Corpo como Fronteira, a fotografia de Ildefonso Colaço

A fotografia de Ildefonso Colaço faz dos bairros periféricos de Maputo o centro da cidade. É aí que as novas gerações se sonham e sonham o seu lugar. Aos domingos, os bairros animam-se, enquanto o silêncio invade a xilunguine. Na segunda-feira, regressa a labuta, sempre a txovar, e todos procuram o pão nosso de cada dia — ou o pão nosso de cada noite.

Ildefonso Colaço tem vindo a retratar as realidades das zonas periurbanas de Maputo. Ao recolher com a sua câmara pequenos fragmentos da vida quotidiana, o fotógrafo vai construindo um arquivo da vida desses bairros, partindo da tradição do fotojornalismo moçambicano. Mas Colaço vai além do retrato da realidade: a sua fotografia conceptual propõe novas formas de ser e estar nos bairros periféricos de Maputo.

Um tema central do seu trabalho é a moda e a forma como os jovens se inventam através das roupas de fardo. Aqueles pedaços de pano amarrotado transfiguram-se nos corpos fotografados, inventando subjectividades e inscrevendo a sua imagem no tecido urbano de Maputo. Estas imagens enfatizam o lado performativo da cultura moçambicana, provocando quem passa a repensar-se dentro desta paisagem urbana. Os mercados, cheios de vida, vendem-nos as calamidades com que inventamos a última moda: saímos txunados a alegrar as ruas da cidade e os becos dos bairros.

Da Rua de Bagamoyo às terras makonde, o que escondem e revelam estas máscaras dos países que somos e sonhamos? Os cintos que nos amarram, as paredes que nos dão abrigo ou nos aprisionam. As máscaras que escondem os nossos sonhos, os nossos medos e os nossos mistérios.

O Mapiko ocupa um lugar central não apenas nas terras makonde, mas em todo o país. Os rituais de iniciação trazem as crianças ao mundo dos adultos e ensinam-nas a olhar a morte de frente. Foi nas terras makonde que começou a nossa luta de libertação — e a luta continua. As máscaras do Mapiko desempenham um papel fundamental na preservação da nossa memória cultural. Mas a memória é feita tanto de passado como de presente e de futuro.

Ildefonso Colaço retrata uma nova geração moçambicana que agarra o destino nas mãos e decide construir as suas próprias identidades com as memórias do passado, mas sem ficar presa às suas amarras. Uma das funções do Mapiko é restaurar o equilíbrio entre o masculino e o feminino. Colaço mostra que esse equilíbrio pode seguir outros caminhos, acolher outras subjectividades, sempre à procura da liberdade que no passado se sonhou em Mueda, mas que hoje pode ser imaginada de inúmeras outras maneiras.

Esta série inaugura uma nova fase no trabalho de Ildefonso Colaço, em diálogo com as tradições e os rituais moçambicanos. Estas máscaras somos todos nós: os nossos espíritos e os nossos sonhos, as nossas lutas, as nossas vitórias e as nossas derrotas. E também os que vieram antes de nós.

folha de sala

 

por Inês Cordeiro Dias
Vou lá visitar | 8 Setembro 2026 | arte contemporânea, bairros periféricos, cultura makonde, fotografia moçambicana, fotojornalismo, identidade, Ildefonso Colaço, juventude, Mapiko, Maputo, memória cultural, moda