Entre jornalismo e amor público: contar o coletivo em tempos de crise

O livro Pequenas Resistências: Ideias sobre jornalismo, utopias e amor público trata um dos temas mais importantes dos dias de hoje, num ecossistema mediático marcado por profundas desigualdades de visibilidade, poder e representação. Como se adivinha a partir do título, este livro de Helena Amante fala-nos sobre a importância e os desafios do jornalismo e dos jornalistas nas sociedades atuais. Sociedades aceleradas pelo neoliberalismo, suportadas pela tecnologia e em que as ameaças à democracia se robustecem a cada dia e, ironicamente, a cada eleição.


O jornalismo é importante em si mesmo. Mas, sobretudo, é importante pela forma como se ramifica e impacta transversalmente o que somos enquanto sociedade. Num tempo em que, com as redes sociais, virtualmente todos e todas podem aceder e produzir informação — nem sempre fiável, nem sempre contextualizada, nem sempre reconhecendo a complexidade da realidade —, o jornalismo continua a ser insubstituível, ainda que também ele não esteja imune a tensões, limitações e disputas internas. O jornalismo informa. Mas faz isso de uma forma que mais nenhuma outra prática faz. O jornalismo verifica fontes. Está consciente das implicações políticas e sociais do que conta e de como conta. É uma janela nítida para realidades e subjetividades que desconhecemos. É a melhor garantia de cidadania informada. E, por isso, central na construção coletiva e deliberativa que é a democracia como a conhecemos e como a ambicionamos.

Sem jornalismo, como conheceríamos todos o que se passa em Gaza? É certo que o sabemos também pelas redes sociais, como o Telegram ou o Instagram, mas chega-nos muitas vezes mediado pelo trabalho de jornalistas, incluindo jornalistas palestinianos. Como acederíamos a tantas histórias de saúde mental? E como as ligaríamos enquanto fenómeno político relevante? Como teríamos conhecimento dos casos de feminicídio que assolam as sociedades? Como saberíamos o que se passou no bairro do Zambujal? Em concreto, como é que contextualizaríamos as diferentes narrativas e informações? Sem jornalismo, seriam apenas imagens e narrativas partilhadas em rede, sem contexto, a partir de pontos de vista parciais, nunca confrontados.

O jornalismo é central neste livro. Sendo central, não está sozinho. A autora junta-lhe o que considera ser o “amor público”. Se o jornalismo é o tema, o amor público é bússola e guarda-chuva. Juntos fazem a combinação estrutural e estruturante do livro. Os dois — tão exigentes, tão óbvios, tão essenciais e tão em risco. Dando nome logo ao primeiro capítulo, o amor público é omnipresente no livro — explícita, mas sobretudo implicitamente. É visto por Helena Amante muito a partir do que Rebecca Solnit propõe na sua obra: “esta emoção profunda a que chamo de amor público, este sentido de significado e de propósito, poder, pertença a uma comunidade, uma sociedade, uma cidade, um movimento”. Mais do que uma emoção, o amor público surge aqui como uma prática política que sustenta o comum e que resiste à fragmentação e ao individualismo que marcam as sociedades contemporâneas.

O jornalismo como amor público. Esta é, no livro de Helena, simultaneamente uma afirmação e uma interrogação. Se o jornalismo é serviço público, ele depende de financiamento que condiciona — seja um condicionamento editorial (o que se reporta e como se reporta), seja em termos de tempo (durante quanto tempo se consegue manter um projeto editorial). E como conjugar serviço público, financiamento e a necessidade de previsibilidade nas nossas vidas? Se o jornalismo é dedicação, a verdade é que assenta grandemente em trabalho precário e exige cabeça limpa a quem todos os dias não sabe como pagará as contas desse mês. Se o jornalismo representa todas e se dirige a todas as pessoas, qual o lugar das mulheres e das pessoas racializadas, por exemplo? Como estão elas na redação? Que lugares de decisão ocupam? Tudo o que o jornalismo é e o que poderia ser. Tudo o que tem oferecido e o que poderia oferecer. Mas sem nunca perder a esperança, a garra ou a interrogação.

A Helena parte para este périplo de testemunho e reflexão sobre o jornalismo como amor público tendo como ponto de partida e de chegada o projeto do Fumaça — a sua história, as suas pessoas, a sua proposta e o seu projeto ambicioso, alternativo e dissidente. O Fumaça é apresentado como uma corporização do amor público no jornalismo. Um possível exemplo da mudança que se quer ver. Uma prova de que a mudança também se faz por pura convicção. Para usar as palavras da autora: um “salto de fé — uma fé que nada tem de religioso” (p. 51). A Helena chega à redação do Fumaça num “quase Verão” de 2020 para começar a recolher material para um documentário que acaba por não acontecer e que, na verdade, ganha forma neste livro. Talvez, por isso, o registo do livro seja tão próprio: uma mistura de reportagem, entrevista, crónica e ensaio (p. 16), o que o torna muito cativante para quem lê.

A escrita de Helena é serena mas intensa; detalhista, sem ser maçadora; intimista e, ao mesmo tempo, jornalística. Por entre as passagens que descrevem o dia-a-dia da redação do Fumaça, as entrevistas a quem nela trabalha, bem como a outros profissionais ligados ao jornalismo, não são infrequentes as partilhas do seu sentir, do seu pensar e do seu estado de alma — enquanto jornalista, ensaísta, ativista, mulher de esquerda e autora desta obra. Na verdade, ao mesmo tempo que reporta, cronica e ensaia sobre media alternativos, a Helena partilha questões sobre o seu próprio livro — a sua natureza democrática, horizontal, transparente, justa e informativa.

No livro, andamos em linha cronológica, mas em saltos suaves, como portas que se abrem e fecham. A Helena faz vários jogos com as cenas que reporta e que leva para as suas reflexões. O dentro e o fora, a reportagem e a reflexão, a cidade e o jornalismo são paralelos e metáforas muito presentes. Como se lê numa passagem do início do livro — ao chegar à redação do Fumaça, conta: “É a Lisboa antiga, hoje tão turística, mas na sua inclinação a rua recolhe-se: a confusão mora ao lado, aqui os carros não passam, circula pouca gente (…). No Bairro Alto que já foi dos jornais, como atestam os nomes das ruas — a Rua do Diário de Notícias —, são eles agora os únicos representantes, eles e um jornal desportivo, A Bola.” (p. 23). Mostra como a transformação da cidade reflete também a transformação do jornalismo.

O Fumaça é a história central a que sempre regressamos. E digo “regressamos” porque as viagens que Helena nos oferece na obra vão, na verdade, muito além dele. Fala de outros projetos de media alternativos (The Correspondent, Investigate Europe, Mediapart, Divergente, Setenta e Quatro, A Mensagem de Lisboa, Afrolis, O Corvo, entre outros), da problemática mais geral do financiamento — publicidade, base contributiva dos projetos, pagamento por notícias, bolsas estruturais, etc. — e de como é tão difícil pensar o longo prazo no jornalismo; da precariedade; da desinformação; das mulheres nas redações; da questão da isenção no jornalismo e de como pode ser tão problemática; do tempo do jornalismo; e das redes sociais como fonte e competidores.

E, sobretudo, creio que o livro da Helena Amante é sobre o coletivo. O coletivo de amor público. É, essencialmente, a ideia de coletivo — o que o move, como se move, de que é feito e o que alcança — a maior marca que este livro deixa em quem o lê. A Helena começa precisamente por partilhar a dificuldade que há em contar histórias coletivas — seja essa dificuldade por questões pragmáticas, como o tempo, ou emocionais, como a empatia facilitada por uma história e rostos únicos. Como a própria afirma: “Há um motivo pelo qual a narrativa do herói funciona tão bem: simpatizamos com o particular, com o individual. É por isso que o desaparecimento de uma única pessoa pode fazer manchetes durante mais tempo do que a morte de milhares — apela-nos à emoção. Numa narrativa, é mais difícil acompanhar o percurso de muitas personagens. Quanto mais personagens, menos capacidade temos de nos envolver emocionalmente naquilo que lhes acontece. As narrativas coletivas levam mais tempo. Pedem mais tempo” (p. 32).

Muitas vezes, os coletivos pedem figuras excecionais. Mas não há heróis individuais. Não há coletivos homogéneos. Não há horizontes grandiosos fruto de um salto único. Como mostra Helena, através do equilíbrio entre entrevistas individuais e dinâmicas coletivas, os coletivos são feitos maioritariamente de momentos corriqueiros mais do que de grandes momentos. São dispersos nos seus percursos, nas suas sensibilidades, nas suas subjetividades. São de muitas cores.

Falar do coletivo visibilizando o individual, feito de gentes e dos seus percursos, mas sem cair na falácia neoliberal de “a mudança és tu” — é isto que o livro problematiza e consegue fazer tão bem. Porque em todas as histórias está a cola que é a chave: a cola que junta sociedade, a democracia, a política, a realidade — e que pode ser o jornalismo, mas também é, e com uma força determinante, o “amor público”. É por aí que se vai — e talvez seja precisamente isso que hoje está em disputa

por Sofia José Santos
A ler | 29 Abril 2026 | jornalismo, resistência, utopia