O que se pode ver na Bienal de Arte de S.Tomé

Emeke Okereke (Nigéria)Emeke Okereke (Nigéria)Olavo AmadoOlavo AmadoIhosvannyIhosvanny

 

fotografias de Miguel Ribeiro

Inauguração

Foi ao fim da tarde de terça-feira que o Presidente são-tomense, Manuel Pinto da Costa, declarou aberta a 6ª Bienal internacional de Arte e Cultura, na Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopia (CACAU), no centro de São Tomé.

“Este encontro de partilha das culturas e das artes da Lusofonia e do mundo. É um momento ímpar para a divulgação do rico património cultural e natural”, afirmou Manuel Pinto da Costa.

Agualusa, presidente  de S. Tomé - Manuel Pinto da Costa, Adelaide Ginga e João Carlos Silva Agualusa, presidente de S. Tomé - Manuel Pinto da Costa, Adelaide Ginga e João Carlos Silva

“Hoje podemos dizer que, depois de termos começado o trabalho na Roça S. João, São Tomé e Príncipe pode dar-se ao luxo de ter uma mão cheia de artistas que podem estar numa cidade qualquer do mundo. Isso anima-nos e orgulha-nos”, disse João Carlos Silva, o Presidente da Bienal, na cerimónia de abertura. Também Adelaide Ginga, comissária-geral da exposição considerou que “a Bienal procura cada vez mais contribuir para que São Tomé e Príncipe seja um entreposto cultural e um gerador de novos encontros e partilhas”.

Celina Pereira canta na abertura e encerramento do Roça LínguaCelina Pereira canta na abertura e encerramento do Roça Língua

O escritor angolano José Agualusa sublinhou que a Bienal “tem colocado o arquipélago no mapa da cultura dos acontecimentos culturais africanos” e relembrou que “os são-tomenses foram os primeiros africanos a escrever e a publicar em língua portuguesa”, concluindo que “Angola deve muito a São Tomé e alguns dos seus melhores filhos são são-tomenses”.

João Carlos Silva, criador deste projecto que começou em 1995, apelou às autoridades nacionais sobre a necessidade urgente de se concretizar a candidatura do “Tchiloli” a património mundial da UNESCO.

A 6ª Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe, com o tema “Património-Patrimónios”, homenageia o escritor e artista plástico Almada Negreiros e o pianista e compositor Vianna da Motta, ambos nascidos em São Tomé, que constituem referências da cultura contemporânea. “Vamos fazer regressar Almada Negreiros a São Tomé com a construção de uma escultura que ficará colocada no local onde nasceu, na Roça Saudade”, disse João Carlos Silva. Vianna da Motta vai ser lembrado com um concerto do pianista português António Rosado no final da Bienal. Até ao final do mês de Novembro a Bienal está na rua!

amostra de Tchilolli amostra de Tchilolli


Residências criativas - viver para criar

Se na Bienal anterior houve uma selecção de obras de artistas escolhidos, nesta edição, a ideia foi outra. Seleccionar artistas que pudessem desenvolver em São Tomé, um trabalho que se baseasse no tema da Bienal: “Convidámos uma dúzia de criadores para, durante duas semanas, desenvolverem em São Tomé as suas obras, a partir das interacções locais várias o que os levou a descobrir a cultura e o património santomense”, explica Adelaide Ginga, a curadora da 6ª Bienal. 

Kwame SousaKwame SousaWaldemar DóriaWaldemar Dória

 

Comer palavras

Patrícia Corrêa, 33 anos, performer.

Uma mesa quadrada e pequena, duas cadeiras frente-a-frente, estou sentada numa e a outra está livre. Um temporizador de jogo de xadrez que representa o tempo: o jogo entre duas pessoas e o tempo limitado. Tempo que é pesado, que não tem peso, que liberta. Tenho os pés enterrados num vaso cheio de terra (porque fiz no espaço da Cacau, se fosse ao ar livre seria com os pés na terra) para criar raízes. Em cima da mesa está um aparo com corante alimentar e folhas de goiaba que são comestíveis e utilizadas como plantas tradicionais. Tratam doenças do intestino. Convido cada pessoa a sentar-se comigo, apenas com um gesto de mão, e vou pedindo, com entoações diferentes, para que me plantem uma palavra. A palavra é escrita na folha. Que eu como.

A ideia é esta relação entre as pessoas, que falam sem falar, porque a palavra não dita é muito forte. Sabia desta energia do Roça Língua. Queria fazer um ponto de ligação entre a arte contemporânea e a escrita. Tentei uma acção de partilha e de diálogos de olhares e sem palavras. A palavra é uma semente muito forte.

Exterior da CacauExterior da Cacau

obras de Eduardo Maléobras de Eduardo Malé

Património útil para o futuro

José Manuel Fernandes. Arquitecto. 58 anos. Professor de História da Arquitectura na Faculdade de Arquitectura da UTL. Autor do livro “Arquitectura e Urbanismo na “África Portuguesa”, edições Caleidoscópio 2005. Tese de Doutoramento  “Cidades e casas da Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias, Cabo Verde e São Tomé) 1993.

Porquê São Tomé como objecto de estudo ou o que tem de especial para merecer a sua atenção?

Desde há vinte ou trinta anos que me interessa a história da arquitectura portuguesa fora de Portugal. Aliás ela não é compreensível sem aquela que se fez fora de Portugal. Além do mais, todos os portugueses têm uma ligação ao mundo ‘ultramarino’. A minha mulher nasceu na Índia, em Damão, terra de António Sérgio. África é sobretudo Angola e Moçambique, mas há pequenos mundos: Cabo Verde e São Tomé. Este, é um sítio precioso, muito claro e muito concentrado.

Mas construiu-se, na fase colonial, de uma forma diferente em São Tomé do que em Angola e Moçambique?

Sim, porque nesses dois grandes países há uma arquitectura de matriz portuguesa de arrojo e de escala muito superior à do Portugal ibérico. Não há uma estação de caminhos-de-ferro como na Beira ou em Maputo. Estas ilhas – São Tomé e Cabo Verde – mantêm uma pequena escala de obra, de construção, de arquitectura e urbanismo que é mais a escala dos Açores e da Madeira do que a de Angola ou Moçambique. Aqui há um edifício para o cinema, para os correios, para a alfândega, mas curiosamente não há para a Biblioteca Nacional (só foi construída no pós-independência), mas havia um arquivo. As administrações coloniais portuguesas reduziram o construído ao essencial. O Liceu Nacional que é um belíssimo edifício, mas, à época, era apenas Escola Técnica Silva Cunha.

E a arquitectura das roças?

É única, original e preciosa! Não existe em mais nenhum lugar este tipo de organização económica e produtiva. Chegou a haver cerca de 270, aqui e no Príncipe, instalações roceiras num território minúsculo, que foi o maior exportador de cacau do mundo no início do século XX. Este ciclo produtivo perdeu-se em meados do século e estamos agora perante um património riquíssimo, mas decadente. Que precisa de intervenção, de aproveitamento agrícola porque vivem milhares de pessoas nas roças que trabalham aquela terra. Mas também podia ser aproveitado como turismo cultural que a Europa e a América procuram. O que é engraçado é que a roça criou uma rede de habitação, de hospitais, de assistência e esse podia ser o terceiro elemento. Talvez tenha futuro. Sejamos optimistas porque o património tem de ser útil para o futuro.

início da montagem da exposição 'Inventariar as roças de S.Tomé e Príncipe' de Rodrigo Andrade e Duarte Papeinício da montagem da exposição 'Inventariar as roças de S.Tomé e Príncipe' de Rodrigo Andrade e Duarte Pape

Património e memória – Alfredo Caldeira

“Cuidem bem destes documentos. Isto é o nosso sangue. A nossa vida”, pediu um grupo de timorenses quando entregou um conjunto de documentos que vinha da luta das montanhas pela independência de Timor para que não se perdessem.

Resguardar da humidade, do calor, do suor das mãos, microfilmar, digitalizar, conservar e tornar acessível a todos que não querem esquecer, para não se esquecerem de quem são. Porque memória é identidade e condição de independência. A ideia central do workshop de Alfredo Caldeira, responsável pelo arquivo da Fundação Mário Soares, que para lá dos meios técnicos, financeiros e humanos necessários, defendeu que a vontade é o impulso inicial para guardar, preservar e arquivar.

 Assim nasce o projecto de criar uma Comunidade de Arquivos de Língua Portuguesa online onde se pode colocar em rede, aberto a todos, aquilo que já foi recolhido, tratado, inventariado e que faz parte do que somos. Um património que partilha para correr mundo.

Preservar, guardar, usar a memória para poder construir o futuro. Uma memória que é escrita, mas também oral, que é edificada, construída e que permite continuar as identidades nacionais diversas. É por aqui que pega a exposição “Não é só pedra” na Casa da Cultura. Onde se retrata o património comum dos estudantes africanos que passaram por Lisboa na década de 60. A Casa dos Estudantes do Império, o Centro de Estudos Africanos, o Clube dos Marítimos, o nº.37 da Rua Actor Vale – casa da família Espírito Santo, foram locais de encontro, fundamentais para a afirmação da identidade destes estudantes.

A língua uniu, “apesar de também ter sido objecto de opressão” considera Alfredo Caldeira “mas foi pela poesia que os estudantes em Lisboa se afirmaram e se descobriram africanos”. Daí que Mário Pinto de Andrade tenha afirmado um dia que “em 61 (quando muitos fugiram de Portugal para a Europa), de poetas passámos a militantes”. 

Ainda assim, Amílcar Cabral deixou dito que “a coisa mais bonita que os portugueses nos deixaram foi a língua”. Que não é só pedra.

jovens na Cacaujovens na Cacau

estátua dedicada a Almada Negreiros de Geane Castroestátua dedicada a Almada Negreiros de Geane Castro

 

6ª Bienal de São Tomé e Príncipe já está cá. Até 30 de Novembro!

João Carlos Silva

Arte, palavra, história, música e expressão na cidade e na ilha de São Tomé. O património que fica na nossa memória.

A Bienal espalha-se pela ilha de São Tomé na CACAU, na Roça Agostinho Neto, no Liceu Nacional, no infantário Tartaruga, na Roça Água Izé, na Roça São João, na Escola do 1º. Ciclo do Ensino Básico em Angolares, na Escola Portuguesa do 1º. Ciclo na cidade de São Tomé, na Roça Saudade, no IDF, no Centro Cultural Brasileiro, na Biblioteca Nacional, na Escola D. Maria de Jesus, no Centro Cultural Português, no Palácio dos Congressos, na Praça Yon Gato, na Casa da Cultura, na Praça da Independência, no Marcado Velho e na Galeria Teia D’Arte.

32 artistas, 11 escritores, 5 arquitectos, 3 actores, 3 músicos, 2 documentaristas, para fazer exposições, instalações, sessões de leitura  nas escolas, 4 workshop -  teatro e Tchiloli, património e memória,  jornalismo, som e corpo -,  cursos de escrita criativa, fruto de residências artísticas na cidade e nas roças.

DionísioDionísioEsta corrente de ideias, de cores, de património e de formas de olhar chega-nos de França, de Cabo Verde, do Brasil, da Nigéria, da Guiné-Bissau, de Angola, de Timor Leste, de Portugal, de Moçambique, do Zimbabwe e de São Tomé.

Para lá do que há para ver na CACAU e pela cidade fora com as fotografias de Luís Barra sobre o Tchiloli em enormes telões, se passar pelos vários espaços da Bienal, vai ouvir falar do património edificado, da criação de um arquivo on line sobre o património construído, documental e oral dos países da língua portuguesa, do conjunto “único no mundo” das Roças que se mostra na exposição no Palácio dos Congressos e das Cubatas-Evolução, casas auto-sustentatadas de madeira.

O que fica desta Bienal deixa-nos mais perto uns dos outros. 

 

 

Todos estes textos saíram no jornal da Bienal, recolhidos e escritos por Maria Flor Pedroso com layout de Henrique Cayatte.

por Maria Flor Pedroso
Vou lá visitar | 14 Novembro 2011 | bienal de s.tomé, s.tomé e príncipe