Entre a arte e a memória: Rosana Paulino e a construção de narrativas decoloniais
Introdução
A arte contemporânea afirma-se como um campo crítico no qual os limites entre passado e presente, visível e invisível, arquivo e documento são constantemente tensionados. O olhar político de sua prática está, sobretudo, em questionar a invisibilização de narrativas historicamente marginalizadas, trazendo-as para o centro do debate, e fazendo da prática artística um dispositivo de visibilidade, elaboração simbólica e contestação dos regimes. Nesse sentido, a obra de arte deixa de se restringir à condição de objeto estético e passa a operar também como forma de testemunho, e conhecimento capaz de revelar camadas da história que
foram apagadas, omitidas ou violentamente silenciadas.
Esta investigação procura responder à seguinte questão: de que forma Rosana Paulino mobiliza o arquivo, a memória e as práticas têxteis para construir uma crítica decolonial das representações históricas das mulheres negras no Brasil. E como a artista utiliza a arte para revelar e reconfigurar narrativas silenciadas. Para responder a esta questão, serão analisadas as obras Bastidores (1997), Tecido Social (2010) e Amas de Leite (2005-2009), articulando-as com os conceitos de colonialidade, memória, arquivo e conhecimento sensível.
Rosana Paulino, nasceu em 1967, vive e trabalha em São Paulo. Ela é Doutora em Artes Plásticas pela USP, e especializada em gravura pelo London Print Studio, de Londres. As suas obras estão presentes em importantes coleções internacionais e e de museus brasileiros, como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu Afro Brasil. A arte de Rosana Paulino gira em torno de urgências sociais, étnicas e de gênero, e suas obras investigam e denunciam as múltiplas formas de violência sofridas por mulheres negras, compreendendo essas violências como reflexos do racismo estrutural e do legado persistente da escravidão. Através de desenho,
pintura, impressão, costura e colagem, Paulino explora o impacto da memória nas construções psicossociais, articulando referências que cruzam sua história pessoal com a história coletiva do Brasil.
A prática de Rosana Paulino insere-se num movimento mais amplo da arte contemporânea internacional que, a partir de cerca de 1990, passou a tomar o arquivo histórico como material crítico. Hal Foster, no ensaio An Archival Impulse (2004), identifica uma geração de artistas contemporâneos como Christian Boltanski, Walid Raad e Tacida Dean que trabalham e recuperam documentos, fotografias e registos institucionais para os reconfigurar segundo outras lógicas de sentido, não para restaurar o passado, mas para tornar legíveis as suas lacunas e violências.
Enquadramento Teórico
Decolonialidade
O conceito de decolonialidade emerge como uma ferramenta fundamental para compreender as persistências do colonialismo nas estruturas sociais, culturais, políticas e epistemológicas contemporâneas. De acordo com Aníbal Quijano, o fim do colonialismo “formal” não implicou no desaparecimento das suas estruturas de dominação, dando origem ao que o autor denomina “colonialidade do poder” (Quijano, 2005: 117-130). Este conceito refere-se à continuidade de hierarquias raciais, sociais e culturais que se consolidaram durante o período colonial e que ainda hoje organizam as relações de poder. Para Quijano, a colonialidade do poder não se limita ao domínio econômico ou político instaurado pelo colonialismo, mas organiza também classificações raciais e sociais que permanecem operantes na modernidade. A ideia de raça foi utilizada como instrumento de hierarquização humana, legitimando processos de exploração, violência e desumanização que continuam a estruturar as sociedades contemporâneas. Assim, mesmo após o fim formal do colonialismo, persistem formas de subalternização inscritas nas instituições, nos discursos e nas imagens.
O autor e professor Walter Mignolo amplia essa discussão ao propor a noção de colonialidade do saber, evidenciando como os modelos eurocêntricos de conhecimento foram historicamente universalizados, enquanto outros foram deslegitimados. Nesse sentido, a decolonialidade implica não apenas revisitar a história, mas questionar os próprios sistemas, a produção do conhecimento e de representação.
A artista Grada Kilomba destaca que “o racismo não é um acontecimento do passado, mas uma realidade presente” (Kilomba, 2008), evidenciando a continuidade das estruturas coloniais nas sociedades contemporâneas. Sublinha ainda que a história oficial foi construída a partir de um ponto de vista dominante. A arte contemporânea torna-se, assim, um espaço privilegiado para a emergência de narrativas dissidentes capazes de desafiar os regimes visuais herdados da modernidade colonial. A produção artística de Rosana Paulino insere-se precisamente nesse debate, ao problematizar as marcas da colonialidade na construção histórica da identidade negra no Brasil.
Memória, apagamento e arquivo
A memória constitui um campo marcado por disputas, seleções e silenciamentos. Longe de ser apenas um registo objetivo do passado, a memória é atravessada por relações de poder. Nesse contexto, o apagamento de determinadas narrativas não ocorre de forma acidental, mas resulta de estruturas de poder que controlam quem pode representar, narrar e produzir conhecimento. Como aponta Grada Kilomba, a produção do conhecimento está profundamente ligada a estruturas de poder que definem quem pode falar e quem permanece silenciado (Kilomba, 2008).
Neste contexto, o conceito de arquivo torna-se central para compreender as disputas em torno da memória e da representação. Mais do que um simples conjunto de documentos destinados à preservação do passado, o arquivo configura-se como um dispositivo de poder que organiza, seleciona e legitima determinadas narrativas históricas, ao mesmo tempo em que exclui outras. Assim, o arquivo atua diretamente na construção da memória coletiva, definindo quais acontecimentos, sujeitos e experiências serão registados e transmitidos historicamente. Desse modo, determinados grupos sociais foram frequentemente representados de forma parcial, estereotipada ou, em muitos casos, completamente apagados dos registos oficiais.
Jacques Derrida, ao refletir sobre o conceito de arquivo, demonstra que todo arquivo implica simultaneamente conservação e exclusão. Arquivar significa selecionar aquilo que merece permanecer visível na história, mas também determinar aquilo que será esquecido (Derrida, 1996: 9-11). Esta reflexão de Derrida complementa a noção de colonialidade proposta por
Quijano, ou seja, se a colonialidade estrutura as hierarquias do conhecimento, o arquivo constitui um dos dispositivos através dos quais essas hierarquias são preservadas e reproduzidas historicamente. No contexto colonial, os corpos negros foram frequentemente transformados em objetos de catalogação científica e racial, sendo privados da possibilidade de autorrepresentação. É precisamente contra essa lógica de apagamento que opera a obra de Rosana Paulino. Ao apropriar-se de fotografias científicas, imagens de arquivo e técnicas
artesanais, a artista reconfigura criticamente esses documentos, devolvendo subjetividade, memória e ancestralidade aos sujeitos que foram historicamente reduzidos à condição de objeto.
2.3 Arte como conhecimento sensível
A arte contemporânea tem vindo a afirmar-se como uma forma de conhecimento que acede a dimensões da experiência que os discursos académicos tradicionais dificilmente alcançam. 4Jacques Rancière, em A Partilha do Sensível (2000), argumenta que a arte opera redistribuindo aquilo que é visível, audível e pensável numa comunidade, alterando as fronteiras entre o que conta como experiência legítima e o que permanece invisível. Bell Hooks, em Art on My Mind (1995), aprofunda esta ideia ao argumentar que a estética negra é, em si, um ato de resistência, de criar e contemplar beleza a partir de uma posição historicamente subalternizada, é uma
forma de afirmar humanidade e subjetividade contra os regimes visuais que as negaram.
Rosana Paulino habita precisamente essa interseção ao tornar sensível, através do tecido e da costura, aquilo que os arquivos coloniais apagaram. A artista não apenas denuncia, mas produz conhecimento sobre experiências que a história oficial sistematicamente silenciou.
Paulino exemplifica de forma clara essa capacidade da arte de produzir conhecimento ao articular memória, história e identidade através de uma linguagem visual e material profundamente crítica. A experiência estética proposta por Rosana Paulino não se limita à contemplação visual, mas mobiliza afetos, desconfortos e tensões. As costuras, fragmentações e marcas presentes nas suas obras tornam visível uma memória traumática inscrita no corpo da mulher negra. Nesse sentido, a artista transforma a materialidade da obra em linguagem política, utilizando o tecido, a linha e a sutura como dispositivos capazes de corporificar violências históricas e, simultaneamente, elaborar processos simbólicos de reparação.
Análise das obras de Rosana Paulino
Grande parte da produção de Rosana Paulino caracteriza-se pelo resgate de técnicas associadas ao universo doméstico, como o bordado, a costura e a confeção de patuás, convertendo-as em linguagem crítica. O seu trabalho dialoga diretamente com a crítica desenvolvida por Françoise Vergès em Um Feminismo Decolonial (2020), a partir do conceito de “feminismo civilizatório”, isto é, um feminismo que ignora as hierarquias entre as próprias mulheres e naturaliza a exploração do trabalho doméstico racializado (Vergès, 2020: 23).
Bastidores (1997)
Nesta série, Rosana Paulino transfere fotografias de mulheres negras para tecido e enquadra-as em bastidores de bordado, objeto tradicionalmente associado ao espaço doméstico e às atividades consideradas adequadas ao universo feminino. Sobre essas imagens, a artista realiza costuras grosseiras que atravessam olhos, bocas e gargantas, transformando a linha simultaneamente em instrumento de violência e de reparação.
Ao perfurar os rostos, a costura materializa a interdição histórica da voz, do olhar e da subjetividade das mulheres negras, evocando aquilo que Grada Kilomba identifica como uma das principais operações do racismo colonial: a produção do silêncio e a deslegitimação da fala dos sujeitos negros.
O bastidor, por sua vez, deixa de funcionar apenas como suporte para o trabalho artesanal e converte-se num dispositivo de enquadramento histórico e de exposição, revelando como os corpos femininos negros foram historicamente disciplinados, observados e controlados. Ao apropriar-se de um objeto associado à domesticidade e ao cuidado, Paulino subverte o seu significado original e transforma-o num espaço de denúncia das violências raciais e de género inscritas tanto nas estruturas sociais como na intimidade do ambiente doméstico.
Bastidores (1997), Rosana Paulino. Reproduções do sítio oficial da artista e do Catálogo da Pinacoteca (2018).
Tecido Social (2010)
Em Tecido Social, amplia-se a metáfora da costura para pensar a própria formação da sociedade brasileira. A obra consiste em painéis de tecido sobre os quais figuras impressas, silhuetas humanas, mapas, armas e fragmentos de corpos são unidos por costuras visíveis. A composição sugere que o “tecido social” brasileiro não constitui uma unidade harmoniosa, mas uma superfície atravessada por suturas, remendos e cicatrizes.
A escolha do material têxtil remete para aquilo que Françoise Vergès identifica como o trabalho invisível das mulheres racializadas: “Essas mulheres ‘abrem’ as cidades todos os dias, limpando os espaços que precisam estar perfeitos para o funcionamento do patriarcado e do capitalismo neoliberal” (Vergès, 2020: 29).
O tecido torna-se, assim, um índice material do trabalho invisibilizado das mulheres racializadas, evocando as formas de cuidado e manutenção que sustentam a vida social sem reconhecimento histórico. Ao exibi-lo como suporte artístico, Paulino confere visibilidade a esse labor.
A obra propõe, deste modo, uma leitura do racismo estrutural não como acidente ou desvio, mas como algo profundamente “costurado” na história social, exigindo, para a sua superação, não apenas reformas superficiais, mas uma revisão radical das narrativas fundacionais.
Tecido Social” de 2010. Produção de Rosana Paulino. Monotipia colorida e costura em tecido
Amas de Leite (2005–2009)
A série Amas de Leite dialoga igualmente com as reflexões do feminismo negro sobre a maternidade. Ao representar uma das figuras mais ambivalentes da história colonial brasileira — a mulher negra escravizada que amamentava os filhos dos senhores e senhoras da elite branca —, Paulino demonstra como o corpo da mulher negra foi historicamente apropriado para garantir a reprodução física e social da ordem escravocrata.
Essas mulheres asseguravam a sobrevivência das crianças brancas através da amamentação e dos cuidados quotidianos, libertavam as mulheres brancas das tarefas de cuidado infantil, mantinham o funcionamento da família senhorial e garantiam a continuidade das relações de poder entre gerações. Não alimentavam apenas um bebé; sustentavam um sistema social inteiro, permitindo que a elite colonial reproduzisse os seus privilégios, a sua riqueza e a sua posição dominante.
Nesta série, Paulino trabalha com suportes distintos, como o tecido e as garrafas de vidro. Nas monotipias, apresenta retratos de mulheres negras impressos em tecido, ligados por cordões a pequenas garrafas de vidro que contêm fragmentos de fotografias. As garrafas remetem simultaneamente para os recipientes domésticos de conservação do leite e para os frascos laboratoriais, evocando a objetificação científica dos corpos negros.
O cordão que liga a imagem à garrafa sugere um vínculo umbilical pervertido: em vez de conectar mãe e filho, liga a mulher ao arquivo que a aprisiona. Paulino desmonta, assim, o mito da ama de leite dedicada e amorosa, revelando que os seus seios produziram “leite, lágrimas e sangue”, nas palavras da própria artista.
Série Amas de Leite (2007), Rosana Paulino. Monotipias sobre tecido, fitas de cetim, vidro e fotografia digital, dimensões variáveis.
Conclusão
A análise das obras Bastidores, Tecido Social e Amas de Leite permite compreender a produção de Rosana Paulino como uma reflexão crítica sobre os processos de construção da memória, da identidade e da representação. Através da apropriação de fotografias, imagens de arquivo e técnicas associadas ao trabalho feminino, a artista evidencia as marcas da colonialidade e os mecanismos históricos de apagamento que atingiram, sobretudo, as mulheres negras.
Mais do que recuperar narrativas silenciadas, Paulino questiona as estruturas que determinaram quem poderia ocupar um lugar na história e quem permaneceria à margem dela. Nesse sentido, a sua obra opera como um contra-arquivo, revelando as exclusões presentes nos discursos oficiais e propondo novas formas de compreender o passado.
Ao articular arquivo, corpo, memória e materialidade, a artista transforma elementos associados ao universo doméstico em instrumentos de crítica e resistência. A costura, recorrente na sua produção, deixa de ser apenas uma prática artesanal para assumir uma dimensão estética e política, tornando visíveis experiências historicamente invisibilizadas.
Dessa forma, a obra de Rosana Paulino demonstra como a arte contemporânea pode atuar como um campo de produção de conhecimento e de questionamento das narrativas dominantes. A força do seu trabalho reside na capacidade de articular sensibilidade estética e pensamento crítico, propondo novos modos de olhar para a história e para as relações de poder que continuam a marcar o presente.
Referências Bibliográficas
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