e potência resultaram do seu papel de elo de comunicação entre o Mediterrâneo e a Africa Central ajudou a fazer aceitar pela União Africana a secessão do Sudão do Sul, consumada em 2011, justificada pela impossibilidade de fazer coabitar num só estado  o norte árabe e muçulmano  e o sul, negro, animista e cristão.

Um passado sempre presente 

Águas passadas, sem relação com os acontecimentos em curso? Não parece, a julgar pelo nome de «kandakas» adotado pelas mulheres sudanesas, muito ativas nas manifestações dos últimos meses, e as vestes e as grandes arrecadas de ouro da estudante Alaa Salah, apontada como o «ícone da revolução». Com efeito, «kandaka» era o título das rainhas guerreiras de Méroe (que os historiadores romanos traduziram por «cândace«), a mais celebre das quais foi Amanishakheto que deteve as legiões de Cesar Augusto e selou com ele em 24 AC o tratado de Samos que deu origem a relações comerciais intensas e profícuas entre os respetivos impérios. 

Estas referências à história antiga são reveladoras da vontade dos revolucionários sudaneses de 2019 de se colocar fora da temporalidade do Medio Oriente em que pretendem fechá-los os analistas que apresentam o derrube de Omar al Bechir como uma sequela tardia das «primaveras árabes» de 2011, ao mesmo titulo que o «hirak» argelino.  

Os 30 anos da ditadura islamo-militar de Omar el Bechir podem ter apagado das memórias dos comentadores e da opinião pública africana os marcos principais da história do Sudão moderno, mas a esmagadora maioria dos sudaneses têm razões de sobra para recordá-los, porque todos contam entre os seus familiares vítimas das guerras, golpes militares e repressões que ensanguentam o seu país desde o final do século XIX. Da revolta madhista contra a dominação anglo-egípcia (1881-1899) às duas guerras norte-sul (1965-1972 e 1983-2003), passando pelos múltiplos conflitos ainda em curso no Darfur e no Kordofan, e sem esquecer a guerra civil que eclodiu no Sudão do Sul dois anos após a sua independência, não se sabe ao certo quantos sudaneses perderam a vida em consequência desse estado de guerra quase permanente. As Nações Unidas falam em cinco a sete milhões de mortos desde 1956, um dos maiores  genocídios do século XX, de que Omar el Bechir foi certamente um dos atores, mas não o único nem o principal responsável. 

O revés da tragédia nacional sudanesa é a indomável resistência e o pioneirismo político do seu povo, pouco conhecidos e reconhecidos pelos seus contemporâneos árabes e africanos. 

Depois da independência outorgada à pressa pelo Reino Unido em 1956, o Sudão foi o palco, em 1964, da primeira revolução democrática árabe. A primeira mulher árabe eleita deputada (e uma das primeiras africanas) foi a feminista sudanesa Fátima Ibrahim (falecida em 2017), muçulmana e comunista, fundadora em 1952 da União das Mulheres Sudanesas e galardoada em 1993 com o Prémio dos Direitos Humanos da ONU. O partido comunista sudanês (fundado em 1946) foi o mais influente do mundo árabe e um ator central da política sudanesa até à sua rutura, em 1971, com o regime militar de Gafar al Numeri, que ajudara a tomar o poder em 1969, e que fez enforcar os seus principais dirigentes, muitos dos quais eram também lideres do poderoso movimento sindical sudanês estruturado à volta de três pilares: os ferroviários de Atbara, os estivadores de Port Sudan e os trabalhadores agrícolas da planície de Gezirah, maior celeiro do Corno de África.

Da revolta à revolução 

Os manifestantes que sitiam o Ministério da Defesa em Khartoum desde a «marcha do milhão» de 6 de Abril sabem que devem os sucessos alcançados até agora à sua força numérica, e à sua unidade que se sobrepôs às clivagens ideológicas, religiosas, tribais e geracionais. Um feito que atribuem às sábias orientações dadas pelo «Reagrupamento dos Profissionais Sudaneses», uma organização clandestina formada por ativistas oriundas das classes medias liberais  (advogados, médicos, professores e estudantes jornalistas) que assumiu a liderança da insurreição desde a primeira manifestação que teve lugar em Atbara a 19 de dezembro. 

Qualificado por Omar al-Bechir, em fevereiro de 2019, de «batalhão de fantasmas», o RPS  tem conseguido ganhar a confiança e mobilizar um número crescente de sudaneses com um profissionalismo que desmentem a alegada espontaneidade de uma revolta pelo pão e o gasóleo, liderada pela juventude e as mulheres através das redes sociais. 

Sudanese demonstrators celebrate the arrest of long-time President Omar al-Bashir by the armed forces, outside the Defense Ministry. Ala Kheir/Picture Alliance via Getty ImagesSudanese demonstrators celebrate the arrest of long-time President Omar al-Bashir by the armed forces, outside the Defense Ministry. Ala Kheir/Picture Alliance via Getty Images

As palavras de ordem, cuidadosamente escolhidas e encenadas, misturando o árabe literário com as línguas locais e o patuá popular, e uma série de ações diversificadas (marchas noturnas, greves, desobediência civil) e decentralizadas através de todo o pais, incluídos o Darfur e o Kordofan, revelam pelo contrário uma ação concertada e cuidadosamente executada que permitiu unir todas as lutas e federar todas as oposições no seio da Aliança para a Liberdade e a Mudança (ALC). A ALC é uma frente heterogénea que inclui dezenas de associações cívicas e partidos, incluídos os derrotados das anteriores revoluções, da esquerda laica liderada pelo comunista Siddiq Yousef aos islamistas do partido Oumma, cujo líder histórico, o imã Saadq al-Mahdi -, que chefiava o governo derrubado em 1969 pelo golpe de estado de Omar el Bechir e do seu mentor Hassan Tourabi - foi recebido em triunfo por milhares de pessoas ao seu regresso a Cartum em 2017 após 28 anos de exílio. As várias componentes da ALC conservam a sua autonomia, mas aceitam que o RPS seja o seu porta-voz e o interlocutor da Junta Militar nas negociações em curso para organizar a transição e pôr de pé as instituições encarregues de governar o Sudão até às eleições gerais que governarão o Sudão até as eleições gerais. 

Mas o diálogo com a Junta Militar de Transição endureceu depois do acordo de princípio alcançado em final de abril para a partilha do poder entre militares e civis e as ingerências estrangeiras são cada vez mais evidentes.

A União Africana a favor da estabilização 

A 16 de abril, o Conselho de Paz e Segurança da União Africana (UA) tinha exigido a entrega do poder aos civis no prazo de 15 dias sob pena de exclusão do Sudão da Organização. Mas a 23 de abril a UA alargou o prazo até três meses após as cimeiras (sobre o Sudão e a Líbia) convocadas de emergência pelo seu presidente de turno, Abdel Fattah al-Sissi, em que participaram, entre outros, a África do Sul, Etiópia, Nigéria e Ruanda.  

Segundo o presidente egípcio, a primeira prioridade em relação ao Sudão consiste em ajudar esse país a superar a gravíssima crise financeira, para restaurar a estabilidade política e social e evitar qualquer derrapagem incontrolável. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos já se tinham antecipado e posto três mil milhões de dólares à disposição do Conselho de Transição, oferta imediatamente rejeitada pelos manifestantes. Aceitá-la seria, segundo o APS, trocar uma ditadura por outra, como aconteceu no Egipto, e renunciar a liberdade, a democracia e a qualquer mudança de política económica ou social. 

Os lideres do movimento popular suspeitam os  militares, que cederam até aqui às  reivindicações mais consensuais e simbólicas - como a libertação dos presos políticos, a prisão e inculpação de Omar el-Bechir e de algumas figuras grades do seu regime acusadas de corrupção – de querer conservar o monopólio do poder, contando para o efeito com o aparelho repressivo do anterior do anterior sistema. Este permanece intacto, apesar da destituição do general Salah Gosh que chefiou durante 25 anos o todo-poderoso ISS ( Serviço de Segurança). O seu braço armado, a «Força de Apoio Rápido» temida por todos os sudaneses e os próprios militares continua a vigiar as manifestações abstendo-se por enquanto de intervir, mas até quando?

Talvez estejam à espera de condições mais favoráveis para pôr fim as manifestações, quando o cansaço e as altas temperaturas tiverem reduzido significavam entre o numero e a determinação dos participantes? Ou que o Ramadão divida os muçulmanos e abra uma brecha entre eles e os esquerdistas ateus?  

O General Abdul Fattah al-Burhan, atual presidente do Conselho Militar de transição acaba de assumir as funções de chefe do Governo, que os manifestantes queriam que fosse constituído por tecnocratas civis e o porta-voz da Junta acusou o APS de querer abolir a lei islâmica (charia), não mencionada no seu projeto de Constituição. Se for o caso, a Junta  ameaça de pôr termo as negociações e de convocar as eleições no prazo de seis meses, em vez dos dois anos inicialmente anunciados e dos quatro considerados necessários pela ALM  para criar as condições necessárias á realização de um escrutínio  livre e democrático. 

Os revolucionários replicaram com um apelo a desobediência civil generalizada. O braço de ferro aperta-se à medida que a relação de força parece pender para o lado dos militares e a violência pode regressar a todo o momento.

 

originalmente publicado na Africa 21. 

por Nicole Guardiola
A ler | 29 Maio 2019 | Sudão