Cova

Era numa volta de mão. Uma gatinhada veloz pelas escadas íngremes da casa do Sr. Pina. A nossa casa. A casa possível numa cidade com linhas invisíveis.

— Olha que ela ainda cai — a minha mãe, numa de gastar a voz, porque, verdade verdadinha, ninguém ligava.

— Ela é rija! — dizia alguém.

Rija como só se pode ser aos dez meses quando pouco ou nada se sabe do mundo. 

A minha mãe pegava em mim e dava-me beijinhos. Eu pegava nas argolas que ela usava sempre, douradas. Combinavam com a pele dela.

“Tentação” da Gama, em alto e bom som. Fiz de tudo para não gostar de quizomba, mas é engraçado que a essa canção nunca consegui resistir.

Eu subia para o piso mais alto. Papas de milho da avó Eva — umas gotinhas de limão e estava a andar.

Descia para o piso inferior. Um cheirinho a detergente de lavanda. Tenho a sensação de que estavam sempre a limpar o chão.

A minha tia Titina. Gostava que tivesse sido ela a minha madrinha. 

Dois pisos, uma família. Um bairro com nome que assusta — Cova da Moura. É de lá que vim, de que sou. Há muito tempo que de lá saí e isso não me impediu de ir para a cova de mim. 

— Vizinha, quer entrar? —  poderia ter dito qualquer pessoa. Lá as portas nem existiam de tanto que estavam abertas.

— Não quer provar a cachupa — quem não quereria?

Em qualquer esquina havia sempre, se não me falha a memória, alguém a vender torresmo ou um pastel de massa tenra. Em qualquer esquina um pedaço oleoso gritava “casa”, “abrigo” quando o resto do mundo gritava “estranho”, “frio”.

Na Cova da Moura senti calor mesmo quando escorria água nas paredes lesadas da humidade. Mesmo quando sentia baratas por dentro dos sofás e com elas os calafrios. Não tinha frio, vivia em verdade.

Um dia o meu tio pisou com um pé descalço um dos muitos ratos que connosco coabitavam, matando-o num golpe. Não senti nada senão honestidade.

A varanda com cinquenta centímetros de largura e um corrimão enferrujado. A casa corredor. As velas feitas em candeeiros. Verdade. A verdade que hoje não encontro. Tive de voltar à Cova da Moura para sair do fundo de mim. Uma vez mais, memória é refúgio.

 

por Lara Guimarães
Mukanda | 19 Março 2026 | Cova da Moura