Conceição Lima, um despojar de limites

Conceição Deus Lima, Festival Fim do Mundo, Cacau, São Tomé, 2025 foto de Marta Lança Conceição Deus Lima, Festival Fim do Mundo, Cacau, São Tomé, 2025 foto de Marta Lança

Como render, em breves linhas, uma homenagem à poesia de Conceição Lima, voz maior das ilhas de São Tomé e Príncipe, cuja recente partida nos deixou essa funda sensação de orfandade na literatura africana? Há mortes que parecem suspender o tempo, como se o silêncio se tornasse mais denso e o mundo, de súbito, menos habitável. A sensação que temos é de que estamos todos enlutados. A morte é sempre uma surpresa trágica. A partida de uma poeta grandiosa da estirpe de Maria Conceição de Deus Lima é um mistério inconcluso na finita infinitude da condição humana. Perder uma poeta é perder também uma forma singular de (re)inventar a linguagem, pois sua poesia é convite à palavra cerzida no universo de uma literatura que reivindica na eleição das metáforas o experimento com o verbo insular. 

Ao transpor a leitura da memória como guardiã dos séculos, a palavra poética em Conceição Lima alcança a reminiscência de uma cosmogonia afroinsular com um tipo de crítica que denuncia as consequências da colonização no território africano. A sua poesia ergue-se como maré antiga: ao mesmo tempo delicada e devastadora, íntima e coletiva. Em seus versos, as ilhas deixam de ser apenas geografias para converterem-se em corpo, cicatriz, raiz e destino. Cada poema parece nascer do sal, da ancestralidade e da matéria viva da história, convocando vozes silenciadas, reinventando pertencimentos e abrindo caminhos para uma África plural, ferida e luminosa. 

Enquanto casa matrilinear, a (re)escritura da poeta de O útero da casa1 alinhava o fio da criação literária à po-ética do Arquipélago. No universo insular das palavras, a ilha poética da autora de A Dolorosa Raiz do Micondó 2 inscreve-se no horizonte das literaturas africanas contemporâneas, com poemas direcionados à cartografia local, à memória histórica e à consciência anticolonial. Sua escrita faz da ilha não apenas espaço geográfico, mas território simbólico de ancestralidade, ruína e reinvenção. Essa reconstrução simbólica ecoa nos versos em que a poeta ergue a casa sobre os escombros da história. Nesse sentido, como assinala Inocência Mata as “imagens líricas da realidade transformam-se em corrosivas e antilíricas”3 (MATA, 2006, p. 240).

Aqui projectei a minha casa:
alta, perpétua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poroso
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado.
Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem trancas nos caminhos.
Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio
as linhas inacabadas do projecto.4

Nesses poema, a casa ergue-se como corpo vivo da nação insular: nascida entre escombros, recortada contra o mar e sustentada pela respiração funda da memória coletiva. Os murmúrios dos barcos atravessam o poema como ecos de travessias antigas, diásporas e heranças ancestrais que o tempo não conseguiu naufragar. Já“as linhas inacabadas do projecto” (Ibidem) insinuam uma identidade em permanente devir, tecida fio a fio entre perda, resistência e reinvenção. Em Conceição Lima, a ruína não é fim: é matéria de renascimento. E a poesia, feita de sal, memória e claridade, converte-se em abrigo afetivo e gesto de reconstrução histórica diante das fraturas deixadas pela colonização. É nesse horizonte de resistência que a palavra se torna também denúncia e reinscrição da história. Em Conceição Lima, a memória das ilhas convoca a violência fundadora do espaço colonial, agora condensada numa escrita interrogativa, como no poema “Roça”5:

Perguntam os mortos:
Porque brotam raízes dos nossos pés?
Porque teimam em sangrar
Em nossas unhas
As pétalas dos cacueiros?
Que reino foi esse que plantámos?

Neste excerto, a roça transforma-se em um lugar de retorno dos mortos e de interrogação ética, como se a própria terra devolvesse as vozes soterradas pela história. As imagens de corpos vegetalizados evidenciam a imbricação entre humanidade e violência no espaço colonial, enquanto a pergunta final desloca o olhar para a responsabilidade histórica inscrita no sistema colonial na construção do espaço insular.

É a partir dessa memória ferida do território que a palavra poética se reconfigura como gesto de resistência e de reinvenção. Na movência de uma política de inclusão, a palavra é uma arma içada pela resistência e pela esperança, a poeta, aqui destacada, chega a sentenciar no estribilho da ironia o que aparece como invisibilidade social:

Pelo mar viemos com febre. De longe viemos com sede.

Chegamos de muito longe sem casa” 6

A memória da palavra relembra a memória da plantação em água e pedra que se liquefaz ao acompanhar o movimento secular da agricultura marítima. Ao nortear a amplitude de uma imaginação movente que se espraia no contrafluxo de uma consciência estética, Conceição Lima transfigura os limites de uma realidade que vive à beira de uma escrita de si que é uma escrita de nós: 

Cheguei para despojar de limites

o teu nome

Não eras.

As nuvens estão densas de ti

sustentam a tua ausência

recusam o ocaso do teu corpo

mas não és7

Na memória das ilhas, a simples procura em experimentar o tempo da palavra resgata outra maneira de ressignificar as encruzilhadas insulares, seja a partir do que se ramifica no ciclo do círculo ou ao redor de um eu que é coletivoA poeta partilha o sensível enquanto resiliência e ação transformadora, como quem atravessa um legado ancestral que vem das mais antigas poetas contadoras. Com um tipo de lírica que alicerça as bases na própria existência, na utopia de alcançar uma sociedade quem sabe um dia menos desigual, Conceição Lima se aproxima de uma construção de sentido, em um mundo que se apresenta pleno de desencanto:

Ao virar da esquina seguiremos em frente

Sem vergar a cabeça, afastaremos o capim

Sentiremos o frio do orvalho nas nossas pernas-

caminhemos.8

E seguimos porque, na sua escrita, caminhar é sempre um gesto inaugural, onde a esperança, ainda ferida, insiste em florescer.

  • 1. LIMA, Conceição. O útero da casa. Lisboa: Editorial Caminho, 2004.
  • 2. LIMA, Conceição. A dolorosa raiz do micondó. Lisboa: Caminho, 2006.
  • 3. MATA, I. A poesia de Conceição Lima: o sentido da história das ruminações afetivas. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, [S. l.], n. 7, p. 235–251, 2006. Disponível em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/165. Acesso em: 18 maio. 2026.
  • 4. LIMA, Conceição. “A casa”. In: O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004. p. 19.
  • 5. LIMA, Conceição. “Roça”. In: O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004. p. 30.
  • 6. LIMA, Conceição. “Manifesto imaginado de um serviçal”. In: O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004. p. 35
  • 7. LIMA, Conceição. “Antes do poema”. In: O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004. p. 46-47.
  • 8. LIMA, Conceição. “Projecto de canção para Gertrudis Oko e sua mãe”. In: O país de Akendenguê. Lisboa: Caminho, 2011. p. 60-61.

por Tânia Lima e Elizabeth Olegário
A ler | 22 Maio 2026 | Conceição Lima