O Paraíso em Braga

O festival Paraíso regressou a Braga no fim de semana, 11 e 12 de setembro. A proposta deste ano foi a de debater o passado e o futuro da Afrodescendência como formas coletivas de existir, entre aquilo que recebemos (herança) e as realidades em construção (futuros). 

Do que se leva do evento é que continua a ser urgente discutir as questões da Afrodescendência, sob o condão da religação ao passado, marcado em várias frentes: na política, nas artes, na cultura e no trajeto de vários homens e mulheres como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos, mas também Cesária Évora, Bonga, Paulina Chiziane, Paula Tavares, entre muitos outros nomes que, de diversos modos, construíram percursos, lutas e conquistas que inspiram as trajetórias das novas gerações. 

Religar-se às referências da Afrodescendência é hoje um imperativo, no contexto em que o espaço político, de opinião e de decisão pública é massivamente dominado por um discurso de ódio contra a imigração e a diversidade. 

A partir deste quadro social e político, iniciativas que se proponham a recolocar as discussões sobre as minorias acabam por se constituir como formas de resistência: relembram aquilo que podemos fazer com o que herdamos, se assumimos o protagonismo em relação aos desafios impostos pelo contexto ou se nos desviamos daquilo que nos espera.  

Assim, foi desde a ideia de preservação da memória e projeção do futuro que se afirmou o conceito do Paraíso de 2026, concebido numa perspetiva de fortalecimento da coletividade, expressando a diversidade de atuação social, do pensamento, da criação artística e cultural. Por aqui se compreende o facto de o festival ter reunido vários protagonistas e ter decorrido em vários espaços do centro de Braga: Livraria Centésima Página, Gnration e Teatro Circo. 

Para além destes espaços, o festival integrou muitos outros nomes (coletivos e de pessoas singulares), tais como Cesária Évora Orchestra, Associação de imigrantes senegaleses - Conquista Vontades, CONCILIARE (Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho), Núcleo de Estudantes Africanos da Universidade do Minho, David Ferreira, Saidatina Khady Dias, Isabel Macedo, Marisa Rodrigues, Vanessa Fernandes, Kitty Furtado, Melissa Rodrigues, Raquel Lima, Ana Teresa Correia, Eddie Foligo, DJ Chipula, Luege D´Olim, António Zaqueu, Sarina Azevedo e Luiza Lins. Já sabemos como a Afrodescendência se expressa melhor na coletividade, na busca de ideias comuns, ainda que partindo de bases individualmente compostas de múltiplas diferenças. 

O festival fez-se de eventos multidisciplinares, bem acolhidos, amplamente participados e animados pelo público de Braga, convidados e muitos interessados que acorreram às sessões da programação, com conversas, exibição de cinema, mediação, gastronomia, workshop de dança e um concerto de música. 

Dia 1. O que importa é o que fazemos com esta herança. 

A conversa de abertura do festival teve como ponto central o debate sobre como existir entre o que herdamos e o que construímos. Logo à partida, percebeu-se que o Paraíso tem uma perspetiva integradora da diversidade, fazendo emergir outros nomes e instituições à volta das questões sobre a Afrodescedência em Portugal. 

Estes “novos atores” são igualmente incisivos na identificação das questões fraturantes, na clareza da exposição das suas ideias, no enquadramento entre o que concebem, facilitam e criam e o legado recebido de gerações anteriores e das frentes atuais da nossa luta. 

Que realidade é a que se vive hoje, na perspetiva da Afrodescendência? 

Em termos políticos e de afirmação das liberdades, vive-se hoje um cenário de maior condicionamento, com o espaço público a ser dominado por poderes, políticas públicas e formas de atuação institucionais, marcadas por posturas e discursos avessos à imigração, independentemente da sua especificidade. Neste sentido, sobre o imigrante pesam contornos burocráticos que dificultam ainda mais a sua inclusão. 

Ddificuldades sentidas na falta de celeridade nos processos de obtenção de vistos de entrada para os estudantes, fazendo com que haja muitos a chegar com um semestre de atraso a cada ano, originando consequências no aproveitamento académico, com reflexo, mais tarde, na prestação profissional. 

Essas situações repetidas, sem atuação objetiva e firme das autoridades do país de acolhimento, seja por reparação histórica, como foi proposto, seja por vontade de promoção do outro, faz com que a atuação do Núcleo de Estudantes Africanos da Universidade do Minho seja encarada como uma forma de resistência. 

Neste sentido, em determinadas circunstâncias, a atuação do núcleo dá continuidade a um legado importante para os países africanos de língua portuguesa, uma vez que historicamente, as associações e núcleos de estudantes africanos constituíram-se em formas de contestação, de formação do pensamento crítico e criativo, ao mesmo tempo que se afirmaram como pontos de acolhimento para quem chegou e precisou de apoios para integração para os estudos e para a integração na sociedade maioritária.  

O mesmo é sentido pela Associação Conquista Vontades, que começou como uma instituição de apoio a imigrantes senegaleses, atualmente, presta assistência a 55 nacionalidades, que a ela acorrem em busca dos apoios necessários para ultrapassar constrangimentos burocráticos e para a inserção na sociedade de acolhimento. 

Duas realidades de imigração que têm a particularidade de, em muitos casos, ser agravadas pelo facto de experienciarem a não valorização de conhecimentos, experiências acumuladas acumuladas nos países de origem,  o que transforma o percurso no país de acolhimento ainda mais dificultado, uma vez que se alteram as referências, os quadros epistemológicos e a terminologia de que se faz a nova realidade, estabelecendo conflitos entre o que se traz e o que se encontra, o que, em muitos casos, promove o desaparecimento ou a mutação do outro, das suas histórias e das suas referências. 

Tradição é tradição

A proposta do Paraíso para a reflexão do passado e do futuro das afrodescendências não quer ser uma barreira à autocrítica, mesmo tendo em conta práticas culturais asseguradas pelo poder da tradição, como é o caso do fanado, perpetrado contra meninas guineenses. 

Práticas como o fanado, em muitos contextos africanos, são legitimadas pela lógica de continuação da tradição, desconsiderando as dores e os traumas infligidos às pessoas, quando é sabido que há circuitos económicos em volta que impõem silêncios e condescendência comunitária, em favor de crimes praticados contra o outro, sendo que este outro é um ente comunitário, que se tenta controlar para se ter domínio sobre o seu corpo, como se viu no filme Si Destinu

O que se leva do dia 01…? 

Uma pergunta feita para avivar a reflexão e a participação individual. Levou-se certamente a urgência da recolocação das questões da Afrodescendência para o centro da discussão pública, pois discutir temáticas referentes às minorias é discutir a imigração, os modos de acolhimento e de dignificação do outro que, em muitos casos, não mora do outro lado do mar; é o aluno que chega com conhecimentos, referências, cultura, formas de expressão e experiências diferentes das que encontra; são os trabalhadores de empreitadas basilares, que atuam em condições profissionais pouco atrativas para os encontrados; são os outros que chegam com um quadro de pensamento e práticas artísticas e estruturas próprias que vêm acrescentar às formas e aos conhecimentos dominantes.   

Levou-se ainda a necessidade permanente de autocrítica em relação às práticas pouco dignificantes, castradoras de liberdades e de usufruto do prazer sexual de mulheres de algumas comunidades afrodescendentes, de igual modo, a necessidade de incrementos conceituais, corporativos e performativos como contribuição para a reconfiguração dos espaços, das representações, dos modos de atuação e das referências. 

E no dia 02, a Cesária Évora.  

O dia 02 do festival Paraíso ligou-se grandemente à Cesária Évora, uma das maiores referências artísticas da afrodescendência, entendida na pluralidade dos vários corpos com existência diáspórica. Esta ligação foi expressa pelo concerto brilhante da Orchestra com o seu nome, pela homenagem marcante prestada por António Zaqueu, Luege D´olim, Sarina Azevedo e Luiza Lins, que se apresentaram para a conversa e performance artística descalços como imensas vezes preferiu estar a Diva nos seus concertos; simples nas formas, exuberante no talento.

Gastronomia;

Quem come cachupa, sente Cabo Verde; 

Quem sente Cabo Verde, vive os seus tons e ritmos, 

E… nalguma esquina encontra Cesária.     

A gastronomia é sempre um elemento importante para a identificação dos povos. Para as comunidades afrodescendentes a ligação é quase espiritual, para mais quando as sugestões são internacionais, no contexto dos nossos países, como é a cachupa. Joje adotada em muitos lugares, carrega sempre essa matriz cabo-verdiana, se preparada por mãos e espíritos formados na experiência constante do seu sabor. 

No dia 02, para além do almoço, com cachupa, e da sessão de Mediação com apresentação do Manual Antirracista para as Artes e Educação, houve um dos pontos mais esperados de todo o festival: a conversa sobre Arte, participação e práticas de contestação da colonialidade: o papel da criação coletiva na construção de futuros alternativos. 

Um momento que juntou conversa e performance, e deixou a certeza de que a Afrodescendência tem os pilares seguros e vai continuar a ser representada com pensamento vigoroso, questionador, destemido e criativo. 

A conversa reuniu António Zaqueu, Luege D’Olim e Sarina Azevedo. Novos nomes, vozes negras e jovens, com desenvoltura discursiva e coragem para questionar posturas historicamente construídas para afirmar o poder de uns sobre os outros. Relações de poder que atravessam todas as dimensões da vida pública. Com poucos recursos à disposição, quem chega acaba, muitas vezes, por se deixar encaixar nos lugares que lhe são reservados, sem margem para construir alternativas - mesmo quando participa ativamente na sociedade que o acolhe.

E se não tivéssemos de ser entendidos unicamente sob o olhar do outro? Se eu quisesse ser percebido de outra forma? 

Parecem questões com teor utópico para quem busca respostas desde um lugar de privilégio, não precisando de moldar as suas expressões, a sua língua, anular/hipotecar as suas referências, nem de alterar as suas expressões, os quadros teóricos trazidos, tudo para ter de se adaptar ao que lhe é imposto de forma seca, em muitos casos, sem abertura para enquadrar o que conhece. 

Questões não tão arrojadas quando se pensa nas vias alternativas produzidas pela globalização: elevação de uma língua comum, aproximação a referências teóricas e símbolos internacionais, construção de quadros teóricos partilhados. 

O problema surge precisamente na hora de integrar pessoas de outra cor, que professam outras religiões, não falam ou não falam corretamente a nossa língua, os que vêm para retirar benefícios, para viver à custa dos impostos, para gerar caos nos atendimentos na saúde e na educação, e insegurança permanente nas nossas cidades, segundo preconceitos racistas e xenófobos.  

Cesária Évora Orchestra para nos aproximar do Paraíso 

Cesária Évora é uma cantora poderosa. A sua presença e repertório continuam nas grandiosas performances do Cesária Évora Orchestra, que têm um forte magnetismo, com capacidade de atrair o interesse de pessoas diversas.

No espaço do Theatro Circo, as pessoas recriam um espaço comunitário, que esbate as diferenças, sentem a música profundamente, dançam quando os ritmos são mais saltitantes como o Sangue de Beirona; arrepiam-se, fazem silêncio e pensam em qualquer coisa longe quando se canta Cabo Verde Terra Estimada, deixam-se confundir os sentimentos (melancólicos e bem dispostos) quando se canta Fatalidade, aplaudem vivamente a Orchestra no final de cada música, aproveitam os espaços de silêncio para mandar recados de nobres causas políticas: - Eles andam aí!  Não tenham medo! Braga é nosso.  

É, pois, Braga é dos bracarenses, das pessoas que se levantam para abraçar a diversidade que vem crescendo na cidade, daqueles que firmam barreiras para travar a passagem do ódio. Braga é a capital da cultura que promove o outro e que se propõe a estar na vanguarda do futuro da Afrodescendência, um futuro que aqui pulsa firme, suportado por redes de apoio e que encontra no passado, referências e inspiração necessárias para renovar as lutas.   

fotografias de Adriano Ferreira Borges

 

por Zezé Nguellekka
Vou lá visitar | 17 Setembro 2026 | afrodescendência, Braga, Festival Paraíso